Sebastião Nery
RIO - José Alencar e José Sarney eram candidatos pelo PMDB em Minas e no Amapá. José Sarney, de Macapá, telefonou a José Alencar, em Belo Horizonte, pedindo orçamento para alguns milhares de camisetas de campanha. Do outro lado do distante telefone, Alencar perguntou apenas:
- Presidente, qual é a forma de pagamento? À vista ou a prazo?
- Por que?
-Por que, se for a prazo, há juros.
- Muito obrigado, Alencar.
Sarney desligou e nunca mais ligou. Sarney não queria comprar as camisetas. Telefonou para ver se ganhava de graça. Acabou ganhando, de graça, de algum incauto, em Santa Catarina.
Minas
José Alencar sempre foi isso : um homem verdadeiro. Há dois dias imprensa e políticos, jornais e televisões, o pais inteiro, falam dele, do empresário vitorioso, maior industrial têxtil do pais, ex- presidente da Federação das Industrias de Minas. Do político honrado, senador por Minas e vice - presidente. E sobretudo do doente valente, do homem exemplar.
Tenho que começar de bem mais longe. Tínhamos ambos 21 anos, em 1953, em Belo Horizonte. Eu chegado da Bahia, estudante e jornalista. Ele pequeno empresário no interior de Minas. Conversamos nos corredores da Associação Comercial, numa solenidade qualquer, ele interessado em Pedra Azul, lá no norte, onde fui professor. Uma tarde, foi ao jornal.
Não éramos amigos, mas nunca mais o perdi de vista. Magro, alto, cabelos negros, sempre ocupado, falando de vários negócios e atividades ao mesmo tempo. E aquele permanente e simpático sorriso de mineiro caipira.
Voltei para a Bahia, passei anos sem vê-lo.
Empresario
Empresário múltiplo e incansável. Em Muriaé, trabalhando desde os 14 anos, aos 18, em 1950, já tinha sua loja, a “Queimadeira”, e logo a fabrica de “Macarrão Santa Cruz” e a “Wembly Roupas” em Ubá. Daí, para a “Coteminas, Companhia de Tecidos de Minas”, em Montes Claros, que se multiplicou por fabricas em 15 Estados e 7 paises e 50% da “Springs Global”, a maior industria” de artigos de cama, mesa e banho do mundo.
E não bastou a industria têxtil. Tinha a “União dos Cometas”, o “Wembley Palace Hotel” em Belo Horizonte, a “Fazenda do Cantagalo, Criação e Engorda de Gado Nelore em Januaria”, a “Econorte - Empresa Construtora Norte de Minas ”, a “Ecopar - Comercio e Participações”.
E ainda tinha tempo para a permanente liderança empresarial, corporativa. Um dia, presidente da Associação Comercial e Industrial de Caratinga. Outro dia, diretor da Associação Comercial e Industrial de Ubá. Depois, vice-presidente do Clube dos Diretores Lojistas de Belo Horizonte, presidente do Sindicato das Industrias de Fiação e Tecelagem de Minas.
Lider
Até chegar à presidência da Associação Comercial de Minas, do Centro das Industrias de Minas e da Federação das Industrias de Minas, por 15 anos. E do Conselho de Política Industrial e Desenvolvimento da CNI, Confederação Nacional da Industria, e vice-presidente da CNI.
Bastava? Não lhe bastava. Vinham as atividades sociais, generosas : o Conselho de Administração da Fundação CDL de Amparo ao Menor, o Conselho de Curadores da Fundação Hilton Rocha (oftalmologia), etc.
Candidato ao governo de Minas, perdeu, mas não parou
Lula
Um dia, voltei de anos na Europa, ele chegou a Brasília como senador de Minas, numa campanha com Itamar eleito governador. Eu morava na “Academia de Tênis”, ele sempre por lá, almoçando, jantando. Almoçávamos frequentemente. Gostava de vinho.Eu chegava, ele brincava:
- Troca o vinho. Melhora o vinho. O Nery foi quase bispo.
Como eu também conhecia bem o interior de Minas, falavamos horas sobre os políticos mineiros, suas historias,a começar de JK,que o fascinava. Tinha um projeto:governador de Minas e Presidente. Surgiram Lula, a vice.
A doença, o sofrimento, a morte, mobilizam muito a opinião publica. Mas o José Alencar conseguiu uma identificação mágica, surpreendente, com o povo brasileiro, antes mesmo da doença, de seu bravo martírio.
Os discursos contra os juros, o nacionalismo autentico de empresário vitorioso, a verdade afirmada, deram-lhe a credibilidade nacional raríssima:
- “Não posso negar o Mensalão.Ficou provado. Foi um sacolão enorme”
Alencar
O grego Sófocles disse que “nada é mais prodigioso do que o homem”.
Alencar foi um homem. E teve uma vida e uma morte prodigiosas.

