Adelson Elias Vasconcellos
Já há algum tempo que os tucanos vem se digladiando num entrevero Minas contra São Paulo, São Paulo contra Minas, como se a oposição ao PT estivesse localizada nestes dois estados. E não está, claro. Ao invés de se unirem para a briga de cachorro grande com o Congresso e o Planalto, preferem as rusgas provincianas, arcaicas e inúteis.
Enquanto isto, o PT vai empilhando poder sobre poder. No Planalto vai cumprindo seu terceiro mandato e, ao que tudo indica, dada a inércia da oposição, vai se preparando para empilhar mais alguns. No Congresso, com os afagos possíveis de uma caneta e um cofre sempre disposto a ser simpático com que se curva, o PT montou uma base de apoio tão ampla que, hoje, praticamente, se quiser, muda todo o regime legal do país, sem perder um segundo de sono por isso. É o melhor dos mundos. Dilma governa sem que o Congresso lhe faça barulho e lhe cause dor de cabeça.
Ora, dada a “inteligente” estratégia que as oposições adotaram nos últimos anos, logo se vê que o resultado tem sido exatamente o contrário do que eles imaginavam. Mas a briga de comadres parece que, nem por isso, vai ter fim.
Antes mesmo que se encerrasse o segundo turno, daqui já aconselhava que, proclamado o resultado, PSDB e DEM se reunissem em volta da mesa já na semana seguinte, e iniciassem a debater estratégias de atuação diante de um governo Dilma com ampla maioria parlamentar.
Mas qual, o senhor Aécio Neves anunciava que esta reunião se realizaria em janeiro e, ao que se sabe, parece que sequer conseguiram acertar suas próprias diferenças, apesar de Dilma já estar governando há mais de três meses. Motivos para oposição não faltaram neste tempo, faltou foi competência para que, principalmente os tucanos, pusessem de lado suas questiúnculas menores em favor do país.
E até aqui Aécio simplesmente tem desbundado que dá dó. Se ele acha que ações de fofocas de bastidores, intrigas contra seus companheiros de partido com igual peso político ao dele no cenário nacional, ações de puro maquiavelismo para se impor como líder do partido a dar as cartas e ditar regras, se pensa que com tal roteiro conseguirá derrotar a máquina partidária do outro lado do balcão, está redondamente enganado.
Um exemplo bem claro de uma ação estúpida, é a que estamos vendo no desenrolar da tal reforma política. Primeiro que esta agenda foi imposta pelo PT, Lula mais especificamente, justamente, para se tirar a atenção dos políticos de oposição sobre o governo Dilma. E não só isto: foi o PT quem criou a agenda dos debates e, até aqui, tudo o que traz anotado para impor ao país, tem conseguido levar. E o que é pior: com o incompreensível aval de Aécio Neves.
Uma das piores traições que se pretende cometer contra a sociedade brasileira é o tal voto em lista. Ou seja, se antes o sistema já não era bom, agora, simplesmente nenhum político, caso a proposta seja aprovada, terá mesmo que dar satisfações aos eleitores. São os caciques partidários quem determinarão quem exercerá o papel de representantes. O eleitor, com a reforma, está ganhando é um belo chute no traseiro. E o que é pior: sequer sabe do que se passa nos porões deste Congresso de vagabundos.
Com um placar apertado – 9 a 7— a comissão de reforma política do Senado aprovou o sistema eleitoral de lista fechada. E como se deu esta votação? Numa primeira rodada de votação, Aécio Neves (MG), Lúcia Vânia (GO) e Aloysio Nunes (SP) posicionaram-se a favor do voto “distrital misto”. Caso mantivessem um mínimo de coerência e se posicionassem em favor da própria sociedade, os três juntos derrubariam o tal voto em lista. E aí veio a surpresa: no segundo e decisivo embate –voto em lista X distritão— os tucanos preferiram escalar o muro da abstenção. Ou seja, fizeram o que o PT queria, foram mais governistas do que nunca.
Alguém precisa mostrar ao menino Aécio Neves que o caminho é outro. Conforme afirmei antes, oposição que não faz oposição não ganha eleição. E é precisamente por este caminho que o senador mineiro está tentando empurrar o seu partido. Ou seja, nesta nova forma de ser político sem praticar política defendida por Aécio, quem ganha sempre é o governo de plantão. Mas ele, depois, poderá dizer que morreu sim, mas virgem...
Quanto ao voto em lista, ou distritão, ou distrital puro – que entendo o melhor regime – por que esta gente que acha representar a sociedade, não submetem esta escolha a um plebiscito? Deixem que o povo escolha, ele mesmo, qual sistema prefere exercer seu direito de escolher representantes. Creio que seria bem mais democrático do que imporem, sem debate e sem a adequada informação à sociedade, um sistema de representação do qual a própria não faz a mínima ideia do que seja. Ou então, se acham que a sociedade suporta ter seu direito de escolha capado, faça-se uma pesq2uisa de opinião pública. Vamos ver o que o povo pensa do golpe que estão sendo tramado contra seu direito de voto.
Ou será que no Congresso, afora os covardes da oposição, só tem picaretas e vagabundos?
De qualquer forma, o projeto que o PT e, principalmente Lula, tanto defendem, de uma paulada só, cassa o povo da vida política brasileira. E isto, senhores, não se chama de reforma, mas de golpe na cidadania.