domingo, novembro 26, 2006

Corrigindo a verdade

Por Sebastião Nery, na Tribuna da Imprensa
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O general Castelo Branco era diretor da Escola Superior de Guerra no governo de Juscelino Kubitschek e em 58 convidou o saudoso deputado Renato Archer (PSD-Maranhão), oficial da reserva da Marinha e especialista em energia atômica, para fazer uma conferência sobre a política nacional de energia nuclear. E avisou que era proibida a divulgação.
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O jornalista Medeiros Lima, que na época assinava a mais importante coluna da "Ultima Hora", assistiu à conferência e publicou tudo. Castelo ficou uma fera, certo de que Renato tinha traído o compromisso com a ESG. Telefonou para reclamar. Archer explicou o engano, mas em vão.
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Dias depois, Archer foi almoçar no restaurante da Maison de France, no consulado da França no Rio. E encontrou Castelo Branco almoçando com o poeta milionário Augusto Frederico Schmidt, presidente da Orquima, empresa que explorava as areias monazíticas de Guarapari e tinha provocado a famosa Comissão Parlamentar de Inquérito sobre contrabando de minérios atômicos.
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Castelo
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No dia seguinte, Medeiros Lima publicou na coluna da "Ultima Hora" que Castelo almoçava com Schmidt na Maison. O general se enfureceu. Não havia dúvidas de que fora Renato Archer quem dera a notícia para Medeiros publicar. E não tinha sido. Samuel Wainer, diretor da "Ultima Hora", também esteve no restaurante, viu Castelo com Schmidt e passou a notícia para Medeiros. Castelo ligou para Archer, irritado. Archer desmentiu. Castelo não acreditou. O telefonema ia acabando ríspido, quando Castelo mudou de tom:
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- Está bem, deputado. Acredito que não foi o senhor. Então me faça um grande favor. O senhor é amigo do doutor Samuel Wainer. Peça-lhe que consiga do jornalista Medeiros Lima publicar amanhã, na mesma coluna, que eu e o doutor Augusto Frederico Schmidt estávamos de fato almoçando na Maison, mas em mesas separadas. Renato ligou, Wainer pediu, Medeiros corrigiu a verdade.
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ONGs
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O PT e o governo Lula estão como Castelo Branco. Quando não conseguem esconder a verdade, tentam corrigir a verdade. Entre as "heranças malditas" que receberam de Fernando Henrique, uma delas foi a descoberta do uso das ONGs como um grande biombo para contratos e negócios escusos.Como as ONGs são entidades fluidas, voláteis, ectoplásmicas, impalpáveis e camaleônicas, "não governamentais" na teoria e oficiais no faturamento, tornam-se escoadouros escamoteados de dinheiro público.
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Começaram raras e beneméritas, em nome de ações de objetivos públicos com recursos privados. Hoje, são milhares e a maioria piratas. No mundo inteiro os governos de repente estão acordando para o quisto. Fingindo-se de entidades privadas, sem satisfações oficiais a prestar, transformaram-se em vampiras de dinheiro público incontrolado.
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Petrobras
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Sem concorrências públicas, sem licitações, alegando "especialização exclusiva", as ONGs assinam acordos e contratos de serviços de todo tipo com os governos, com entidades governamentais federais, estaduais, municipais, ou com empresas estatais, e, quando cobradas para se explicar, reagem indignadas como se fossem as virgens do terceiro céu (ou setor), intocáveis.
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E pior. Os que as contratam, para não prestarem contas também alegam "urgência de serviços", "características específicas" e outras baboseiras. E o dinheiro público rolando aos milhões. Só o governo federal, no ano passado, gastou mais de R$ 1 bilhão em contratos com ONGs. Imaginem as estatais. E os estados e municípios. É um mundo opaco, misterioso, geralmente corrupto.
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Não é só um problema brasileiro. Agora, na Rússia, está sendo feito um amplo e profundo inquérito sobre as ONGs. O governo já fechou dezenas, a maioria delas descobertas como agentes secretas de interesses externos.
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CPI
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O senador Heráclito Fortes, do PFL do Piauí, fez muito bem e também muito bem agiram os 47 senadores que assinaram e criaram a CPI das ONGs, inicialmente para apurar estranhos contratos e patrocínios da Petrobras para ONGs que se revelaram tesourarias petistas e comitês eleitorais disfarçados.
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É evidente que não pode e não vai ficar só nelas. Outras entidades governamentais, outras empresas públicas que contrataram ONGs também precisam abrir os contratos, prestar contas do que foi pago e do que foi feito.
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Não adianta o douto doutor Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras, sereno e competente profissional que veio da Bahia, de repente enfurecer-se quando cobrado pela imprensa sobre contratos e patrocínios de ONGs que comandaram campanhas do PT nas eleições ou as ajudaram financeiramente.
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Muito menos adianta a valentia de chamar jornalistas (como os do "Globo") de "irresponsáveis", "malvistos aqui", "persona non grata". O País, ainda há pouco, viu muitas vezes esse filme. Lembrem-se da arrogância inicial do Delubio e do Silvinho nas CPIs? No final, se dopavam e choravam.
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A Petrobras custou muita luta do País, de tantos de nós. Não é do PT.