Adelson Elias Vasconcellos
A informação que traz o Estadão sobre o certo grau de tolerância com o senhor Tombini, presidente do Banco Central, tem tratado a inflação, além de ser uma péssima notícia, serve para ilustrar que este governo Dilma está brincando com fogo.
Se fosse apenas este problema com que o governo atual tivesse pela frente, ainda se poderia relevar. Porém, se vê que a inflação que está aí não se trata apenas de “uma chuva de verão” sobre a economia brasileira. Inúmeros são os fatores, externos e internos, que contribuem para o dragão berrar mais alto.
Porém, Dilma começou a desfilar em seu mandato como outras preocupações como a necessidade indispensável de impor ou restabelecer o equilíbrio fiscal que foi sendo abandonado, lentamente, por Lula ao longo de seus dois mandatos e que, nos últimos dois anos, simplesmente foi esquecido face a farra de gastos que se promoveu para que o ex fizesse sua sucessora. Ou seja, mais do que o desenvolvimento sustentável do país, mais do que a manutenção a todo custo da estabilidade econômica que tanto bem nos tem feito, mais do que o retorno do desenvolvimento único caminho de se elevar a renda e praticar justiça e inclusão social, para Lula, Dilma e PT o que mais importava era o interesse eleitoreiro de seu projeto de poder. O Brasil, meus amigos, foi colocado num lamentável segundo lugar no elenco de prioridades desta gente.
Não é de hoje que apontamos esta sacanagem. Durante todo o primeiro mandato de Lula havia uma certa disputa entre manter a inflação sob controle, mesmo que isto obrigasse o país a manter em rédea bem curta o crescimento do PIB, e os desenvolvimentistas, que entendia que uma inflação pequena seria suportável desde que se priorizasse o crescimento do país. Bem, a gente sabe como isto se dá: na inflação que tem mais se protege melhor. Quem perde, sempre e obrigatoriamente, são as camadas mais pobres da população.
Assim, esta tolerância “controlada” da inflação neste início de governo não é recomendável. Primeiro, porque se algum aperto de gastos se poderia fazer sem comprometer a estabilidade do país, o momento era justamente este porque, depois, e já em 2012, teremos eleições municipais para as quais o PT não abrirá mão de seu projeto de poder. Segundo, porque na inflação quem mais perde poder de compra são as pessoas com menor renda que se obrigam reduzir sua qualidade de vida para manter-se apenas com o essencial. Terceiro, na medida em que os preços vão crescendo, esta cadeia vai se retroalimentando. Hoje, se suporta 4%, amanhã serão 5%, depois 6,7 e, quando nos damos conta, já estamos nos acostumando com inflação em dois dígitos. A inflação nunca chega de chofre, com índices elevados. Ela sorrateiramente vai se elevando pouco a pouco, de mansinho, até se autoalimentar pelas regrinhas que se vão criando de “recuperação de perdas”, “indexação”, etc. E isto já estamos vendo nos salários do poder público, com todos querendo recuperar perdas de anos passados, repondo os índices inflacionários que já aconteceram. Esta cultura, infelizmente, o país ainda não percebeu ser desastrosa. Isto vai empurrando o governo a elevar o peso de tributos sobre as empresas que acabam repassando o custo maior de impostos para seus produtos e serviços. E isto já está acontecendo. Como o governo, de fato, não corta nada pelo lado das despesas, mantém seus gastos com a mesma volúpia e desgarramento porque precisa responder aos militantes partidários sobre o projeto de poder em curso, os juros precisam se sustentar nas alturas, e acabam não criando espaço para reduzir o custo Brasil.
Ora, este filme o país viu, assistiu e sofreu por mais de 20 anos. Ao contrário do que tal política se propõem, no discurso de seus condutores, o que se vê é aumento da pobreza, redução do poder de compra, retração do crescimento já que, com inflação os investimentos se retraem dada a incerteza de retorno, a geração de empregos se reduz, e por aí vai.
E reparem que o que vemos é justamente o oposto de tudo que o governo Lula propagou por oito anos e Dilma, nestes primeiros meses, tem repetido à exaustão. Até diria que, no primeiro mandato, Lula precisou ser mais conservador do que Dilma tem se mostrado até aqui. E é aí que mora o perigo. E por uma razão bem simples: os ventos da economia mundial já não são tão favoráveis como foram até 2009.
Precisamos, portanto, repor juízo na condução da economia. É indispensável que o governo corte gastos para a manutenção da estabilidade. Se não o fizer, e no volume que a situação está a exigir, rapidamente, todas aqueles “doenças” que vimos nos anos 80 e até a metade da 90, retornarão com maior impacto.
Assim, que o Banco Central não abandone de vez a política que tem perseguido de manter a inflação dentro da meta e atue no sentido de restringir o crédito e, por extensão, o consumo, porque se não o fizer, estaremos, inexoravelmente, fazendo o caminho de volta ao tempos do pré-real.
Já disse aqui mais de uma vez, mas nunca é demais repetir: o governo Dilma, dada a situação delicada que vivemos, não pode se dar ao luxo de tocar dois projetos ao mesmo tempo. Ou bem se dedica em manter a estabilidade, promovendo as reformas estruturantes que ainda nos faltam, para beneficiar um crescimento sustentável mais à frente, ou abandona de vez o esforço que o país fez nos últimos dezesseis anos para retomar o caminho do desenvolvimento, conquistando, às duras penas, a estabilidade econômica como consequência do equilíbrio das contas públicas e o fim da inflação, para beneficiar seu projeto de poder. No momento, e até nos próximos anos, tocar os dois em paralelo não será possível. É rezar para que se faça a escolha certa, em benefício do país. O diacho é que, aumentando a própria estrutura ministerial, a sinalização que Dilma transmite para o país quanto à seriedade de seus propósitos , seja em relação ao combate à inflação, seja em relação ao desenvolvimento – que é a forma correta de se combater pobreza e miséria e se promover justiça social -, é péssima. Chegamos ao absurdo de abrigar na estrutura do Executivo, 40 ministérios, verdadeiro absurdo, tão desnecessário, dispendioso quanto inútil. Quem age desta forma, demonstra claramente que, na prática, está longe de se consagrar como administradora pública eficiente, perfil que a propaganda enganosa tentou emplacar em Dilma Rousseff.
Em resumo: quanto maior for a tolerância com pequenos detalhes, quanto mais covarde for o governo quanto ao apelo de contenção de gastos, que implicaria na eliminação de milhares de cargos inúteis, totalmente dispensáveis, por exemplo, quanto maior for o apetite de poder alimentando sacolinhas de bondade para preservar o eleitorado com atitudes de puro apelo eleitoreiro, mais o país retorna a uma fase de pura escuridão econômica. Já nem se trata mais de perder oportunidades que o momento atual nos oferece para darmos um salto de qualidade em nosso desenvolvimento. A esta altura, é lutar para preservar o que já conquistamos, e não iniciarmos, tristemente o caminho de volta.