quinta-feira, março 17, 2011

Cabral, um intrometido na autoridade alheia

Comentando a Notícia

Primeiro leiam o texto abaixo, de Rodrigo Rötzsch na Folha online. Parece que alguém resolveu usar uma autoridade que não tem nem nunca teve. Volto depois para comentar:

Cabral cobra Obama por vaga do Brasil no Conselho de Segurança

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), disse hoje que, "se fosse presidente", esperaria que Barack Obama anunciasse, em sua viagem ao Brasil no próximo fim de semana, o apoio à pretensão brasileira de ocupar um assento permanente num Conselho de Segurança da ONU reformado.

"Eu cobraria o mesmo tratamento dado à Índia [em recente viagem a Nova Déli, Obama anunciou apoio a um assento permanente para a Índia no conselho]. Eu não sou presidente, mas tenho essa expectativa", afirmou.

Cabral disse também, que se fosse o goveno brasileiro, lembraria a ele que o etanol brasileiro não pode ser taxado como é taxado'. 'O governo americano nos deve a revogação desse absurdo. Se quer comprar petróleo brasileiro, que trate o etanol com dignidade', completou.

O governador confirmou que Obama e sua família dormirão dois dias no Rio, e que no domingo, o presidente, a mulher e as filhas irão conhecer o Cristo Redentor e a Cidade de Deus, onde funciona uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).

Cabral admitiu ter ficado contrariado com o fato de o governo americano ter escolhido essa favela, e não o Chapéu Mangueira, como ele havia sugerido. "Eu lamentei. Na autobiografia dele, ele dedica três páginas ao encontro da mãe dele com a cultura negra. Esse encontro aconteceu quando ela assistiu ao filme 'Orfeu Negro', que tem 80% de suas cenas no Chapéu Mangueira. Mas a Cidade de Deus está muito bem escolhida. Certamente para ele será uma grande emoção pisar numa comunidade pacificada, que ele pôde ver, em outro filme, como era violenta."

O governador negou que o governo vá promover estratégias para atrair público ao discurso que Obama fará na Cinelândia, no domingo, às 15h. "Obama é um astro, um ícone, vai atrair público espontâneo. Vão vir caravanas de outra cidade."

Questionado pela Folha se esperava um público na casa de 500 mil espectadores, no entanto, Cabral riu. "Rei aqui é o Roberto Carlos. Barack Obama é bem-vindo, vai ser um bom público, mas 500 mil só o Roberto Carlos."

Cabral confirmou ainda que Michelle Obama e suas filhas acompanharão Obama ao Cristo e à Cidade de Deus, mas que não irão ao discurso na Cinelândia e cumprirão uma agenda paralela, conhecendo o Jardim Botânico.

Para o governador, que falou sobre a visita de Obama numa entrevista coletiva após anunciar a instalação de uma nova fábrica da Nestlé no Rio de Janeiro, a visita de Obama se insere no grande momento vivido pelo Estado, que inclui a realização dos Jogos Olímpicos em 2016. "O Obama está vindo conhecer a cidade que ganhou da cidade dele [Chicago] o direito de sediar a Olimpíada."

"O fato de não só o presidente Obama, mas o que os americanos chamam a 'primeira família' [a mulher e as filhas do presidente] virem ao Rio é extraordinário. Eu acho que os democratas têm mais bom gosto que os republicanos. Porque o [ex-presidente George W.] Bush não veio ao Rio, mas o [ex-presidente Bill] Clinton e o Obama sim."

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***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

A quem compete, afinal, a condução da política externa brasileira? Governo federal ou estadual? Não tiro o direito do senhor Cabral se manifestar e expressar sua opinião. Ocorre, porém, que ele é um representante político, governa o estado do Rio de Janeiro, e política externa não é tema de sua alçada ou competência. Mesmo que fosse questionado por algum jornalista, deveria calar-se e não se manifestar, transferindo a responsabilidade pela resposta a quem de direito, no caso, à Presidência da República.

Esta mania ridícula que alguns políticos brasileiros tem de quererem responder a tudo e a qualquer hora, é demonstrativo eloquente do atraso e do provincianismo de que se revestem.

Sérgio Cabral não pode se manifestar em assuntos externos enquanto governador. Ele não é um simples cidadão. Representa uma parte do Estado e sua manifestação deve ocorrer apenas no nível de sua autoridade.

Aliás, neste quesito até infantil de político brasileiro dar pitaco até em assunto que foge à sua alçada, tem seu representante máximo na figura do ex, Luiz Inácio. O raio é que são exatamente os mesmos que, depois, querem ou entendem que a imprensa deve ser “regulada”. Ou seja, uso de um direito para defender que este mesmo direito seja solapado pelo Estado.

Cabral, a exemplo de Carlos Lupi em relação ao Japão, foi outro que perdeu preciosa oportunidade de ficar de bico calado. Deveriam ambos aprender que o silêncio, em muitas ocasiões, mesmo para um político, fala muito mais alto do que qualquer discurso que resolvam proferir, cheios de baboseiras. Além de ser um cartão de visitas da boa educação ou falta dela que possam ter.