quarta-feira, março 19, 2008

Os EUA, o PT e o Proer

Valdo Cruz, Folha de São Paulo
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Banco Central trabalhando dobrado no final de semana, fechando medidas para conter uma crise econômica e socorrendo bancos de quebradeira. Essa era uma rotina brasileira de alguns anos atrás, até o início da década de 90. Pois bem, esse cenário se repetiu nos últimos dias, mas não por aqui, mas nos Estados Unidos, a pátria do consenso de Washington, daqueles que se acostumaram a ditar as regras da boa governança econômica. Falharam. E feio.

Fico pensando se lá, nos Estados Unidos, existisse o PT. Não o de hoje, que foi domesticado pelo mercado --em certo sentido, ainda bem que foi--, mas o de antigamente. Aquele que atirou pedras no governo FHC quando lançou o Proer, o programa de salvamento dos bancos brasileiros quebrados em 1995. Tal como seu congênere tupiniquim, o PT norte-americano deveria estar lançando torpedos contra o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke. Dizendo que ele está salvando o dinheirinho dos banqueiros americanos.

Só que, hoje, se o Fed não conseguir segurar essa crise, à custa de ajuda a bancos em dificuldades, socorro mesmo, vamos todos para o fundo do poço. Se bater uma crise sistêmica nos Estados Unidos --o que significa uma quebradeira de bancos atrás de banco--, boa parte do mundo vai empobrecer. E a nossa fortaleza externa, erguida sobre os quase US$ 200 bilhões de reservas internacionais, pode começar a ruir rapidamente. Não que cheguemos a uma crise parecida com a vivenciada em anos recentes, mas com certeza daríamos adeus a uma taxa de crescimento que dá gosto de falar, tipo algo na casa dos 5%.

Daí que, nesse momento, o PT do presidente Lula deve é rezar para que são Bernanke não deixe a peteca cair e consiga consertar o estrago que o governo americano, o próprio Federal Reserve e os bancos de lá fizeram nos últimos anos, deixando crescer um mercado de risco no setor imobiliário pronto para explodir. E que explodiu. E cuja capacidade de destruição ainda não se sabe mensurar. O que incomoda a todos.

Até aqui, sobrevivemos. E bem, por sinal. Mas a segunda-feira, dia 17 de março, não foi nada animadora. Os preços das commodities caíram, o dólar subiu, a Bolsa de Valores despencou, o risco-país cresceu. E ainda não sabemos se novos bancos americanos, tal como o Bear Stearns, vão quebrar e terão de ser socorridos pelo Banco Central de lá. Sem falar nos europeus. Imagine se a crise também crescer no velho continente.

Se esse cenário persistir, significa que nossas exportações serão prejudicadas com a queda nos preços da commodities, a inflação poderá ser pressionada com uma alta elevada do dólar e tomar dinheiro lá fora ficará cada vez mais caro com um risco-país crescente. Sem falar que nossas empresas vão perder, momentaneamente, a boa fonte de financiamento do mercado de capitais. Claro que ainda estamos longe de uma catástrofe. Mas estávamos e ainda estamos tão próximos de um novo e duradouro ciclo de crescimento econômico. Será um pena que ele seja interrompido exatamente agora.

Ainda bem que o velho PT não tomou posse com o presidente Lula. Essa é a nossa sorte. Sem ele, teremos, com certeza, condições de atravessar até mesmo uma tempestade econômica. Não sairemos ilesos. Vamos sofrer um bocado. Mas vamos sobreviver.