quinta-feira, dezembro 23, 2010

Abaixo os Céticos, Viva a Europa

Caio Blinder, Veja online

Foto Phillipe Wojazer/Reuters
Líderes pequenos na grande crise

Gritar Viva Europa parece ser um brado melancólico. A União Européia está frouxa, em particular no seu núcleo duro, a zona do euro. A liderança de plantão (veja foto) está aquém da carga de responsabilidades e desafios. Obviamente nem falo de bufões como o italiano Silvio Berlusconi, mas da dobradinha Angela Merkel/ Nicolas Sarkozy. O motor propulsor do projeto europeu são alemães e franceses, mas a máquina está emperrada em meio à constante tarefa de apagar incêndios econômicos. Alguns desafios e obstáculos no projeto europeu foram subestimados ou deliberadamente ignorados, a destacar a criação de uma união monetária (o euro), sem uma união fiscal.

Obviamente, existe um preço para uma união europeia mais rigorosa, mais ampla e mais eficiente. Exige menos soberania nacional e aumenta o ônus dos sócios ricos, em particular a Alemanha, para segurar o rojão, a fragilidade e as indulgências dos sócios mais pobres ou vulneráveis da periferia, que vão de paísecos como Grécia, Portugal e Irlanda, a outros, como Espanha e Itália, que, se quebrarem, podem levar edifício europeu ao desabamento. E a periferia precisa se comportar muito bem.

Relutantes para pagar a conta, os alemães sabem também como é vital preservar o projeto europeu. O país que renasceu da ignomínia nazista na Segunda Guerra Mundial está consciente que pode ser forte e influente desde que esteja dentro do santuário europeu. A potência alemã deve proteger e não ameaçar. A crise, porém, hoje incomoda sua população, menos inclinada a se sacrificar pelos primos europeus da periferia. Por outro lado, na periferia, existe ressentimento contra a Alemanha.

Isto exige um jogo político ardiloso da primeira-ministra Angela Merkel. Ela tem compromissos domésticos, mas também continentais. E secundada pelo francês Sarkozy (com o qual muitas vezes não está afinada), Merkel precisa liderar o coro de que os líderes europeus farão tudo o que for necessário para assegurar a estabilidade do euro e, por extensão, do projeto continental. Nada disso é fácil em razão da relutância dos alemães para pagar contas e do quadro de inevitável austeridade em vários países europeus que pode trazer instabilidade social e estagnação econômica por um bom tempo.

Existem graves problemas econômicos na Europa, mas, no final das contas, as soluções são políticas. Se o caminho inevitável para salvar o euro for uma união fiscal mais rígida, um grande desafio será vender o projeto em termos políticos. Na expressão da empresa de consultoria e análise de risco Stratfor, uma união mais sólida vai significar decisões sobre taxação e apropriação, ou seja, quem paga quanto e como para quem. E aqui estamos falando de atos políticos, intromissão na soberania nacional e um aprofundamento de iniciativas coletivas. É difícil imaginar uma centralização fiscal sem uma efetiva autoridade política (e militar) igualmente centralizada. E realmente eu não sei dizer de cabeça quem é o presidente-fantasma da União Europeia (na informação inútil, é o belga Herman van Rompuy)

Infelizmente, parece que a Europa não está preparada hoje para passos tão largos, embora, ironicamente, a urgência da crise talvez os apressem. Claro que o resultado podem ser tombos maiores ou passos insuficientes diante dos buracos imensos no meio do caminho. Uma crise não manejável em países mais importantes da zona do euro, Espanha ou Itália, pode ser maior do que as promessas ou mesmo do reforço da rede de proteção para ajudar os sócios do clube europeu em situação dramática. No cenário de déficit e divida na Europa, existe um superávit de céticos se o euro e o projeto europeu vão aguentar o tranco. Para os céticos, a execução ficará a cargo dos alemães, com a paciência exaurida para arcar com tantos pacotes de resgate.

O colapso europeu será uma tragédia e não apenas para os europeus. O mundo precisa de uma Europa forte e integrada, que irradie seus valores e lições históricas. Em países emergentes existem surtos triunfalistas de que a era dos EUA e da Europa já era. É verdade que a União Europeia em muitas situações colide com os primos dos Estados Unidos da América, mas suas convergências são muito maiores do que as divergências. Ainda bem. Está aí um bloco que propaga o melhor modelo para a humanidade. em termos de respeito à democracia, do império da lei, da obediência aos contratos e de um estado, que embora excessivo e oneroso, em especial na Europa, está a serviço do cidadão.

A Europa, em particular, com os esforços de integração no pós-guerra, é um exemplo de repúdio aos conflitos militares e acomodação de diferenças religiosas, étnicas, culturais e ideológicas. Claro que é um projeto imperfeito e que de certa forma peca pela ambição. Em contrapartida, ambição é uma virtude em muitas situações. É um conforto escutar a voz da Europa quando países da Ásia, África e América Latina descambam na violação dos direitos humanos. Muita gente rebate que os europeus com seu passado colonial e barbaridades dentro de casa não têm moral para pontificar e se intrometer. Pelo contrário. A velha Europa errou e aprendeu. Tem muito para dizer e vamos esperar que seu projeto de união sobreviva e se consolide.