quinta-feira, dezembro 23, 2010

Manutenção de Adams na Advocacia-Geral da União é gesto de independência de Dilma em relação a Lula

Ricardo Setti, Veja online


Amigos do blog, pode ser excesso de otimismo de minha parte, mas a confirmação no cargo do advogado-geral da União, Luís Inácio Lucena Adams, no próximo governo é mais um sinal de independência que a presidente eleita, Dilma Rousseff, manifesta em relação à sufocante pressão que vem sofrendo, calada, do presidente Lula — que jurou não se intrometer na formação de seu governo mas não faz outra coisa.

Lucena era disparado o candidato preferido de Lula para preencher a vaga existente no Supremo Tribunal Federal desde agosto, quando o ministro Eros Grau se aposentou por ter atingido a idade-limite de 70 anos de idade.

Resolvendo mantê-lo no atual posto, Dilma, obviamente, se voltará para outro nome para o Supremo. Lula certamente tentará interferir também nessa indicação, mas o fato é que Lucena não irá para a mais alta corte do país, como queria o presidente.

Dilma já mantivera distância de Lula na escolha de uma figura importantíssima do primeiro escalão de governo — o ministro da Justiça –, que recaiu sobre o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). Cardozo não apenas não era o candidato de Lula, como é alguém de que o presidente desgosta. Cheguei até a escrever um post a respeito, no dia 6 passado.

CARDOZO ACUSOU DE “ABUSO DE CONFIANÇA” O COMPADRE DE LULA

Veja se não tenho razão lendo a matéria abaixo, publicada pelo Estadão a respeito, a cargo da repórter Vera Rosa, da sucursal de Brasília do jornal:

“Cardozo supera resistência e é indicado”

“Procurador e secretário-geral do PT, o deputado José Eduardo Martins Cardozo (SP) foi confirmado para o Ministério da Justiça do governo Dilma Rousseff, depois de ter amargado longo período de dificuldades de relacionamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O motivo para Cardozo nunca ter conseguido chegar à Esplanada na gestão Lula foi o caso CPEM.

O presidente sempre guardou mágoa do deputado por ele ter vasculhado sua vida e por tentar incriminar seu compadre Roberto Teixeira. Tudo ocorreu em 1993, quando Cardozo integrou a comissão especial criada pela Executiva Nacional do PT para investigar denúncias feitas pelo petista Paulo de Tarso Venceslau, ex-secretário de Finanças de São José dos Campos, contra uma empresa chamada CPEM.

A acusação de Venceslau era grave. Segundo ele, Teixeira propunha a prefeituras do PT contratar a CPEM, sem licitação, para que a empresa prestasse assessoria na área de arrecadação de impostos. Em troca, a CPEM contribuiria com campanhas petistas.

Ao lado do então deputado Hélio Bicudo, que deixou o PT após o escândalo do mensalão, em 2005, Cardozo concluiu que tanto o compadre de Lula como Dirceu Teixeira – irmão do advogado – atuaram em nome da CPEM, vendendo seus serviços.

“Tal comportamento não qualificaria nenhum problema ético, se não fôssemos levados a concluir pelas evidências de que Roberto Teixeira não poderia deixar de saber (…) que os contratos firmados pela empresa CPEM apresentavam graves problemas. Atuou, a nosso ver, inclusive com evidente abuso da confiança de que desfrutava no partido em face da notória relação de amizade que mantém com o presidente de honra do PT”, escreveu Cardozo, em referência a Lula, quatro anos depois da investigação.

Ressentimento. Lula foi inocentado da sindicância, mas nunca perdoou Cardozo. No fim, a cúpula do PT decidiu expulsar o Paulo de Tarso Venceslau, sob a alegação de que ele, ao se dirigir à imprensa, empregou adjetivos que desqualificaram Lula e outros dirigentes petistas.

Integrante da corrente Mensagem ao Partido – a segunda maior tendência no mosaico ideológico do petismo -, Cardozo era cotado para ocupar o Ministério da Justiça em fevereiro, quando Tarso Genro deixou a pasta para se candidatar ao governo do Rio Grande do Sul. Tarso indicou Cardozo e Dilma, então ministra da Casa Civil, também defendia sua nomeação. Lula, porém, vetou o nome do deputado.

No ano passado, Cardozo redigiu o Código de Ética do PT. O documento define critérios para atuação de filiados, vedando práticas como caixa 2 nas campanhas.”