sexta-feira, julho 12, 2013

Quando melhorar...

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Terça-feira, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, garantia que, "em cinco ou seis meses, quando a economia melhorar", a presidente Dilma terá voltado a desfrutar do prestígio junto à população e do apoio político perdido nos últimos meses.

É uma afirmação que se baseia em pressupostos e condicionantes que convém examinar. Fica reconhecido que a perda de chão político sob os pés da presidente Dilma não se deveu a súbitas mudanças de estado de espírito de uma população temperamental, mas aos desarranjos da economia, que se espera agora seja consertada. Não é difícil de identificar os dois principais: a escalada da inflação e o crescimento econômico insatisfatório. Mas há outros: os rombos crescentes nas contas externas, uma indústria que sofre de atrofia nas pernas e, principalmente, a condução deficiente das contas públicas (política fiscal).

Esse reconhecimento implícito dentro do governo não deixa de ser novidade. Até agora, nossas autoridades não identificavam nenhum problema grave. A inflação, por exemplo, era coisa temporária, causada por fatores externos e de reversão garantida. Com alguma paciência, logo viria a convergência, mais ou menos espontânea, para a meta.

O diagnóstico oficial para o PIB fraco era da mesma ordem. A crise externa e a recessão dos países ricos haviam encurtado o mercado para o produto brasileiro, mas, logo depois da primeira curva, viria aí o "pibão grandão", de nada menos de 4,0% a 4,5% ao ano (algumas áreas do governo projetavam até 5,0%), que tiraria as diferenças. Afora isso, os números do pleno emprego e do consumo interno robusto passavam atestado de saúde da economia.

Não basta o reconhecimento do ministro, e do governo, de que alguma coisa desandou. É preciso entender por quê. E, outra vez, o governo não parece interessado no diagnóstico.

Parece óbvio que ela se deveu às aplicações experimentalistas de política macroeconômica adotadas pelo governo Dilma. Foi a tal Matriz de Política Econômica, que se baseou na derrubada dos juros sem fundamentação técnica suficiente (meta dos juros em substituição à meta de inflação), na adoção de uma política orçamentária flácida, em nome da necessidade de adotar critérios anticíclicos (mais despesa em tempos de produção mais baixa) e no incentivo ao consumo sem correspondência na capacidade de oferta da economia.

Isso significa que, para garantir a virada, não basta submeter a economia a alguns ajustes de circunstância e incentivar os puxadinhos de sempre. É preciso mais.

É um equívoco, por exemplo, afirmar que a política fiscal do governo Dilma seja um descalabro. Apesar dos problemas, não é. Ela é apenas insuficientemente rigorosa para assegurar os objetivos pretendidos. Por isso, também, é a mãe das distorções. Menos rigor na administração das contas públicas estufa o consumo, abre rombo nas contas externas e exige um esforço excessivo da política monetária (política de juros) para controlar a inflação.

Tudo isso também provoca deterioração da credibilidade do governo, retrai os investimentos e leva o consumidor a atitudes bem mais conservadoras na administração do seu orçamento doméstico. A redução do apoio à presidente Dilma é consequência de tudo isso.

Já foi dito algumas vezes nesta Coluna que dá, sim, para reverter a situação adversa para o governo. Mas não custa repetir. A melhor sugestão nesse sentido foi manifestada pelo ex-ministro Delfim Netto. Para ele, o choque de credibilidade que mudaria muita coisa depende de que o governo federal assuma o compromisso formal de perseguir e atingir, em três ou quatro anos, o déficit nominal zero na condução das contas públicas. Com isso, receitas e despesas (incluídas as dos juros da dívida) do governo se equilibrariam, a dívida cairia em relação ao PIB e os investimentos voltariam a fluir.

