Ruy Fabiano
Blog do Noblat
Há substanciais diferenças entre o cerco parlamentar imposto a Dilma Roussef e o que enfrentou Fernando Collor, quando na presidência da República. Collor não tinha base social e dispunha de um partido fictício, o PRN, criado para registrar sua candidatura.
Surgiu do nada na campanha presidencial de 1989, sem passado, sem história e sem programa. Venceu graças a uma engenhosa campanha de mídia e ao temor que os dois outros candidatos competitivos, Lula e Brizola, ainda infundiam à classe média e ao empresariado.
Dilma, embora também neófita em política partidária, integra um partido, o PT, que, goste-se ou não, possui sólidas raízes na sociedade civil organizada e uma história atuante de mais de três décadas. A crise, portanto, dá-se entre entidades concretas.
Collor não tinha aliados. Chegou a propor ao PSDB que assumisse o governo, nomeando todos os ministros. Graças à intervenção enérgica de Mário Covas, na época a liderança maior dos tucanos, o convite foi rejeitado. Mas quase foi aceito.
Lula, patrono de Dilma, além de ter exercido por duas vezes a presidência, com índices expressivos de popularidade, tem forte inserção no universo partidário, o que lhe garante interlocução, mesmo em momentos agudos como o atual.
Collor não tinha nada disso. Propôs-se estabelecer interlocução direta com a sociedade, explorando exatamente a imagem desgastada dos políticos, o que o isolou ainda mais de seus interlocutores.
O que os governos Collor e Dilma têm em comum, isto sim, é um vasto prontuário de escândalos – e aí, reconheça-se, Collor foi bem mais modesto.
As façanhas de PC Farias parecem estrepolias de escoteiro diante do mensalão, com seu cortejo de dossiês e aloprados, que marcaram o governo anterior.
O governo Dilma herdou esse passivo, expresso nas alianças parlamentares e nas nomeações ministeriais que fez. A vantagem de Dilma em relação a Collor é que não há um PT na oposição.
E isso confirma o que já se sabia: Collor não caiu pela corrupção, que serviu apenas de pretexto para derrubá-lo e, por isso mesmo, lhe sobreviveria até chegar ao paroxismo dos dias atuais. Caiu por falta de interlocução político-partidária, falta de base social.
A maioria elege, mas não fornece governabilidade. Esta depende de articulação política, que, no presidencialismo de coalizão, traduz-se por loteamento de cargos.
Foi com base nele que Lula governou e elegeu Dilma, desconhecida da maioria da população até às vésperas da campanha. O paradoxo que Dilma construiu – e que terá de superar - é o de tentar se livrar de quem a levou ao poder.
Até aqui, ao expor esses aliados à execração pública, apenas dificulta o caminho de volta, para o qual não tem alternativa: nem a oposição aderirá a seu governo, nem os aliados hão de se regenerar, nem é possível manter o ambiente de impasse presente. É recuar ou recuar.
As pesquisas mostram que a presidente ganhou popularidade com o enfrentamento, mas isso não lhe dá governabilidade. O público percebe a crise como ato de coragem, quando é apenas de destempero, inaptidão para a ação política.
Não conecta as pontas do processo, não vê que os atuais adversários da presidente são os que a levaram aonde está e que lhe garantiram que chegasse até aqui.
Por quanto tempo, porém, será possível manter esse quadro ilusório? Em algum momento a chamada Realpolitik, que Lula maneja tão bem, se imporá, e o caminho de volta será feito. Nenhuma das partes tem outra saída.