Karla Mendes, especial para O Estado
Para empresário espanhol, demora para aprovar projetos inviabiliza investimentos
MADRI e BELO HORIZONTE - As dificuldades de operar no programa Minha Casa, Minha Vida já fizeram várias empresas praticamente desistirem de participar das obras. O Grupo Braval, fundado no Brasil por três espanhóis, por exemplo, paralisou os investimentos no MCMV diante da demora da aprovação de projetos.
"Há empreendimentos que não são viáveis em função do tempo que demoram para ser aprovados. O banco leva 14 meses para abrir uma conta e aprovar o crédito para uma empresa solvente", reclama Alejandro Parisi, um dos sócios da empresa.
A burocracia, segundo ele, faz com que as obras sejam lentas e engessa a capacidade de desenvolvimento de projetos da empresa, já que a companhia se vê obrigada a investir capital próprio para tocar as obras. "Com isso, temos de vender a primeira torre para iniciar a construção da segunda, um grave erro do governo que está fazendo com que muitos investidores desistam do Brasil", alerta.
A empresa tem quatro projetos de construção de 500 apartamentos na Região Metropolitana de Natal, direcionados ao público de renda mensal de três a seis salários mínimos, que já consumiram investimentos de R$ 9 milhões. No auge do entusiasmo com o MCMV, no ano passado, a companhia chegou a publicar anúncios em jornais de grande circulação na Espanha para atrair outros investidores espanhóis para o Brasil, com rentabilidade mínima de 30%. Hoje, contudo, Parisi afirma que é difícil alcançar essa margem por causa da acelerada elevação dos custos de construção, que nos últimos dois anos subiram cerca de 50%.
A lentidão para ter o aval do governo para tocar os projetos também fez com que a filial da espanhola Via Célere tirasse o pé do acelerador nos projetos do MCMV. Outro fator que pesa contra o empreendimento, segundo Rodrigo Dratovsky, diretor-geral da empresa no Brasil, é a superoferta no mercado de Salvador, onde as 310 unidades, voltadas para a população com renda de três a dez salários mínimos, estão sendo construídas.
O executivo também relata que a venda de imóveis do MCMV é muito mais trabalhosa, pois a empresa tem de acompanhar de perto todos os passos da negociação até a aprovação do crédito do cliente pelo banco, que dura cerca de três meses.
Desilusão.
A frustração com o programa Minha Casa, Minha Vida não é exclusividade dos estrangeiros. No Brasil, muitas das grandes incorporadoras que enveredaram para esse segmento em 2010 se depararam com as mesmas dificuldades - da burocracia até o relacionamento com o cliente de baixa renda. Estimativas de mercado, apresentadas por empresários do setor em uma das reuniões periódicas com a Caixa Econômica Federal, dão uma ideia de como diminuiu o interesse das grandes incorporadoras de fazer empreendimentos voltados para o programa habitacional. Em 2010, as 14 companhias de capital aberto indicaram em seus relatórios um total de R$ 10,5 bilhões em lançamentos que se enquadravam nas faixas 2 e 3 (renda mensal de R$ 1,6 mil a R$ 5 mil), do MCMV. No ano passado, esse valor foi de R$ 4 bilhões - queda de 62%.
A Rodobens, por exemplo, anunciou recentemente que vai usar as áreas destinadas ao programa para desenvolver shoppings centers ou loteamentos. A Gafisa interrompeu os lançamentos da bandeira Tenda, focada em baixa renda, para se reestruturar.
Entre as incorporadoras abertas, as empresas que seguem firme no programa são aquelas que já tinham experiência nesse segmento antes mesmo do MCMV. A mineira MRV, por exemplo, tem uma equipe de mais de 500 pessoas no País responsável por acompanhar os projetos que estão sob avaliação da Caixa, e a Direcional desenvolveu um processo de construção em série, que reduz o tempo da obra. "Quem não tem processo construtivo e não conhece a cultura da Caixa e do Banco do Brasil está perdido", diz Ricardo Valadares, presidente da Direcional.