Claudio Shikida, site Instituto Millenium
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Há uma música famosa do rock nacional cujo trecho mais famoso é: "ideologia, eu quero uma pra viver". O apelo não é estranho: muita gente não consegue viver sem uma visão de mundo que lhe dê conforto. Durante algum tempo, na Alemanha, o conforto de pertencer a uma raça superior ajudou muita gente a viver. Outros, claro, preferem a idéia de que sua religião é que salva e que os infiéis devem se converter ou morrer. Há, claro, aqueles que sinceramente acham que as necessidades de poucos devem ser ignoradas em prol da maioria, embora nunca digam que pretendem estar sempre ao lado da maioria.
Há uma música famosa do rock nacional cujo trecho mais famoso é: "ideologia, eu quero uma pra viver". O apelo não é estranho: muita gente não consegue viver sem uma visão de mundo que lhe dê conforto. Durante algum tempo, na Alemanha, o conforto de pertencer a uma raça superior ajudou muita gente a viver. Outros, claro, preferem a idéia de que sua religião é que salva e que os infiéis devem se converter ou morrer. Há, claro, aqueles que sinceramente acham que as necessidades de poucos devem ser ignoradas em prol da maioria, embora nunca digam que pretendem estar sempre ao lado da maioria.
Experimente conversar com seis amigos seus. Provavelmente terá seis opiniões distintas sobre como o mundo deveria funcionar. O ser humano tem um certo prazer em dizer aos outros como viver. Isto não é um problema quando se vive em uma sociedade descentralizada, isto é, na qual a concentração de poder é baixa. Entretanto, como repetem à exaustão alguns não-liberais, não vivemos em um mundo liberal. Não é preciso ser muito inteligente para se perceber que isto é um fato. Por isto é importante entendermos os diferentes graus de liberdade alcançados pelos países. A Freedom House e o The Fraser Institute, por exemplo, computam índices anuais de liberdades política e econômica respectivamente. Trata-se de uma forma de se entender melhor os benefícios da liberdade conforme a mesma se manifesta no mundo imperfeito e real em que vivemos.
Como nos lembra o blogueiro Bender, liberdade é a palavra-chave para muitos japoneses de Okinawa que, recentemente, protestam contra as tentativas do governo japonês de recontar a história da Segunda Guerra Mundial sob a ótica oficial. É também a palavra-chave de muito chinês sério que não gosta do massacre ideológico que seu governo impõe às suas crianças com livros de história totalmente distorcidos.
No Brasil, atualmente, há uma grande polêmica em torno dos livros didáticos. Polêmica, aliás, similar a esta citada anteriormente. Na blogosfera, por exemplo, a discussão não foi capaz de avançar muito. Há gente que chame o autor X de criminoso, outros acreditam que o autor Y é um descompromissado com a história. É engraçado como mal-intencionados e inocentes se degladiam em torno de uma questão secundária: tentar negar que há doutrinação deste ou daquele autor (ou "que tudo é relativo"). Há anos, qualquer adolescente com um mínimo de discernimento percebe que vários professores de História, com ou sem livros didáticos, buscam impor suas respectivas agendas ideológicas aos alunos por todo o país. Na época do governo militar, naturalmente, o discurso em sala de aula era marxista, socialista e comunista. Claro, nas universidades isto era mais contido por dois motivos: (i) acadêmicos de história são mais sérios no trato da disciplina do que professores de colégio, em média, e sabem que não existe apenas uma visão (normalmente a marxista) da história e (ii) acadêmicos eram vigiados por agentes do governo militar.
Em The Master Plan - Himmler's Scholars and the Holocaust, de Heather Pringle (obrigado, Cisco, pela dica deste ótimo livro), vemos como um jovem com um ideal usou e abusou de um discurso "científico" para avançar sua agenda política. Sim, poderia ser o Che Guevara, mas a história é escrita pelos vencedores. Logo, falo de Himmler. E qual a diferença de Himmler para o ministério da educação japonês ou chinês? Basicamente nenhuma. Todos eram ou são, oficialmente, portadores do monopólio da coerção sobre seu território geograficamente demarcado e reconhecido pelos tratados internacionais. Todos foram, de alguma forma, alçados à categoria de burocratas com poderes sobre a educação de crianças e adolescentes que um cidadão comum jamais sonharia em ter. Claro, a reação dos nativos de Okinawa recebe menos repressão do que a de um chinês - quem não se recorda de Tian An Men, nos anos 90? - ou de um judeu na Alemanha de Himmler, Göbbels, Röhm, Göring e Hitler. A diferença? O grau de liberdade de cada sociedade.
O problema da doutrinação não está no indivíduo que professa tal ou qual crença. Ele pode ser um nazista ou um socialista. Ou um liberal. Mas o que não vale é ele ter o poder de impor sua visão de mundo sobre os outros. Aliás, dentre nazistas, socialistas e liberais, apenas os últimos acreditam que a não-imposição de valores é o caminho para a prosperidade da sociedade. Assim, o problema está no excessivo poder do governo. Não há um único motivo teoricamente consistente, compatível com uma sociedade na qual haja liberdade de pensamento, que justifique a imposição de uma única visão da história por parte de um governo sobre sua população.
Percebeu? O problema está no governo hipertrofiado. Um governo que não cuida do jardim, mas que deseja decidir que sementes plantar e onde. Um governo obeso, tão presente nos elogios dos intelectuais oficiais da América Latina em pleno século XXI como panacéia para todos os males (lembre-se: os intelectuais estão, malandramente, sempre do lado dos "interesses da maioria"...). O governo excessivo é o problema, não a pluralidade de visões que encontramos em qualquer sociedade culturalmente vibrante.
Se você quer uma sociedade pluralista, que forneça às suas crianças e adolescentes o direito ao conhecimento das diversas visões da história, então você não tem escolha: deve lutar pela redução da coerção do governo sobre nós. Em outras palavras, você pode até não querer admitir, mas tem que ser liberal na sua visão de mundo.