terça-feira, novembro 05, 2013

O casamento da censura com a propaganda

Carlos Chagas
Diário do Poder

Pacifista extremado, inimigo de todo tipo de militarismo, Bertrand Russell chegou a ser duas vezes confinado pelo governo inglês por opor-se às guerras de 1914-18 e 1939-45.  A primeira  num quarteirão em Londres, a outra na Escócia. Era socialista. Viajou à União  Soviética nos primeiros anos do regime comunista e deparou-se com a férrea censura à imprensa  e à liberdade de manifestação do pensamento. Mais o monopólio  da propaganda pelo governo bolchevique.  De volta à Inglaterra, irritado, escreveu que os russos  mais felizes  eram os analfabetos, aliás, naqueles idos a maioria, “porque a capacidade de ler,naqueles tempos de jornais subsidiados, era um obstáculo à aquisição da verdade”.

Não vamos chegar a tanto,  o analfabetismo existe no Brasil atual, até em índices maiores do que há décadas atrás, mas nossos   analfabetos, mesmo sem ler jornal, submetem-se a dois fatores  iguais e  mais sofisticados  com os criticados pelo  genial matemático e filósofo. Fala-se  da censura e da propaganda.  Não a censura policial de tempos atrás,  sequer  da propaganda dos governos, que obviamente existe. A realidade atual é   sutil e perversa.

Surge muito  mais profundo o risco enfrentado não apenas pelos analfabetos, mas por toda a população, diante dessa sofisticada manipulação imposta pelas elites.

Primeiro a censura,  praticada com a cooperação dos próprios  meios  de comunicação: suprimiu-se, se é que algum dia existiu, o debate a respeito do que seria uma sociedade evoluída   e organizada através da própria organização e evolução do indivíduo.  Estabeleceram-se padrões que a mídia não contesta, mas, pelo contrário, integra-se neles. Lemos nas folhas e assistimos nas telinhas,  agora telões, ser a livre competição a razão principal de nossas vidas.  Obriga-se a todos considerar o vizinho do lado um adversário. O resultado é que as elites transformaram nossa existência num  campo de batalha onde, não por coincidência, vencem sempre o mais forte e  o mais esperto, sob a empulhação de que  todos são livres para competir. Mentira, a competição se fere entre  cartas marcadas.

Quanto à  propaganda,  serve para alimentar a farsa. Melhor para o cidadão sonhar com a  troca anual  de carro, a maioria sem poder, ou entregar-se à pirataria das facilidades bancárias, ou a comidas e remédios maravilhosos   do que dedicar recursos e tempo, também quando pode e possui,  para construir uma sociedade mais justa. Para instruir-se, instruir os filhos  e meditar sobre os princípios e os fins de todos nós.

E nem adianta imaginar que seríamos mais felizes se fossemos analfabetos. O casamento da censura com a propaganda gerou essa ilusão que sufoca  o ser humano e impede a sociedade de alcançar suas possibilidades ideais. Um dia, quem sabe…