Josias de Souza, Folha.com
Há coisa de duas semanas, a repórter Claudia Safatle perguntou a Dilma Rousseff:
Acha possível ter um pouquinho mais de inflação para obter um pouco mais de crescimento?
E a presidente, em timbre categórico: “Isso não funciona. É aquela velha imagem da pequena gravidez. Não tem uma pequena gravidez...”
“...Ou tem gravidez ou não tem. Agora, não farei qualquer negociação com a taxa de inflação. Não farei”.
Pois bem. O Banco Central acaba de detectar a existência da gravidez pela metade.
Passou a considerar “aceitável” que a inflação fique um pouquinho acima do centro da meta oficial de 4,5% em 2011.
Por quê? Para que o esforço antiinflacionário não resfrie a economia a ponto de comprometer em demasia o crescimento do PIB.
Vem daí que o BC achou melhor rever sua estimativa de inflação para 2011. Elevou-a de 5% para 5,6%.
Carlos Hamilton, diretor de Política Econômica do BC, explicou: com a inflação rodando nos arredores de 6%, a paulada contra a carestia precisa ser “mais suave”.
E quanto à meta de inflação? Ouça-se mais um pouco do diretor Carlos Hamilton:
"O trabalho é para que essa diferença em relação à meta fique no menos possível em 2011...”
“...Para que a inflação convirja para a meta em 2012, que é para onde estamos olhando".
No português das ruas: O BC dá de barato que a inflação prevalecerá em 2011. Tenta evitar a goleada. Equipa-se para tentar a forra em 2012.
Na conversa de duas semanas atrás, Dilma dissera coisas assim: “Eu não vou permitir que a inflação volte no Brasil...”
“...Não permitirei que a inflação, sob qualquer circunstância, volte. Também não acredito nas regras que falam, em março, que o Brasil não crescerá este ano...”
“...Tenho certeza que o Brasil vai crescer entre 4,5% e 5% este ano”.
Além de rever para o alto seu prognóstico de inflação, o BC alterou para baixo sua previsão de crescimento da economia: de 4,5% caiu para 4%.
Ou seja: considerando-se os novos parâmetros do BC, a “certeza” de Dilma tem a consistência de um pote de gelatina.
Pode-se concordar com Dilma ou com o BC. Só não dá pra fingir que falam a mesma língua.