terça-feira, outubro 30, 2012

Razões para festejar, motivos para preocupar


Adelson Elias Vasconcellos

A gente olhar com cuidado os resultados das urnas, seja os do primeiro quanto do segundo turno, e tendo por régua e compasso apenas os resultados em relação aos partidos políticos, há motivos de sobra para todos comemorarem e também para se preocuparem.

O PT, por exemplo, considera a vitória em São Paulo um feito histórico. Nem tanto. Não foi a primeira vitória na capital paulista. E, em ambas, o partido teve uma atuação pífia. Claro que Haddad vai receber do governo federal o que talvez nenhum um outro município recebeu sob a presidência petista. O objetivo é arregimentar força para a conquista do Palácio dos Bandeirantes. Eleva-se a perspicácia de Lula ao forçar a mão com Haddad, mas se esquece rapidamente derrotas significativas como Recife, Fortaleza, Manaus, Salvador e Belo Horizonte. Em todas, com exceção de  Fortaleza em que apenas Lula emprestou seu nome e apoio, na demais a dupla Lula-Dilma se empenhou a fundo e precisou colher resultados amargos. Especialmente em Manaus e Salvador, onde Lula tinha razões pessoais para derrotar Arthur Virgílio e ACM Neto, respectivamente, Lula viu seus objetivos frustrados. 

Assim como o PT, praticamente todos os demais partidos, pequenos, médios e grandes  saíram destas eleições com motivos para festejarem os resultados. A pulverização de votos por parte dos eleitores, mais uma vez, deixa claro que eleição municipal é completamente dissociada da eleição presidencial, de governadores e congressuais. 

Tanto é assim que o PT, por exemplo, viu diminuída sua influência no Norte, onde o PSDB – quem imaginaria! -  e no Nordeste, onde o PSB de Eduardo Campos marcou presença e disse a que veio. Também o novato PSD de Gilberto Kassab sai fortalecido. Assim, não há como se apontar a vitória ou a supremacia de um partido sobre os demais. Todos ganharam algum pedaço do bolo.

Claro que as questões regionais falaram muito mais alto. Não se pode tentar conferir peso de questões federais neste tipo de eleição.  Pode até influenciar em certa medida, mas no resultado final  este será um dos pesos, e não o seu principal.

O PT tenta vender a ideia de que o mensalão não teve influência. Se ficar nesta, vai enganar-se a si mesmo. Tanto peso teve que, nas zinas eleitorais em que compareceram petistas graúdos e até o ministro do STF, Ricardo Lewandowski, a reação do público foi uma demonstração de que o mensalão está atravessado na garganta do eleitorado. A vitória em São Paulo se deu as partir das rejeições a Kassab por sua administração e a Serra que, por justiça, não desejava concorrer por seu partido. Foi empurrado pelos líderes do seu partido. Mas depois, durante a campanha, conforme já comentamos, adotou uma estratégia suicida, a exemplo do que já fizera em 2002 e 2010. 

Portanto, a afirmação feita aqui, antes do primeiro turno, que o PT deveria agradecer aos céus o julgamento do mensalão ter coincidido com o calendário eleitoral das eleições municipais, e não a presidencial,  ficou claro. Estivéssemos em 2010 ou 2014, e o estrago seria imenso e o PT teria muito a lamentar. Sendo em ano de eleições municipais, influência teve, mas bem menor do que ocorreria se  o eleitor tivesse de eleger deputados, senadores, governadores e presidente. 

Mas, apesar de sua vitória em São Paulo ter sido muito festejada, há motivos de sobra para o PT preocupar-se. Há dez anos no poder federal, o PT não conseguiu atingir a meta prevista de  conquistar 1.000 prefeituras, meta esta, aliás, que é de 2004. O PSDB, mesmo todo este tempo afastado do poder central, conseguiu alcançar maior número de prefeituras do que os petistas.  E olhe que o PT usa e abusa da mentira, das calúnias, dos recursos e máquina pública, além do bombardeio constante contra os tucanos além da publicidade oficial milionária. E, ainda assim, e as urnas de 2012 confirmam, o povo brasileiro não a hegemonia política pretendida e tão sonhada pelo PT.

Ou seja, grande parte do país repele os métodos de fazer política petista, suas ideias centrais, seus projetos. E não venham com a conversa fiada que este desprezo advém apenas da elite,  pelo contrário. 

Além disto, especialmente em São Paulo, mas no resto do país  é manifesto o esgotamento do discurso político atual junto à população. Na capital paulista, entre brancos, nulos e abstenções, chegou-se ao impressionante número de 1/3 do eleitorado que simplesmente deixou de escolher alguém. È lago sobre o qual os políticos brasileiros, de todas as correntes e filiações, devem preocupar-se, porque este número tende a crescer se o discurso e as atitudes permanecerem com estão. O povo se desencantou e está literalmente, de saco cheio. 

A votação em alguns casos de apelação à renovação, se dá muito mais como esperança de que alguma coisa mude, do que propriamente com a convicção de que as escolhas sejam as melhores. Não se pode esquecer da expressiva votação do palhaço Tiririca, 2010, e sua máxima de que pior não fica. Não se votava nele com a certeza de que se tornaria um parlamentar brilhante, como demonstração de inequívoca insatisfação ao modelo velho adotado pela maioria dos parlamentares “profissionais”. 

Sendo assim, há um imenso espaço vazio a ser ocupado. Mas seu preenchimento não se dará com discurso velho, com o cinismo costumeiro, com a hipocrisia calhorda nem com as falsas promessas feitas por pessoas sem currículo de trabalho decente. Este espaço não admite oportunistas e velhacos. Se não houver ideias centradas na honestidade, folha de serviços profissionais bem construída, e projetos alternativos coerentes e sensatos e que venham atender os anseios e as necessidades maiores da população brasileira,  este praticamente 1/3 de desencantados pode até crescer. O povo, neste seu lento e contínuo aprendizado,  vai se dando conta de que fazer escolhas erradas acaba se tornando caro e prejudicial para ele próprio, o eleitor. O povo não aceita mais a ideia do corrupto que faz. Ele quer gente que trabalhe com honestidade, e que faça mais e, se possível, que faça mais com menos, mas que saiba atender as prioridades mais urgentes
Por fim, se vale dizer que o PT, apesar dos céus e terras movidos nos últimos dez anos, não alcançou a tão almejada hegemonia política, por outro, também, não dá para afirmar que as oposições perderam espaço. Mesmo em São Paulo, se somarmos os votos em Serra com brancos, nulos e abstenções, a vitória de Haddad encerra lições suficientes tanto para um lado quanto para outro. Tanto não dá para o PT fazer festas demasiadas quanto há espaço para as oposições refletirem sobre si mesmas,  apercebendo-se do indispensável papel que lhes cabe para a consolidação democrática brasileira. E isto as urnas deixaram bem claro. Está na hora das oposições se voltarem não apenas para seu eleitorado histórico, para este imenso espaço vazio a espera de ocupação pela competência e honestidade.