sábado, março 10, 2012

A saída: parar de pagar impostos

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Ou se transfere a capital federal de volta para  o Rio ou se inaugura outra em São Paulo, em Minas, no Amazonas ou no Rio Grande do Sul.  Porque continuar em Brasília é a vergonha das vergonhas.  Não dá  mais para a cidade continuar desgovernada como anda. Nos idos de sua inauguração  era uma vez por mês, sempre que caía  uma tempestade.  De algumas décadas para cá passou a ser toda semana, mesmo sem chuva. Agora, sem a menor explicação,  é  diária a interrupção do fornecimento de energia elétrica. E atingindo  mais do que alguns bairros ou subúrbios, de forma intermitente, por poucos minutos, como acontecia antes.  Brasília inteira fica apagada.

O apagão chegou ao centro nervoso do Distrito Federal. Terça-feira a capital  parou. Permaneceram sem luz  o setor comercial, a Esplanada dos Ministérios, a Avenida W-3 e tudo em volta, desde os bairros nobres ao redor do Lago até as cidades-satélites da periferia.  Claro que nos  palácios do Planalto, da Alvorada e do Jaburu,  no Congresso e nos tribunais superiores, logo entraram em funcionamento os geradores pagos por quem paga imposto mas fica reduzido à idade das trevas. Nas residências e gabinetes dos governantes locais, a mesma coisa.  Fora deles, um caos generalizado, com o colapso dos semáforos, dos telefones fixos e celulares.   Os hospitais maiores, para os ricos, também se salvaram, com geradores próprios, mas os demais ficaram no escuro, como postos de saúde, escolas, estações de metrô, rodoviárias e a parte do  aeroporto destinada à plebe.   Dos restaurantes, não há que falar. Com as geladeiras sem funcionar, perderam  toda a sorte de alimentos, porque por  uma tarde inteira e parte da noite  Brasília ficou sem energia. Não raro dez, doze ou vinte horas.   Como também ficamos   sem informações, a não ser a abominável desculpa de não haver  previsão de retorno, isso quando por milagre se conseguia   comunicar com as repartições do setor.

Na década de cinquenta, o  Rio ainda era a capital e  pegou fogo um dos edifícios mais badalados da Zona Sul,  na confluência do Leme com Copacabana. Era o prédio da boate Vogue, carecendo os bombeiros de escadas capazes de atingir os últimos andares. Muita gente morreu queimada.  O comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Saddok de Sá, deu memorável conselho aos cariocas: quem morasse em andares altos deveria comprar a sua cordinha, para chegar ao limite das possibilidades da corporação que dirigia.

Aqui,  seria bom que os cidadãos não privilegiados carregassem  no bolso a sua  vela e uma caixa de fósforos, porque   mesmo durante o dia, quando falta luz, fica difícil descer pelas escadas escuras, quando não se fica preso nos elevadores. Os trabalhos perdidos por cada profissional ou operário  só ultrapassam o tempo  desperdiçado pelos médicos e dentistas em seus consultórios, os advogados e contadores em seus escritórios,  os estudantes inutilmente debruçados sobre seus livros. 

O prejuízo para o brasiliense é enorme, imagine-se para  aqueles  que todos os dias demandam Brasília para trabalhar ou resolver negócios, imaginando retornar à noite às suas origens.

Fazer o quê? Votar não adianta mais, porque tanto faz se os governadores são do PT, do PDT, do PSDB ou do PMDB. Incompetência não tem partido,  mostra-se presenteem todos. Protestar pela imprensa  adianta pouco,  as verbas publicitárias do governo local falam mais alto.

Só tem uma saída: desobediência civil. Parar de pagar impostos, de preferência os estaduais, mas de olho também  nos  federais,   porque a União  carrega sua parcela de culpa pelo  que se verifica por aqui. Uma campanha para deixar o governo local sem dinheiro para funcionar redundaria em um,  de dois resultados: ou os governantes  iriam embora, envergonhados, ou tomariam jeito. Deixar as coisas como estão não dá  mais, e olhem que só falamos dos apagões. Fica para outro dia lembrar sermos a cidade onde mais se assalta,  no caso, à  mão armada, além dos cofres públicos;  onde o trânsito é gerido pelo Capeta;  o desemprego apresenta-se em qualquer cruzamento; a saúde pública leva o povo ao desespero e a educação diploma jovens sem oportunidades nem  esperança.  Para  ninguém esquecer: o governador atual  chama-se Agnelo Queirós, mas já foi Joaquim Roriz,   Cristóvan Buarque e outros.