Editorial
O Globo
A falta de um sistema de transportes adequada impede que o crescimento mais expressivo de algumas regiões se estenda pelo país, com benefícios generalizados
Por séculos, a economia brasileira ficou restrita a uma faixa litorânea, que pouco se aprofundava pelo interior. Esgotado o ciclo do ouro, os rincões brasileiros voltaram ao isolamento. A infraestrutura acabou se limitando a essa faixa litorânea, e mesmo assim com pouco interligação.
Mesmo sem contar historicamente com uma infraestrutura razoável, algumas regiões do interior hoje crescem bem mais que a fraca média nacional. Com um bom sistema de transportes, armazenagem, energia e telecomunicações, por exemplo, o interior como um todo seria mais dinâmico e o litoral também poderia se beneficiar desse impulso.
Para que produtos das regiões Norte ou Centro-Oeste cheguem aos mercados do Sul e Sudeste às vezes são necessários de nove a quinze dias de viagem, o que é caro e às vezes chega a inviabilizar o negócio.
O país abriu recentemente os olhos para a questão dos portos, que são as entradas e saídas das mercadorias relacionadas ao comércio exterior brasileiro, mas que deveriam também cumprir um papel mais importante na distribuição de bens comercializados entre uma região e outra do país. À medida que se tornem mais eficiente, os postos poderão exercer tal tarefa, aumentando consideravelmente seu movimento, com ganhos de escala que podem se traduzir em redução de custos e benefícios para todos.
Mas os portos não são ilhas isoladas e dependem de bons acessos terrestres, marítimos ou fluviais. A formação dos corredores de transportes quase sempre extrapolam as divisas de um município, um estado ou mesmo uma região, o que implica mais comprometimento do governo federal no planejamento e no estímulo á realização de investimentos. Algo essencial, porque um dos pontos negativos citados em pesquisas sobre a capacidade de atração de investimentos externos é, no caso do Brasil, a infraestrutura.
Estados e municípios, dentro de suas capacidades financeiras, não podem ficar alheios a esse esforço de dotar o país de uma razoável infraestrutura, pois serão beneficiários dos ganhos que advirem das melhorias resultantes de uma economia nacionalmente mais ativa.
Há licitações programadas para grandes aeroportos, rodovias e ferrovias nos próximos meses. Existem obras em andamento, mas a um ritmo frustrante. A experiência acumulada tanto no processo de concessões como no da execução de obras diretamente sob condução do setor público permite que se reveja o que não tem funcionado bem, corrigindo-se erros e adotando-se as medidas necessárias para o país avançar. Isso é que seria de fato um programa de aceleração dos investimentos, que pouco tem a ver com o que foi batizado com esse rótulo pelo governo federal, que, na prática, não produziu o efeito desejado ou alardeado pelas autoridades.