segunda-feira, maio 16, 2011

Alta dos alimentos está longe do fim

Carolina Guerra, Veja Online

Preços são puxados por forte demanda e mercado financeiro. Um possível estouro da bolha não deve se concretizar

Produção agrícola tem dificuldade para acompanhar
o explosivo crescimento da demanda (Cristiano Mariz)

A inflação no Brasil continua ameaçada. A queda recente no preço de algumas commodities, como petróleo, soja e arroz, dá sinais de que foi apenas um movimento pontual, e não o estouro de uma bolha como muitos alarmistas chegaram a apontar. O fato é que o preço alto dos alimentos, apontado como um dos vilões para o aumento da inflação no Brasil, se mantém como um problema mundial e sem data para ser resolvido. Nos próximos anos, tanto deve persistir o descompasso entre oferta e demanda por produtos agrícolas quanto a busca por rentabilidade entre as commodities por parte dos investidores, impedindo um recuo dos preços. A conclusão derruba a ideia do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que previa inflação mais baixa a partir do recuo das commodities. A melhor previsão, portanto, é que a equipe econômica do governo vai precisar de muito mais do que otimismo para reduzir os índices de inflação.

Até mesmo quem já passou pelo governo parece ter uma visão mais realista do que Mantega. Há alguns dias, Roberto Rodrigues, ex-ministro da fazenda no governo Lula, fez um alerta: o de que os preços dos alimentos não deverão se equilibrar pelo menos nos próximos dois ou três anos. Na visão de alguns especialistas, o ministro foi até otimista em seu pronunciamento. Uma série de fatores indicam que o preço dos alimentos não vai baixar no curto e nem no médio prazo. “A produção agropecuária cresce mais lentamente que a tendência do consumo. Estamos muito próximos dos limites de capacidade”, aponta José Vicente Ferraz, diretor técnico da consultoria Informa Economics FNP.

A base do problema é que, com o crescimento da renda em países em desenvolvimento, o número de pessoas que compram comida subiu. O aumento da migração do campo para grandes centros urbanos, onde a renda e o consumo são maiores, também contribui para o caso. Por fim, uma população urbana e com mais dinheiro consome proteína animal em maior quantidade, o que exerce mais pressão sobre a estrutura produtiva, já que grande parte dos grãos produzidos é desviada para a criação de animais.

Na alta do preço dos alimentos, há ainda a pressão do mercado financeiro. Após a crise de 2008, as commodities tornaram-se ativos interessantes para quem buscava uma diversificação de investimentos. Como os países desenvolvidos tiveram de despejar trilhões de dólares em suas economias para impedir uma repetição da Grande Depressão dos anos 30, aumentou significativamente a liquidez nos mercados. As taxas de juros, por sua vez, despencaram e assim permaneceram – justamente porque o objetivo das economias centrais era tirar do caminho qualquer obstáculo a uma retomada. Grande parte do recurso dos investidores aportou nos contratos de commodities.

José Francisco Matias, trader da Link Investimentos, avalia que os investidores continuarão apostando no rendimento das commodities. Essa realidade só mudaria se os países desenvolvidos aumentassem significativamente as taxas de juros. Como europeus, japoneses e americanos ainda lutam por uma recuperação mais firme, uma queda constante do preço das commodities parece ser uma realidade ainda distante.