sexta-feira, julho 12, 2013

BC precisa de ajuda no combate à inflação

Editorial
O Globo

O governo fez um diagnóstico equivocado, optando por estímulos ao consumo, sem obter resultado em termos de crescimento e alimentando a alta de preços

Como esperado pelo próprio mercado financeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar as taxas básicas de juros em meio ponto percentual, que, assim, atingiram o patamar de 8,5% ao ano. A taxa real de juros estimada é de 2,9%, considerando-se a expectativa de inflação para os próximos doze meses. O Brasil passa a figurar novamente, e agora junto com a China, no topo dos juros reais mais altos entre as principais economias do planeta.

Em um momento que a economia brasileira se apresenta com um ritmo de atividade aquém do que havia sido projetado, parece contraditório que o Banco Central, por decisão unânime de seus diretores, tenha resolvido apertar ainda mais a política monetária. O problema é que a inflação se afastou há tempos do centro da meta (4,5%) e se mostra resistente à queda. Diante dos mecanismos remanescentes de indexação automática, baseada na inflação passada, mesmo que a alta de preços seja contida no limite de 6,5%, que é o teto da meta, trata-se de um nível perigoso, com risco de perda de controle. E em função da valorização do dólar no exterior, o câmbio deixou de ser um moderador dos preços no mercado interno e passou a ser um acelerador, pelo encarecimento das importações, e o fato de a exportação de produtos brasileiros (que antes poderiam ser oferecidos para os consumidores domésticos) se tornar mais atraente. O esforço para se retomar as rédeas do controle da inflação seria certamente bem mais doloroso para o país do que um aperto da política monetária nos moldes que está sendo adotado agora. 

Com a inflação se aproximando mais do centro da meta, a economia terá condições de recuperar a confiança dos investidores e ganhará novo impulso, aproveitando fatores favoráveis ao crescimento, como a Copa do Mundo de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016 e as oportunidades na indústria do petróleo a partir da exploração da camada do pré-sal. A elevação nas taxas básicas de juros poderá ser também temporária, se a política econômica, em seu conjunto, vier a contribuir mais efetivamente para o combate à inflação. Em face da crise internacional, o governo fez um diagnóstico equivocado e acreditou que a economia brasileira poderia ficar imune a essa turbulência com medidas de estímulo ao consumo. O resultado foi pífio em termos de crescimento econômico e ainda fomentou pressões inflacionárias latentes.

A sensação de volta da inflação é um dos combustíveis das manifestações que têm se repetido desde junho. Se o governo esperava tirar dividendos políticos da política de estímulo ao consumo, o tiro saiu pela culatra.
Já passou da hora, então, de se buscar o caminho da racionalidade na política econômica. O ajuste nas finanças públicas é novamente necessário. O que não pode é o Banco Central continuar sozinho na luta contra a inflação, sem a contribuição de efetivos cortes de gastos, pois isso o obrigará a recorrer a juros que já deveriam servir apenas como referência histórica.