Ricardo Setti, Veja online
Amigos, como sabe todo mundo que precisa viajar de avião, o Aeroporto de Congonhas, apesar de ampliado, renovado e modernizado, está no limite.
Viajei na noite de quinta-feira, 11, para Brasília, onde estou. Mania de repórter: em 23 viagens anteriores nos últimos dois anos e meio, minhas anotações mostram ter sido essa a 21ª vez que o portão de embarque para meu vôo mudou em cima da hora.
Todo mundo que conheço em São Paulo e que embarcou em Congonhas diz a mesma coisa: por alguma razão inexplicável — e que talvez seja bagunça, pura e simples, da estatal Infraero –, em quase todos os casos o portão de embarque é alterado, “em razão do posicionamento da aeronave”, conforme a ridícula explicação de sempre.
A ampliação e modernização que começou a ser entregue em 2005, e que incorporou 12 pontes de embarque (fingers) antes inexistentes, amplas áreas de espera, escadas rolantes, lojas, restaurantes e outros confortos, já não dá mais conta dos mais de 14 milhões de passageiros anuais e mais de 600 vôos diários — não precisa ser técnico ou engenheiro para dar o diagnóstico, basta ir lá e ver.
Tente o amigo do blog que mora em São Paulo guardar seu carro no gigantesco estacionamento inaugurado em dezembro de 2005, com 3.400 vagas: além das vagas autorizadas, centenas de automóveis ocupam todas as rampas de acesso aos cinco andares da garagem e qualquer outra área disponível que não bloqueie carros alheios.
Isso em dias mornos da semana.
DESATIVAR O AEROPORTO É SÓ UM SONHO — E Congonhas é um absurdo em si mesmo: um enorme e movimentadíssimo aeroporto incrustrado em área populosa da Zona Sul da maior cidade brasileira, cujo barulho e movimento afetam a vida de mais de 1 milhão de pessoas e as faz correr riscos reais, como provam acidentes pavorosos que nem é preciso relembrar.
Não existe em qualquer país civilizado caso de um aeroporto dessas dimensões estar instalado em malha urbana tão populosa.
Administrado pelo governo federal desde 1981, Congonhas juridicamente guarda laços com os governos municipal e estadual de São Paulo, cujos titulares não tiveram até hoje a coragem e a vontade política de dizer que é preciso criar uma alternativa que permita a progressiva desativação do aeroporto, inaugurado em 1936. Isso seria feito à medida em que um novo aeroporto, em região mais adequada, fosse erguido — já que autoridade alguma conseguiu conter a favelização que impede a ampliação do Aeroporto Internacional Franco Montoro, em Guarulhos,
Com um novo aeroporto em funcionamento, a gigantesca área de quase 2 milhões de metros quadrados de Congonhas poderia, então, ser transformada num imenso parque de que a população usufruiria.
Mas aí já é sonhar demais.
Só que a Copa de 2014 está no horizonte, e as Olimpíadas de 2016 também. Quero só ver no que vai dar.
