sexta-feira, outubro 12, 2007

Nordestinos votam pelo Bolsa Família

Jornal do Brasil

Deputados do Nordeste fizeram de tudo para não desagradar aos eleitores durante a votação que aprovou a prorrogação da CPMF até 2011. Beneficiária de mais da metade dos recursos do Bolsa Família, a região foi responsável por apenas 25 dos 113 votos contra o imposto do cheque, no segundo turno da Câmara concluído na madrugada de ontem. Outros 106 parlamentares nordestinos votaram a favor da cobrança até o fim do governo Lula. Houve uma abstenção e duas obstruções do DEM da região.

O resultado mostra que as ameaças de que o veto à CPMF seria um risco ao futuro do Bolsa Família surtiram efeito. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse reiteradas vezes, inclusive em audiência pública na Câmara, que o governo não teria dinheiro para manter os programas sociais no próximo ano sem a arrecadação de R$ 38 bilhões do imposto do cheque. Seria um tiro certeiro na região Nordeste, que neste ano recebeu R$ 2,5 bilhões, dos R$ 4,8 bilhões gastos com o Bolsa Família de janeiro a julho.

Ano passado, dos R$ 7,5 bilhões destinados ao programa, R$ 3,9 bilhões foram para o Nordeste. O Sudeste recebeu R$ 1,8 bilhão, o Norte, R$ 733 milhões, o Centro Oeste, R$ 351 milhões e o Sul, R$ 673 milhões.

O caso mais gritante de adesão à CPMF no Nordeste foi o do Ceará. Todos os 22 deputados do Estado votaram a favor do imposto, inclusive o tucano Manoel Salviano. Piauí e Alagoas também só registraram votos favoráveis à cobrança da contribuição sobre movimentações financeiras. No Rio Grande do Norte, foram quatro votos a favor e apenas um contra. O deputado Betinho Rosado (DEM), embora presente à sessão, se absteve.

O líder do PSDB na Câmara, deputado Antônio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), lamentou o resultado da votação. Mas não acredita que os parlamentares do Nordeste tenham votado a favor com medo da reação popular caso o Bolsa Família fosse eliminado. Não soube justificar, porém, a traição de Salviano.

- Não sei o que esse deputado está fazendo no PSDB. Sempre vota contra o partido - comentou Pannunzio. - Perdemos na Câmara porque a oposição é minoria acachapante. O equilíbrio de forças no Senado é maior. Os senadores de oposição não vão permitir a cobrança de um imposto que serve para sustentar os programas sociais que são a muleta eleitoral do governo.

Um truque usado pelos deputados de oposição que não queriam votar contra a CPMF, mas também não poderiam arcar com o ônus de desobedecer a orientação do partido, foi faltar à sessão. Foram registradas nove faltas entre parlamentares de oposição do Nordeste. Duas do PSDB e sete do Democratas.

A Bahia foi o Estado do Nordeste com o maior número de votos contra a CPMF. Ainda assim, foram apenas sete deputados pelo fim da cobrança do imposto, diante de 26 a favor. Faltaram à votação Cláudio Cajado (DEM), Fernando de Fabinho (DEM), Félix Mendonça (DEM), Lídice da Mata (PSB) e Roberto Britto (PP).

Em Pernambuco, seis deputados votaram contra a CPMF e 15 a favor. Um dos votos contrários ao governo veio, porém, de um parlamentar aliado. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), seguiu a orientação da entidade que representa.

Desde o início da discussão da CPMF, a CNI fez oposição branda ao imposto do cheque. Monteiro defendia a redução gradual da alíquota, indicando que, como deputado, votaria com a bancada do governo. Surpreendeu os aliados que contavam com mais esse voto. Um apoio que provou-se desnecessário. No apagar das luzes, a vitória foi mais fácil do que o governo esperava.