terça-feira, junho 11, 2013

O tempo perdido

Adelson Elias Vasconcellos

A realidade que vivemos começa a turvar-se e agonizar lentamente. Porém, o paciente jamais poderá reclamar de não ter sido avisado. Quando advertido, não quis ouvir. E quando a voz de advertência se tornou retumbante, preferiu silenciá-la.  

Ninguém, nem mesmo um país, perde credibilidade à toa, por boatarias, por fuxicos, por ouvir falar. Quando lemos que o Brasil perdeu credibilidade e vê ameaçado o grau de investimento conquistado junto às agências de avaliação de risco, sabemos que esta não é uma situação de momento, que surgiu assim... de repente, sem que ninguém pudesse prever. 

Não, os nossos indicadores econômicos vem se deteriorando ao longo dos anos, principalmente, no governo Dilma Rousseff.  Não se trata de intriga da oposição, ou da torcida do contra, ou de inveja dos louros de olhos azuis. O Brasil não cresce, ou cresce muito pouco, apesar de seu potencial, por culpa do próprio Brasil. A inflação está alta não é por conta do tsunâmi monetário dos países ricos, senão por conta das distorções cometidas por Dilma e sua equipe econômica desde que assumiram o poder. 

Não há solidez nos marcos regulatórios, não há constância e regularidade nas regras do jogos, não temos um projeto de país minimamente decente capaz de apontar um rumo a seguir. Seguimos ao sabor dos ventos, na base do improviso, da busca de resultados positivos não na balança comercial, mas nos índices de popularidade e aprovação das pesquisas políticas. Nosso amanhã começa e termina na próxima eleição, nossa estratégia é para manter eleitorado cativo, destruir se possível qualquer movimento de reação que possa obstaculizar a marcha rumo a manutenção do poder.

Ainda em campanha eleitoral, a então candidata Dilma Rousseff, sempre quando questionada sobre austeridade fiscal, de pronto, repelia a ideia. Estes quase dois anos e meio de mandato, são bem a demonstração do quanto Dilma ainda repele qualquer disciplina fiscal.   E, por ser assim, as contas públicas vão de mal a pior, e por mais contabilidade criativa que o senhor Mantega aplique, criando um verdadeiro emaranhado confuso sobre a real posição destas contas, o mundo já percebeu que o Brasil, economicamente, vai rolando ladeira abaixo e sem perspectivas de melhoras. 

Vimos, em reportagem do jornal O Globo, que hoje há um sentimento real de que, reeleita ou não, a herança que Dilma deixará para quem a suceder será tenebrosa. 

A revista britânica The Ecomist recentemente, referindo-se ao Brasil, tocou num ponto que mereceria de nossa parte, profunda reflexão: o país perdeu a oportunidade que o tempo lhe ofereceu. De tal forma as condições eram favoráveis para o Brasil dar seu salto de qualidade, que ninguém, com um mínimo de bom senso, seria capaz de imaginar que iríamos perder oportunidades tão preciosas, tão claras, tão amigas para ganharmos o futuro. 

Contudo, e por incrível que pareça, mais uma vez o bonde da história cruzou diante de nossos olhos, e diante dele, permanecemos imóveis, de braços cruzados, sem abraçar a chance que agora corre longe. 

Temos ainda algumas gorduras para queimar, e se nada for feito agora,  também estas gorduras serão torradas sem que tiremos proveito em nosso favor. 

Agora, se anuncia a edição de novos pacotes, com novas medidas, com novos arranjos na tentativa desesperada de recuperar não o tempo perdido na economia, no desenvolvimento. Mas para recuperar os índices de aprovação junto ao eleitorado. E aí reside toda a “enorme” preocupação de Dilma Rousseff: ver perdida uma eleição que até algumas semanas atrás, era dada como ganha já no primeiro turno, e sem que houvesse algum opositor capaz de lhe impedir o êxito.

Enquanto isto, nossas virtudes maiores na economia vão ser deixadas de lado. Mais intervencionismo, mais autoritarismo, maior presença do estado serão sentidas. E quanto mais este governo insistir nas velhas fórmulas do passado, maior a chance de tornar a situação ainda pior. E, claro, o descrédito tenderá a se acentuar.

