Vannildo Mendes, de O Estado de São Paulo
Declaração do ex-secretário Durval Barbosa, o pivô do escândalo do DF, foi dada à empresária Cristina Bonner, acusada de abastecer o esquema
BRASÍLIA - O esquema de corrupção no governo do Distrito Federal era conhecido de autoridades do Judiciário e do Ministério Público pelo menos três anos antes da deflagração da Operação Caixa de Pandora, que investigou a quadrilha em 2009 e culminou com o afastamento do cargo do ex-governador José Roberto Arruda. É o que revela trecho inédito de um vídeo, gravado em 2006 pelo ex-secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, obtido com exclusividade pelo estadão.com.br. Procurado pelo Estado, Durval informou que não entregou vídeos para desembargadores e que disse aquilo apenas para demonstrar prestígio e botar medo na empresária.
O vídeo, com 17 minutos divididos em duas partes, mostra uma conversa de Durval com a empresária Cristina Bonner, dona da empresa de informática TBA, uma das empresas suspeitas, segundo investigação oficial, de abastecer o esquema com propinas em troca de contratos com o governo.
"Eu não sou burro", diz Durval exibindo sobre a mesa a coleção de vídeos que ele havia gravado com políticos recebendo propina em seu gabinete. Espantada e sem saber que também era filmada, Cristina o aconselha a guardar o material explosivo em local seguro: "Tira isso daqui!".
Durval a tranquiliza: "Não! Isso aqui é cópia... (O original) tá lá no meu sobrinho, tá no Ministério Público. Tem cópia também lá com os desembargadores meus amigos. Isso aqui... tem cópia na família. Eu não sou burro. Eu vou responder por ladrão? Eu não sou ladrão".
O vídeo faz parte da chamada coleção da corrupção, uma filmoteca com mais de 30 gravações feitas em sigilo por Durval Barbosa em 2006, no seu gabinete de presidente da estatal Codeplan, "para proteção pessoal futura", como disse à Polícia Federal em 2009, depois de se tornar réu colaborador da justiça. Os vídeos mostram o ex-governador José Roberto Arruda, parlamentares, secretários e autoridades do DF recebendo maços de dinheiro e enfiando em pastas, sacolas, mochilas e até em meias e cuecas.
Inédito.
A íntegra da fita com Cristina Bonner, que está em poder do Ministério Público, havia sido mantida em sigilo até agora. Nos trechos inéditos, a empresária aparece recebendo de Durval a notícia de que ganhara um contrato emergencial de R$ 9,8 milhões, na área de informática. Era a primeira compensação, segundo Durval declara no vídeo, de uma doação de R$ 1 milhão para a caixa de propinas coletadas pelo ex-secretário.
Por meio da assessoria de imprensa, Cristina Bonner negou que tenha sido uma das abastecedoras do mensalão do DEM e que tenha tido qualquer envolvimento no esquema. Informou que a fita de 17 minutos seria uma montagem grosseira, feita por uma empresa de Brasília, "possivelmente mancomunada com Durval e denunciada à justiça". Por isso ela disse que não vai comentar seu teor.
Com gritinhos de entusiasmo, Cristina contorna a mesa para dar um longo abraço em Durval. "Você está feliz?", pergunta ele. "Muuuuito", responde ela, sem conter de emoção.
O advogado da empresária, José Luis Oliveira, disse ao Estado que a "a Justiça já quebrou o IP da empresa que manipulou a fita e tentou postá-la na internet". Disse, ainda, que tem um laudo garantindo que a fita foi manipulada. O advogado refere-se a um empresário que, em abril de 2010, chegou a conseguir uma cópia da gravação de Durval e postou um trecho na rede por alguns minutos. Cristina Bonner recorreu à Justiça e conseguiu bloquear a exibição do vídeo.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Durval Barbosa, tanto quanto todos os demais cretinos que ele entregou, não vale um tostão furado, certo? Mas sua declaração merece reflexão e, principalmente, apuração, dado a gravidade da informação. Vejamos: segundo Barbosa, o conjunto de fitas que gravou foi entregue tanto para o Ministério Público três anos do processo estourar na praça. Então, por que o Ministério Público demorou tanto tempo para instaurar o inquérito? Por que a senhora Jacqueline Roriz teve o conteúdo do seu vídeo divulgado apenas após ter sido eleita para a Câmara Federal? Houve favorecimento a um dos réus neste caso? E quanto a declaração de haver entregue vídeos para desembargadores, verdade, mentira ou bravata?
Já há uns dez dias atrás, Durval Barbosa declarara que da coleção de vídeos que gravou, foram divulgados apenas uma parte4 deles. Onde estão as demais, em poder de quem? E nestes vídeos ainda desconhecidos do públicos, quem são os envolvidos? Por que a divulgação foi fracionada?
E quanto ao tempo em que o Ministério Público ficou com os vídeos sem instaurar inquérito nenhum, por que somente às vésperas da eleição em 2010, o escândalo foi deflagrado? Houve algum interesse político escuso na operação?
Olha gente, há muitas questões em abertas, muitas suspeitas balançando soltas no ar. E dada gravidade e repercussão que o caso teve, tais questões sem respostas e suspeitas na condução do inquérito, seria interessante que o senhor Durval Barbosa, já beneficiado pela delação premiada, dissesse tudo o que sabe e, a depender de suas declarações, que em seguida o Ministério Público se manifestasse para afastar de si a suspeita de algum beneficiamento, até de natureza política, na condução do caso.
Uma certeza, contudo, podemos ter: há muito mais sujeira escondida que precisa ser posta a limpo. Esclarecimento definitivo e sem trapaças é um direito que a sociedade tem e dever dos órgãos encarregados e responsáveis pela apuração dos fatos.