sábado, março 24, 2012

Brasil poderá ter nova crise de desvalorização do real, diz Unctad

Beatriz Olivon
Exame.com

Já Gabriel Palma, professor da Universidade de Cambridge, defende controle do câmbio, com piso de, pelo menos, 2,00 reais/dólar

Karen Bleier/AFP
A OCDE acha que “as finanças públicas de inúmeros estados
 estão numa trajetória insustentável”

São Paulo – No momento o Brasil é campeão em apreciação de sua moeda – Entre 2000 e 2011 a taxa de câmbio apreciou mais no Brasil do que na China, zona do Euro e Estados Unidos, segundo dados da Unctad. Para Heiner Flassbeck, chefe de macroeconomia e desenvolvimento da Unctad, uma nova crise de desvalorização, como a de 1999, está por vir. 

“Muitas pessoas dizem que dessa vez é diferente. Meu foco é que dessa vez não é diferente e vocês terão o mesmo problema que tiveram em 1999”, afirmou Flassbeck no seminário “Financial Stability and Growth” realizado na FGV. Para Flassbeck, um choque financeiro pode exercer pressão no real e levá-lo de volta à situação de 1998.  Em 1999 o Banco Central abandonou o regime de câmbio fixo e passou a operar em regime de câmbio flutuante. Como consequência, a moeda logo se desvalorizou. 

As taxas de câmbio se tornaram desconectadas dos fundamentos macroeconômicos, segundo Flassbeck. “A pergunta é porque o Brasil não segue a política de câmbio da China, pelo menos”, questionou. Depois da crise de 1993, a china ajustou a taxa de câmbio, segundo Flassbeck, “o que explica porque ela manteve uma boa performance de negociação nesses 15 anos e só agora está devagar, mas voltando”, afirmou o representante da Unctad. 

Hoje, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o governo continuará fazendo políticas de intervenção no câmbio. “O governo está certo em dizer que não pode aceitar a apreciação, mas o negócio é fazer uma ação maior”, afirmou Flassbeck. O chefe de macroeconomia da Unctad defende que a moeda brasileira precisa de desvalorização – mas não através de uma crise. Uma das formas seria diminuir a inflação – para cerca de 3% - e discutir os salários nominais com os sindicatos. “Vamos brigar na Organização Mundial do Comércio”, brincou Flassbeck. 

Controle
Para Gabriel Palma, professor da Universidade de Cambridge, o controle não funciona porque é mal feito. Palma defende um controle do câmbio, em um piso de, pelo menos, 2,00 reais/dólar. A taxa deveria ser explícita e flexível, na opinião do professor. “Qualquer banco central do mundo deveria ter duas metas: inflação e pleno emprego”, afirmou, defendendo a intervenção no câmbio.