Adelson Elias Vasconcellos
Duas são as afirmações que, em relação aos aeroportos brasileiros, jamais deixamos de fazer de uns tempos para cá: uma, a de que o caos aéreo apesar das autoridades dizerem que o “apagão já era”, ainda circulava por aí, vivinho da silva. O apagão aquele, do qual todos querem esquecer, tinha duas frentes: de um lado, a operação tartaruga dos controladores de tráfego aéreo que infernizaram todo o sistema e colocou a vida de milhares de passageiros em grave risco. A outra era o sistema aeroportuário do país, no qual se investiu pouco no necessário, e muito no que era apenas perfumaria. Este apagão ainda está aí, e só não o aceita quem não precisa viajar de avião, ou quer bancar o “agradável” aos olhos do governo, quem sabe se habilitando a alguma recompensa oculta...
Foi neste sentido que critiquei duramente o editorial do JB que sentira ofendido por conta de uma reportagem publicada no diário inglês, Financial Times, que alertava o país para os graves problemas que enfrentamos e que podem comprometer o sucesso dos grandes eventos internacionais programados para 2013, a Copa das Confederações, em 2014, a Copa do Mundo e, finalmente, em 2016, a Olimpíada no Rio.
Tanto o jornal inglês estava certo em seu alerta, quanto nosso artigo criticando a posição provinciana do JB, que apelava para um ranço patriótico dos tempos da ditadura militar, portanto, ultrapassado e anacrônico.
Ontem, a ANAC realizou uma espécie de assembleia com as principais companhiaa aéreas para que se tomassem medidas no sentido de se evitar o martírio nos aeroportos do país no final de ano.
Mas o bom é que alertas do tipo do que fez o Financial Times acendem uma luz nas mentes dos responsáveis pelo sistema, para que saiam de sua frouxidão e passem do marasmo acomodado em que se encontram, para ações objetivas para resolução de problemas que dizem respeito a todos.
Assim, é saudável ver a manifestação do ministro dos Esportes, pedindo nova postura da INFRAERO e temendo que o país passe vexame durante os eventos internacionais a que acima nos referimos. Como é salutar ver que a INFRAERO também despertou para a realidade e, mesmo que de uma forma um tanto imbecil, resolveu agir.
Na crítica que fizemos ao JB, dizíamos que as “tais obras” que o editorial se referia, não passavam de fantasia do jornal. E que o país tem tido dificuldade de iniciar algumas destas obras ou por falta de planejamento ou até mesmo de recursos. No ponto do planejamento, muito colabora para a desgraça, a excessiva burocracia que torna um verdadeiro calvário para o poder público tirar estas obras do papel para a realidade. Pois bem, vimos em dos post logo abaixo, que o Terminal 3, de Guarulhos, em São Paulo, não será concluído em sua totalidade até 2014. Quem informa? A própria Infraero, mas claro, ressalvando que isto não vai atrapalhar em nada. Como não? Se hoje este anexo em sua totalidade já faz falta, que dirá dentro de 3 anos!
Mas se tudo está confuso, por que não esperar que fique ainda pior? Pois então, o sindicato dos aeronautas anuncia greve para esta semana, e ainda ameaçam outra para o Natal, caso suas reivindicações não sejam atendidas.
Parece ou não um ato de puro terror ... para os usuários. Assim, quem sabe as companhias aéreas, a Anac e a Infraero resolvam trazer os sindicalistas para estas “assembleias”, que têm por escopo uma pronta ação para evitar o apagão aéreo de fim de ano? Os passageiros, sensibilizados, agradecem imensamente.
Voltando ao tal editorial provinciano do JB, lá se diz de obras, investimentos, capacidade dos brasileiros, etc. Talvez o que eles não saibam é que a Infraero adora muito mais investir no ...mercado financeiro do que nas melhorias dos aeroportos, onde, a rigor, tirando os puxadinhos, o resto é precário a mais não poder. Saibam vocês que a estatal acaba de depositar mais R$ 1,6 bilhão em uma conta de remuneração no Banco do Brasil, arrecadados com taxas aeroportuárias, aluguel de espaço, publicidade, armazenagem, etc. Já as obras com vistas à Copa e Olimpíadas...Bem, eis aí algo que só o JB parece enxergar o que, ao restante do país , parece oculto. Os aeroportos mais movimentados estão na iminência de apagão. Todos estão congestionados, com estrutura defasada. Em Congonhas (SP), os passageiros até são embarcados, mas a decolagem atrasa até por uma hora, por causa do tráfego de aviões. Sem falar nas remarcações em cima da hora dos portões de embarque causando um transtorno danado. E isto é uma rotina dolorosa, que parece não ter fim. E que se note: as tais taxas de embarque cobradas, religiosa e impiedosamente pela Infraero, já são, há muito tempo, as mais altas do mundo.
De qualquer modo, parece que nossas autoridades resolveram despertar para um problema que já é real hoje, e que se não resolvido e debelado em definitivo até 2013 – atenção, o cronograma é para 2013, e não 2014 – comprometerá não só a organização daqueles três eventos, mas significará uma enorme perda de credibilidade do país junto à comunidade internacional quanto à nossa capacidade de realizar de forma séria e responsável, eventos de tamanha grandeza.
E volto a alertar: não pensem que tudo deva ser programado para estar concluído em 2014. Seria um erro imperdoável. Nosso compromisso é para 2013, quando se realizará a Copa das Confederações. Até lá, seria bom estarmos com 75% do previsto e necessário de ser feito, completamente realizado. Se nos descuidarmos, um mínimo que seja, no ano seguinte, em 2014, a Copa do Mundo periga não dar o retorno financeiro que o país imagina poder obter. E não são apenas os aeroportos como muitos creem ser nosso problema principal: tem questões como segurança pública, rede hoteleira, saúde, transportes públicos que fazem parte inseparável dos encargos a que estamos sujeitos.
Não tenho medo em relação aos estádios. Acredito que este será o menor deles. Até porque, uma partida dura 90 minutos e, considerando-se intervalo e a espera pré-jogo, digamos que os torcedores fiquem por duas a três horas dentro dos estádios. O restante do tempo estas pessoas ficarão fazendo o quê? Como se deslocarão, onde se alojarão, com o que se ocuparão são questões a serem cuidadas com carinho. E tudo prevendo o máximo de segurança.
Não esquecendo, ainda, que a copa dura cerca de 30 dias. Por isso que estádios e sua estrutura é uma preocupação a menos. As outras questões é que são importantes, e não vejo muita atividade ou preocupação neste sentido de parte dos governos federal, além dos estaduais e municipais onde funcionarão as sub sedes.
E é bom não brincarem muito: daqui até 2013, o tempo corre rápido, e praticamente estamos com tudo por fazer.