Mesmo que ainda em grande parte da imprensa ainda Dilma seja protegida de si mesma,  mesmo que esta grande mídia ainda louve como verdades, as mentiras que ao longo destes anos dez anos o PT insistiu em contar,  devagarzinho  a gente vai se dando conta da farsa, das histórias mal contadas, e as estatísticas, se não forem manipuladas, exibirão soberanas a incompetência que a propaganda oficial se encarregou de ocultar, fazendo-a parecer exemplo de eficiência.

Pode o governo ainda sobreviver sentado sobre suas fantasias e mistificações por mais algum, pode até ganhar eleição, talvez trazendo Lula de volta ao Planalto. Porém, o tempo jogado fora, as oportunidades de construção desperdiçadas ao longo destes dez anos, começarão a cobrar seu preço. O governo se ergueu sobre duas vigas mestras: de um lado, a bendita herança recebida do governo anterior, que jogou no lixo seu capital político para implementar as reformas que o país precisava fazer naquele momento da história. Tais reformas geraram os frutos da estabilidade que o PT herdou. 

A segunda viga que sustentou a estrutura populista do governo petista, foi o prolongado período de bonança econômica que o mundo experimentou, causa primeira das profundas mudanças sociais positivas que todas as nações puderam sofrer. No mundo todo, diminuiu a má distribuição de renda, reduziu-se os níveis de miséria extrema, reduziu-se drasticamente a mortalidade infantil,  e todas as nações puderam conviver com investimentos no campo social como nunca antes havida vivido.

Assim, beneficiado e ancorado nestes dois pilares, o governo petista vendeu como suas, as virtudes de terceiros. O Brasil , neste período, só não avançou mais, não por culpa do mundo, mas culpa de suas próprias imperfeições, de suas péssimas escolhas, de suas próprias mazelas, de sua própria negligência em fazer o que lhe competia fazer para ser favorecido em grau maior pelos bons ventos que sopraram também em sua direção.

Hoje, não houvesse uma agropecuária com alta tecnologia e maciços  investimentos privados em pesquisa, e certamente estaríamos à beira do abismo. Nossa balança comercial há muito tempo estaria revirando-se no negativo, e nossa poupança em reservas internacionais já se teria desmoronado feito pó.

Assim, quem suceder Dilma, mesmo que seja ela mesma, precisará por um freio de arrumação na bagunça disseminada na economia. Precisará aprofundar as reformas estruturantes, das quais a tributária e previdenciária se impõem como obrigatórias e inadiáveis. Precisará reduzir o tamanho do estado, compatibilizando a arrecadação federal com um nível maior de investimentos e, ainda, reduzir ao mínimo seus gastos correntes. Não será uma tarefa das mais fáceis, pois cobrará alto preço político, uma vez que tais ações consumirão pelo menos metade do próximo mandato presidencial.  Ou é isso, ou será o abismo
Agora mesmo, em visita à Portugal, Dilma Rousseff acena para empresários brasileiros, interessados em investir nas privatizações daquele país, com vultosos e facilitados financiamentos. Há poucas semanas, na África, perdoou R$ 1,0 bilhão em dívidas com o nosso Tesouro Nacional, alguns países espoliados  por ditadores sanguinários. Por aqui, enquanto isso, se nega em rever as dívidas de estados e municípios, e insiste em impor às nossas empresas, pesadíssima carga tributária e uma burocracia asfixiante. Assim, fica realmente difícil competir com as demais nações.  

