Octávio Costa
Brasil Econômico
No fim de 1992, depois de uma série de percalços envolvendo sua família, a rainha Elizabeth II recorreu a uma expressão latina para expressar o desagrado. Disse que estava vivendo um "annus horribilis".
Por elegância, não entrou em mais detalhes, mas ficou claro para os súditos que Sua Majestade referia-se ao fim dos casamentos dos príncipes Charles e Andrew, ao divórcio da princesa Anne e ao incêndio que destruiu grande parte do Castelo de Windsor.
Quem viu a expressão de irritação e cansaço no rosto de Dilma Rousseff na manhã de quarta-feira só pode chegar a uma conclusão; a presidente está vivendo dias difíceis. É cedo para afirmar que 2013 será um ano horrível para Dilma, mas o momento, definitivamente, não está colaborando, desde a política, passando pela economia, até as questões sociais.
No frente política, a presidente enfrenta o apetite oportunista do principal parceiro da base aliada, o PMDB. Ela faz o possível para manter em alto nível o diálogo com o vice-presidente Michel Temer e outras raposas como José Sarney e Renan Calheiros. Mas as pontes que constrói não sobrevivem ao pragmatismo rasteiro das lideranças do PMDB na Câmara. Ali, os interesses nunca são republicanos.
Além da pressionar pela liberação das emendas parlamentares, a moeda de troca mais tradicional do Congresso, os deputados têm o péssimo costume de desvirtuar projetos do governo para incluir alterações encomendadas por forças nem tão ocultas. Foi o que se viu no caso da MP dos Portos.
Pelos adendos, seriam mantidas concessões anteriores e posteriores à legislação de 1993 e também os terminais de indústrias. Na prática, nada mudaria. Dilma, com toda razão, vetou as mudanças. E agora é ameaçada pelos descontentes do PMDB, que ameaçam derrubar seus vetos.
A economia é outro terreno movediço. O PIB patina, a inflação custa a ceder, o dólar sobe apesar de tudo e a balança comercial vai mal. Para agravar, o discurso otimista do ministro da Fazenda não encontra eco na diretoria do Banco Central. Enquanto Guido Mantega diz a todo momento que a inflação está controlada e a economia começa a deslanchar, o Banco Central só vê nuvens carregadas no horizonte.
Ao justificar a elevação da Selic para 8% ao ano, a ata da última reunião do Copom, divulgada ontem, chega a ser assustadora. Adverte que o nível elevado e a dispersão do aumento de preços contribuem para que a inflação mostre resistência.
E adverte sobre os mecanismos formais e informais de indexação e a piora na percepção dos agentes econômicos sobre a dinâmica da inflação. Faz-se necessário, segundo o BC, que esse processo seja revertido, "com a devida tempestividade". Explica-se, assim, a escalada dos juros. E o tom alarmista da ata.
Por último, mas não menos importante, ressurgiu esta semana com força a questão indígena. Uma pedra no caminho dos avanços sociais. A morte de um índio durante ação da PF e da Polícia Militar para garantir a reintegração de posse de uma fazenda em Mato Grosso do Sul deixou a nação terena em pé de guerra.
Encarregado de negociar uma saída, o ministro Gilberto Carvalho enrolou-se todo e "se equivocou" ao afirmar que Dilma teria criticado a decisão judicial. Mesmo com o desmentido de Carvalho, a paciência da presidente chegou ao limite. Mas tudo pode mudar. O ano de 2013 ainda está pela metade.