Como não há nada de novo na administração da economia - a não ser a atuação mais realista do Banco Central a partir de abril -, também não dá para contar com que, em apenas cinco ou seis meses, melhore o desempenho da economia, como quer o ministro Gilberto Carvalho.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A análise de Celso Ming é perfeita. De fato, a insatisfação da população teve seu estopim no declínio das nossas virtudes econômicas, a começar pela inflação alta e constante.

 Mas seria simplório demais atribuir a saída às ruas para protestar, apenas por conta de razões econômicas.  A situação da saúde pública está insuportável. Mais indigno disto que está aí, só se não tiver saúde alguma. A insegurança, hoje, está presente em todos os rincões do país e com viés de alta. Nestes dois campos, saúde e segurança públicas, não se viu até o início de junho, o menor interesse do governo Dilma em achar soluções.

Os tais investimentos aos borbotões que o Brasil atrairia com eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas, ficaram pelo caminho, e muito pouco  se percebeu. O velho BNDES de guerra é quem mais tem sustentado o atendimento às exigências das entidades FIFA e COI. Ora, os bilhões que estão sendo injetados em estádios e parque olímpico estão fazendo falta em itens essenciais e que sensibilizam diretamente a população. 

A queda nas pesquisas é decorrência disto tudo, portanto, e não será apenas a economia que terá o dom de recuperar os índices de antes. 

Especificamente, em relação à economia, claro que o tempo joga em favor desta recuperação, mas não tanto. Qualquer mexida nos fundamentos sobre os quais trabalha a equipe econômica vai exigir tempo de maturação para produzir os resultados. E, muito provavelmente, tais resultados só serão sentidos após as eleições. Para implementá-los, contudo, é preciso agir agora, e não se esperar para o depois das eleições. Isto exige desprendimento político. E, como estamos advertindo até antes de Dilma Rousseff assumir, ou ela escolhe o projeto Brasil,  ou o projeto de poder de seu partido. As duas coisas juntas, são irreconciliáveis. 

Porém, quando observamos as agitações internas do governo Dilma, fica difícil imaginar que eles optarão por fazer a coisa certa em benefício do país. Ao receber em seu gabinete entidades como centrais sindicais, MST, UNE e congêneres, não é com responsabilidade fiscal que o governo está preocupado. Para agradar tais entidades, o governo precisará manter o cofre aberto, negociar medidas populistas. Tudo isso vai contra a uma política fiscal responsável. 

Até o Congresso enterrar a ideia de plebiscito, quantos líderes da oposição dona Rousseff chamou em seu gabinete para conversar e ouvir sugestões? Hoje, goste a presidente ou não, a oposição representa cerca de 40% do eleitorado, são tão brasileiros quanto qualquer um de sua base. Por que então o preconceito? Além disto, seria saudável que Dilma olhasse para trás e visse quem logrou trazer a inflação para baixo, lançou as sementes da estabilidade e da modernização da economia e abriu as portas para as conquistas sociais das últimas décadas. Teria muito a aprender.

 Dilma estará daqui a seis meses, fechando 3 dos quatro anos de seu mandato, e estará colecionando mais um pibinho. Talvez a inflação até arrefeça, mas o resto continuará do jeito que está. Hoje, saiu o resultado de maio: retração. E não será de se admirar que  as próximas projeções do PIB para 2013, joguem os índices para abaixo dos 2%!

É muito mais fácil esperar que a reversão de queda nos índices de aprovação se dê  por campanhas de marketing do que por ações efetivas. E será assim por uma razão específica: Dilma chegou ao poder sem ter um miserável e razoável projeto de país. Todas as suas ações se guiaram pelo viés do marketing e do improviso. Nada de muito mexe-mexe, nada de muito estrutural, nada de muito profundo, que é para não entornar o caldo ainda mais.

O problema do governo Dilma, fica claro, não é falta de projetos, é a própria Dilma. Seus  conceitos são inadequados, suas atitudes são antidemocráticas, sua teimosia é patológica, suas ideias de gestão são obsoletas, caquéticas. Com Dilma no governo equivale dizer  que o Brasil tem presidente mas não tem governo.