Acrescento que o repeti uma dúzia de vezes: durante a crise financeira que abalou Estados Unidos e União Europeia, as economias destes países despejaram no mercado centenas de bilhões de dólares. Era um mar de recursos a procura de oportunidades.  E o que o Brasil fez para capturar esta dinheirama em favor de seu desenvolvimento, além de manter os juros na estratosfera e que serviram apenas para trazer para cá o capital motel,  aplicado sobre os títulos do tesouro? Não tínhamos, como de resto ainda não temos, um único e miserável plano de desenvolvimento oferecendo um ambiente ótimo para os negócios. Quanto tempo se leva para abrir e regularizar uma empresa por aqui? E qual o calvário que é preciso percorrer para obter uma licença de instalação e, depois, outra de operação junto aos órgãos ambientais? Quanto custa apurar, calcular e recolher impostos no Brasil? Qual  a efetiva taxa de retorno destes impostos para a sociedade? Quantas foram as vezes, apenas no governo Dilma, que o IOF subiu e desceu? Ora, um empresário estrangeiro não tem seu dinheiro para fazer benemerência para governantes incompetentes.Cada dólar investido, precisa ser medido onde será aplicado, por que será preciso aplicar, qual a taxa de retorno e em quanto tempo. Isto se chama planejamento, ação prudente de quem sabe  o custo de se ganhar, com trabalho honesto, um dólar na vida. E, apesar da oportunidade ímpar, deixamos o tempo correr e os dólares passearem sem abanar com oportunidades de virem para cá em projetos de desenvolvimento.

Há outro detalhe que precisa ser destacado. Desde esta mesma crise financeira, o governo petista, primeiro Lula e depois Dilma, que apenas deu sequência à fórmula, tratou-se de dar expansão ao crédito, incentivando o consumo das famílias. A fórmula acabou se desgastando por ser apenas “isso” que se ofereceu. Mas pergunta-se: quantos bilhões deste consumismo todo foram carreados para o mercado interno, e quantos outros foram despejados lá fora? No exterior foram dezenas de bilhões de dólares que poderiam, em grande parte, ter sua aplicação aqui dentro mesmo. Mas qual? Grande parte do que consumimos custam ao menos o dobro do que se paga lá fora. É o chamado Custo Brasil. Assim, ao invés de fortalecer o mercado interno, incentivou-se apenas o consumo, tanto externo quanto interno. E tal equívoco se deu porque o governo não preparou o país para tal incentivo, da mesma forma que se incentiva a produção e venda de veículos, sem que equipe a infraestrutura das cidades para as consequências que o enorme aumento no fluxo de veículos provocaria. 

Tais exemplos são provas incontestes de nosso amadorismo, das ações improvisadas na função de governar,  da falta de planejamento e de rumos. 

Por outro lado, apesar do crescente volume de recursos investidos na educação, a qualidade de ensino regrediu em muitos aspectos e o alarmante número de jovens fora das salas de aula, são demonstrações inequívocas de que não conseguimos tornar a educação brasileira a prioridade número um para o nosso desenvolvimento. 

Vemos um país em que a classe política se digladia, diuturnamente, por cargos, salários, verbas, comissões, privilégios. Parte do Judiciário segue na mesma direção. O Executivo, por sua vez, só pensa naquilo, ou seja, no poder eterno, no estado imenso, na distribuição de alguns favores para em troca receber o favor de se manter  no trono. De outro lado, temos um povo em que quase metade está entregue às graças das bolsas que compram o silêncio e o voto. Povo passivo, já se disse, é povo escravo. 

E, a outra parte deste povo, que é quem trabalha e estuda sem favores especiais,  e paga impostos que mantém este sistema maluco em pé, e que é a verdadeira classe média, não aquela coisa ridícula inventada pelo governo petista, não consegue entender que um Estado que retira mais de 37% do PIB em impostos, retorno ridículos menos de 2% deste montante!!! 

A realidade que vivemos começa a turvar-se e agonizar lentamente. Porém, o paciente jamais poderá reclamar de não ter sido avisado. Quando advertido, não quis ouvir. E quando a voz de advertência se tornou retumbante, preferiu silenciá-la.  

Até que se consumem as eleições e a posse do eleito, teremos um ano e meio de espera. Nada será feito capaz de mudar o rumo, o que teremos serão apenas efeitos especiais capazes de fantasiar a realidade, tornando-a mais colorida. Correto seria agir agora, para que o prejuízo a ser recuperado seja o menor possível. Mas acredito que este tempo será ocupado apenas e tão somente para atender ao projeto de poder do petismo. Azar dos brasileiros.  Afinal, foram eles que escolheram livremente estes governantes. É de se esperar que tenham aprendido a lição. Será?