Executivo leva ao governo proposta de taxar o dinheiro que vem para o mercado de capitais na saída, não na entrada
Entrevista
Edemir Pinto: presidente executivo da BM&Fbovespa
Ao atender o telefone, o presidente executivo da BM&FBovespa, Edemir Pinto, foge ao protocolo e não esconde que está chateado. À corriqueira pergunta "tudo bem?", ele não hesita e responde: "Mal". Se há alguém - pessoa física, empresa, instituição, entidade, etc - que foi duramente atingido pela taxação do capital estrangeiro, foi a BM&FBovespa. O mercado logo se deu conta dos potenciais efeitos da medida nos resultados da empresa e castigou seus papéis. As ações caíram 8,41% ontem. Edemir disse ao Estado que está confiante em que o governo aceitará fazer ajustes no que se refere ao mercado de capitais. Hoje, ele embarca para Brasília. Amanhã, se encontra com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Vai levar no laptop uma proposta: taxar o dinheiro que vem para o mercado de capitais na saída, não na entrada, como determinou o governo.
Como recebeu a decisão?
É o que a gente chama de fogo amigo. Tivemos no passado a CPMF, mas que foi discutida de forma mais ampla, em audiência pública. Essa medida foi feita de surpresa. Justo no momento em que estamos festejando não só a retomada do mercado, mas principalmente aquilo que o investidor não residente enxerga no País. Uma medida dessa natureza é um tiro no pé do nosso mercado. É mais uma para exportar nosso mercado para Nova York.
O que vão propor ao governo?
O governo alega que (a taxação) é para evitar o capital especulativo e prevenir uma bolha na bolsa. Não concordo que nosso crescimento este ano seja especulativo. Mas, se é isso que o governo está enxergando, a forma de taxação está errada. Ele parte de uma premissa de taxar na entrada. Como identificar o capital especulativo? Tem de ser na saída, para saber qual é o dinheiro que vem e volta rapidamente. A ideia que levamos é (taxar a) saída do capital, de acordo com o prazo. Criam-se alíquotas para aplicações até 30 dias, de 30 a 60 dias, de 60 a 90 e de 90 a 180. Se faz uma coisa regressiva dentro da alíquota de 2% que ele estabeleceu.
Seria medida para renda variável ou para tudo?
Neste momento, estamos preocupados em salvar o mercado de capitais.
O sr. teve contato com o governo?
Sim. Ontem (segunda) falei com o ministro (Guido Mantega), que foi muito sensível a essa proposta. Tanto que temos um encontro com ele.
Os srs. foram consultados sobre a ideia de tributar o investimento em ações antes de a medida ser anunciada? Ou o governo não perguntou nada?
O governo não perguntou nada. Temos uma ponte com o governo, um relacionamento, mas, infelizmente, nessa questão não houve consulta.
Quanto de ação brasileira é negociado lá fora e quanto é aqui?
Se você pegar Petrobrás, a gente negocia aqui um décimo do que lá fora. Se pegarem as ADRs (recibos de ações nos EUA), lá negocia uma vez em meia o que negociamos aqui. Com essa medida, se não conseguirmos demover o governo, vai ser realmente muito triste para o nosso mercado.
