Ricardo Setti, Veja online
Pobre da presidente eleita Dilma Rousseff.
Ela vai herdar um Ministério colossal, absurdo, gigantesco, talvez o maior Ministério de qualquer país do planeta, e certamente o mais numeroso da história “deste país”, com 37 ministros – e, pior que isso, “imexível”, como diria um ex-ministro de triste memória: o presidente Lula engordou aos poucos a cúpula do governo em Brasília para melhor aquinhoar os chamados “partidos aliados”, e agora é um problemaço político mexer nesse monstrengo.
O Ministério que Dilma herdará de seu patrono faz lembrar a Hidra de Lerna da mitologia grega. A Hidra aparece no âmbito dos 12 trabalhos de Hércules, o semideus filho adulterino de Zeus, o rei dos deuses do Olimpo, com a esposa do rei de Tebas.
Não cabe neste post relembrar a complicada história que levou Hércules, em busca de expiação e da imortalidade, a ter que se haver com uma dúzia de tarefas impossíveis. O fato é que o segundo trabalho hercúleo já era enfrentar a Hidra, monstro aquático de nove cabeças, uma delas imortal.
Para cada cabeça que o herói cortava, nasciam mais tantas quantas faltavam para decepar. Hércules, naturalmente, triunfou. Nem a cabeça imortal sobrou.
SE FOSSE EMPRESA, O DONO FICARIA LOUCO —
Dilma, nos cinco anos em que pilotou a Casa Civil e nos quase quatro em que coordenou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), manteve incontáveis encontros e reuniões de trabalho com empresários e executivos de grandes empresas, em vários casos de empresas multinacionais de dimensões gigantescas.
Portanto, a presidente, que é economista, nem precisaria perguntar a um desses seus freqüentes interlocutores se existiria, em suas companhias, alguma chance de dar certo o trato direto com 37 diretores.
Com certeza ouviria, como resposta, que lidar com 37 direct reports é um absurdo capaz de tornar a empresa burocratizada, hipopotâmica, aparvalhada – sem contar que o CEO, presidente ou dono provavelmente ficaria louco.
Pois um dos segredos do que hoje se considera uma boa governança empresarial consiste, justamente, por meio da delegação e outras formas de gestão, em diminuir o quanto possível o número de interlocutores obrigatórios de cada gestor em seu respectivo nível.
NO 1º ANO, MARINA SÓ DESPACHOU UMA VEZ COM LULA —
O presidente Lula pretendeu, e conseguiu, acomodar o máximo de partidos políticos possível no Ministério, em nome da “governabilidade”. Só que deixou de lado a busca de maior eficiência da máquina – no caso, a mais numerosa desde a Independência, em 1822. Nem nossos dois imperadores, Pedro I e Pedro II, dispuseram de tamanho séquito administrativo.
A multidão de gente elevada à categoria de ministros é tal que alguns raramente despacharam a sós com o presidente. Basta fazer as contas: levando-se em consideração as numerosas viagens ao exterior e os muitíssimos périplos pelo país, Lula, durante seus 8 anos de mandato, passou cerca de um terço de cada ano, ou pouco mais que isso, em Brasília.
Digamos que tenham sido 100, ou até 120 dias úteis por ano. Mesmo que despachasse diariamente com um ministro diferente, o que não ocorreu, eles passariam mais de três meses sem contato com o presidente. (Não sei se vocês se lembram, mas no primeiro ano do primeiro lulalato, 2003, tornou-se conhecido o fato de que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, então politicamente muito próxima ao presidente, só despachou com ele uma única vez).
os dois presidentes governaram com um máximo de 11 ministros
Lula, como sabemos, gosta de se comparar a presidentes com marca de realizadores, como Getúlio Vargas ou Juscelino Kubitschek. Nunca mencionou, contudo, comparações com o tamanho dos respectivos times.
GETÚLIO E JK TIVERAM UM MÁXIMO DE 11 MINISTROS —
Embora os tempos naturalmente sejam outros, e mais complexos, Getúlio, em seus quatro diferentes períodos de governo e 18 anos de poder (de 1930 a 1945 e, depois, de 1951 a 1954), governou com um mínimo de 7 e um máximo de 11 ministros.
Juscelino Kubitschek (1956-1961) contou com 11 ministros, e 5 titulares do que então se chamavam “órgãos de assessoramento”, como os gabinetes Civil e Militar.
Quase todo país sério e maduro é governado por equipe enxuta. Os presidentes americanos, por exemplo, conseguem tocar adiante a superpotência de 300 milhões de habitantes e uma economia colossal de mais de 13 trilhões de dólares com 15 ministros. O primeiro-ministro da Espanha (“presidente do governo”, como se diz lá), José Luis Rodríguez Zapatero, governa também com 15 ministros, aí incluídos três “vice-presidentes do governo”, ministros com atribuições mais importantes, sendo que o primeiro vice é seu substituto eventual.
Sim, sim, a França do presidente Nicolas Sarkozy tem 30 ministérios, secretarias e afins. Mas Sarkozy tem, lembremo-nos, um (bom) primeiro-ministro, Pierre Fillon, que por sua vez tem um vice.
É claro que a eficiência de uma máquina pública não se mede apenas pelas dimensões do Ministério. Para que ela ande a contento, porém, o tamanho exagerado é o primeiro e grande empecilho, que Lula não levou em conta durante o primeiro mandato e continuou a fazê-lo no segundo.
Dilma, com traquejo administrativo e familiarizada com práticas de empresários modernos, certamente sabe do problema. Está, porém, politicamente de mãos atadas. Terá de dar tratos a bola para fazer esse monstrengo político e burocrático de 37 cabeças não ser um grande estorvo em seu governo.

