sábado, março 10, 2012

O país precisa é cobrar resultados do governo

Adelson Elias Vasconcellos

Por mais que o governo Dilma se esforce em manipular números e maquiar os dados sobre o PAC, a grande verdade é que esta “avalanche” não tem jeito de andar. O doloroso nem é o esforço do governo em tentar uma imagem que, todos sabem, está muito distante da realidade. O que fica difícil de engolir é que o governo, sabendo de todas as razões que culminaram com o crescimento do PIB em 2,7%, em 2011,  tentar se justificar com a crise internacional.  Dez em cada dez analistas diagnostica a mesma coisa: as causas estão todas aqui dentro mesmo. Esta conversa mole sobre o tsunami monetário, tão apregoado pelo discurso presidencial, atinge não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro. E aí, quando comparamos o crescimento do país com os parceiros do BRICS e até da América Latina, constatamos que o nosso 2,7% se situa na rabeira. 

Ora, se os outros, sofrendo do mesmo mal, a tal guerra cambial, conseguem ser mais felizes em se desenvolver, qual a razão que nos impede de alcançar os mesmos índices? Esta pergunta, creio, está aqui dentro, e é esta conclusão que o governo deveria chegar. 

Nesta semana, além do crescimento do PIB em 2011, outra notícia ruim deveria alertar as autoridades econômicas do Brasil para a questão “onde é que o governo está errando”?

Aí se anuncia que o governo tem imenso repertório de medidas, que irá tomar providências, que vai atuar, etc, e quando se tem o parto da montanha o resultado é um traquezinho muito do sem-vergonha, que não vai nos levar a algum. Ao invés de reformas estruturantes, teremos mais do mesmo, ou seja, medidas pontuais, coisinha pouca para atenuar a febre do paciente e não combater o mal que a provoca. Assim, virão mais linhas de crédito do BNDES, mais desonerações seletivas para algumas poucas atividades e ficaremos por aí. Senhores, dá até preguiça para comentar esta ação tão pobre, tão miserável, quanto insuficiente. 

Enquanto insistirmos em aplicar o mesmo receituário para corrigir apenas os sintomas do momento, sem nunca tratar a doença que fragiliza o paciente, nãoa se pode esperar que o país dará rumo a seu desenvolvimento. 

Falta arrojo ao governo Dilma, é como se tivessem medo de agir na direção que a realidade está apontando já faz algum tempo. Há receio, sei lá, de errarem a mão, ou de tomarem medidas que, mesmo impopulares, trariam enorme benefício ao país. É como se o projeto de governo (será que existe um?) tivesse por roteiro básico e único as pesquisas de aprovação que são feitas periodicamente. 

Entretanto, considerando-se o ritmo em que a indústria nacional vem definhando, e a falta de atitude por parte do governo, será preciso uma hecatombe, alguma mudança brusca da direção dos ventos, para fazê-lo desta imobilidade. 

 Enquanto isso, os demais países, que se encontram em crise profunda, pouco a pouco vão resolvendo seus problemas para retomarem seus crescimentos. A continuar perdendo oportunidades, chegará o momento em não apenas aqui, mas em outras partes do mundo surgirão economias com excelentes oportunidades de investimento.

Vemos que, nem com toda a carga tributária que abarrota o Tesouro ano após ano, com os crescimentos reais de arrecadação, o governo consegue elevar minimamente seus investimentos. Considerando-se o ritmo cada dia mais lento de execução dos pacs federais, e sabendo-se a ginástica que é feita para equilibrar as contas e fechar o orçamento, é de se perguntar onde vai o dinheiro?  Resposta: para tudo o que dá retorno ao país, ou seja, em despesas inúteis, verdadeiros monumentos ao desperdício. Assim, o investimento que deveria crescer e não cresce, a carga tributária que deveria reduzir-se e se mantém  intocável, os gastos correntes que precisariam sofrer forte redução ou contenção, continuam crescendo até mais do que o crescimento da própria economia, e as reformas estruturantes que deveria ser enfrentadas com coragem mas vão sendo levadas com a barriga, fica claro que o governo Dilma optou por trabalhar apenas na manutenção do que se tem. Nada de correr riscos, nada de mexer em coisas que possam atrapalhar a próxima eleição. Infelizmente, o país segue sem rumo, culta de um governo sem projeto.  

O alerta que a respeitada revista britânica “The Economist” (post abaixo) faz, deveria servir como aviso ao governo para que, ou diz a que veio, saindo desta passividade irritante e dê um rumo ao país, ou acabará comprometendo todas as nossas conquistas destes últimos 15 anos. O governo petista não tem mais a surrada desculpa usada por Lula durante seus dois mandatos de “herança maldita”. Estão no poder tempo suficiente para terem  elaborado um projeto de governo dedicado a corrigir e sanear nossas muitas deficiências. E até agora o que se viu foi muito discurso vazio, muita promessa inútil, muita improvisação. Até quando insistirá na mesma pantomima e mistificação? 

E não pensem que se trata de  má vontade em relação ao governo Dilma. Ela até que tem sido muito poupada das merecidas críticas e cobranças que o país como um todo deveria estar fazendo. Marcos Gutterman, em seu blog no Estadão, destacou que o comentarista Walter Russell Mead, da American Interest, considera que o atual momento da economia mundial colocou o Brasil numa encruzilhada – ou Dilma faz as reformas duras que nenhum político teve coragem de fazer, porque tiram votos, ou terá de conviver no fio da navalha entre crescimento pífio e inflação alta.

Um dos mais respeitados cientistas políticos americanos, Mead suspeita que talvez tenha sido precipitado festejar a estabilidade do Brasil a partir dos anos 90, após um longo histórico de alternância entre crescimento acelerado e recessão violenta.

Nos últimos anos de euforia, parecia que o tal “país do futuro” havia se transformado no “país do presente”. Para Mead, porém, “o passado ainda assombra o Brasil”.

Está na hora da sociedade brasileira entender uma coisa: Dilma quis ser presidente, ninguém a obrigou assumir o cargo. Quem quer o cargo que aceita os encargos. Ela, por estar à frente da Casa Civil no governo Lula desde 2005, deveria conhecer em profundidade a realidade e os problemas do país. Para ser presidente, trazendo na bagagem toda esta avaliação, apresentou um programa que, em linhas gerais, foi aprovado pela maioria da população. O voto de confiança lhe foi dado. Chegou o momento de cobrarmos a fatura, exigirmos os resultados. Não dá mais para protelar.  

Uma última observação: as dificuldades econômicas do país, conforme se viu pelo crescimento pífio do PIB em 2011, foi apenas um aviso. Existem muitas outras razões para o governo começar a se preocupar em cuidar dos interesses do país prioritariamente, do que ficar fazendo caridade para vizinhos que não se cansam de nos dar chutes no traseiro. A irresponsabilidade pela gastança desenfreada em inutilidades tem limites. Um pouco de responsabilidade com os recursos públicos e maior comprometimento com o país não fariam nada mal. A nação agradeceria comovida. 

Assim, o alerta feito por Mirian Leitão em seu artigo transcrito nesta edição, vem de encontro a tudo quanto temos dito e advertido ao governo: “...Os juros caíram, isso dará um alívio temporário, mas o país continua sem projeto, sem lista de tarefas a executar, sem meta de onde quer chegar. O Brasil continua perdendo o que não pode mais perder: tempo...”