sexta-feira, outubro 12, 2007

As rezas do suplente

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Nelson Carneiro era mais uma vez candidato a senador pelo PMDB do Rio de Janeiro. A direção do partido se reuniu para indicar os suplentes. Fez uma lista e foi visitá-lo em casa, no posto 6, em Copacabana.

O senador os recebeu cordialmente, sentaram-se todos, foi servido um cafezinho. Depois, ele abriu a lista, leu os nomes um a um, até terminar:

- Estou vendo que os nomes que vocês me trazem para compor minha chapa de senador têm todos o maior mérito, são companheiros do partido, quase todos ilustres e antigos dirigentes. Mas sinto comunicar-lhes que nenhum deles será meu primeiro suplente. Segundo suplente, qualquer um pode ser. Mas o primeiro já está escolhido, é o professor Paulo César.

Nelson Carneiro
Fez-se um silêncio gelado. Ali, quase ninguém conhecia o professor Paulo César, dono de modestos colégios nos subúrbios do Rio, filiado ao MDB e ao PMDB desde a fundação, e fiel e incansável correligionário de Nelson Carneiro desde que ele, chegado da Bahia em 1958, pela primeira vez se elegeu pelo Rio de Janeiro, antes mesmo de criado o Estado da Guanabara.

O senador explicou pacientemente:

- Sei que alguns de vocês pouco ou quase nada sabem do professor Paulo César. Mas há 30 anos, desde que disputo mandatos no Rio, ele tem sido meu mais fiel e constante companheiro. E por isso vai ser meu suplente.

Paulo César
O senador tomou calmamente um gole de café e concluiu:

- Meus amigos, o que é o suplente? É aquele que, em caso de morte, substitui o efetivo. Por mais que um suplente seja generoso e virtuoso, lá no fundo de sua alma, todos os dias, ele pode até nem dizer, mas sempre reza que o titular morra para ocupar o lugar dele.

E o professor Paulo César, de todos os senhores, é o único aqui presente que tem o direito de desejar a minha morte para assumir o mandato em meu lugar, porque, afinal, há 30 anos, me acompanha e ajuda fraternalmente, generosamente. E mais: ele é o único a quem dou o direito de rezar para eu morrer e ele virar senador. Mas os senhores, não. A nenhum do senhores dou o direito de ficar agourando a minha morte para me substituir.

Paulo César foi suplente e, se rezou, devia ter reza fraca. Não adiantou nada. Nelson cumpriu seu terceiro mandato até o último dia. Só saiu derrotado na eleição seguinte, pelo povo.

Wellington
Contam os jornais que o cabeludo desgrenhado, suplente de senador Wellington Salgado, que é uma fraude geográfica e eleitoral, porque é de São Gonçalo, no Rio, mas suplente do senador Helio Costa, do PMDB de Minas, só ficará no mandato até dezembro porque, doravante, a partir oe próximo ano, o suplente de Helio Costa será o segundo suplente, o Fioravante.

Salgado, que é dono de uma indústria educacional, a "Universidade Universo", já deve ter se ressarcido de sua parte no financiamento da campanha de Helio Costa. Agora será a vez de o segundo suplente receber o segundo pedaço da partilha do mandato.

Quem tem a TV Globo para lhe dar e garantir o Ministério das Comunicações, como Helio Costa tem, não morre pagão. É indemissível.

Escórcio
A imprensa cada dia sabe menos do que diz. O funcionário da presidência do Senado, Francisco Escórcio, flagrado no aeroporto de Goiânia acertando um esquema mafioso para filmar e controlar os vôos dos senadores goianos Demóstenes Torres e Marconi Perilo, pode ter ido lá prestar serviços a Renan Calheiros, mas ele não escova os dentes sem ordem do senador Sarney.

Quando Sarney era proprietário do Maranhão, na ditadura, o Chiquinho Escórcio, imposto por Sarney, chegou a ser suplente do saudoso senador Alexandre Costa, e assumiu algum tempo, quando Alexandre adoeceu.

Quando Sarney foi presidente da República, Escórcio era móveis e utensílios do Palácio do Planalto. No primeiro governo Lula, Sarney nomeou Escórcio sub-subchefe da Casa Civil, substituto de Waldomiro Diniz, aquele avô do Mensalão, que era o vice de José Dirceu.

Defenestrado José Dirceu da Casa Civil, Sarney levou Escórcio para o Senado, para suas missões impossíveis. E, a fim de não dar muito na vista, em vez de o pôr no próprio gabinete, o instalou no gabinete de Renan Calheiros, mas sempre a serviço dele, Sarney (onde ganha R$ 9.200).

Globo e "Veja"
O Congresso (o Senado de um lado e a Câmara do outro) vai ter ótima oportunidade de mostrar ao País quem é que manda mais lá: a Globo ou a "Veja".

O Senado criou a CPI das ONGs, para analisar as relações dos governos (federal, estadual e municipal) e das estatais com as ONGs do País, sobretudo a Fundação Roberto Marinho, a mais poderosa, faturante e rica das ONGs.

E o Câmara criou a CPI que vai desnudar a estranhíssima compra, pela espanhola Telefônica, da TVA, um canal pago da Editora Abril. Como se sabe, empresa telefônica não pode ser dona de canal de televisão.