Luiz Carlos Mendonça de Barros, Exame.com
O governo tem mostrado que finalmente acordou para a gravidade da escalada da inflação nestes seus primeiros meses de vida. Como sabe o leitor este é primeiro passo para se enfrentar, com alguma possibilidade de sucesso, qualquer dificuldade que apareça no caminho de um governante. Sem reconhecer a existência de um problema como enfrentá-lo?, dizia Rui Leme, meu querido e sempre lembrado professor na escola Politécnica quase meio século atrás.
Propunha ele a seus alunos um roteiro padrão para que pudéssemos ter sucesso em nossa vida profissional de solucionador de problemas – era esta a leitura que ele fazia da carreira de engenheiro que tínhamos escolhido: fazer um diagnostico cuidadoso do obstáculo a ser enfrentado e, só depois de muita reflexão, partir para a escolha dos instrumentos de ação. Com um diagnostico errado ou apenas parcial sobre as causas do problema , os instrumentos escolhidos para uma ação serão ineficientes e, em muitos casos, os tornarão ainda mais complexos.
Infelizmente as lições deste meu velho professor passam longe da presidente Dilma, de seus principias auxiliares e, principalmente, dos membros mais agressivos do PT. Como já escrevi, o diagnostico oficial sobre a inflação brasileira está errado e, portanto, os instrumentos que estão sendo mobilizados para enfrentá-la não correspondem aos necessários para voltar a ancorar os processo de aumentos de preços que está instalado na economia brasileira hoje.
Na ultima semana, vários membros importantes da equipe de nossa presidente adicionaram tons moralista ao arsenal de medidas para tentar reverter o quadro da inflação. Em reunião com empresários em Brasília a presidente e alguns ministros fizeram apelos para que eles moderassem os aumentos de preços nos próximos meses. Já o presidente do Banco Central em entrevista a uma importante colunista pediu aos consumidores que reduzam seus gastos e poupem mais, pois os preços vão ter sua alta reduzida no futuro e é o momento para aproveitar os juros elevados e aumentar sua poupança.
Estas palavras mostram que o governo não entendeu como funciona uma sociedade como a brasileira em momentos como os que estamos vivendo agora. Com a renda do trabalho crescendo ainda a taxas vigorosas - e o futuro parecendo muito positivo – e com vários mercados importantes trabalhando acima de sua capacidade produtiva a reação racional dos agentes econômicos será diferente da que espera o governo.
No caso dos empresários, com custos em elevação e mercados aquecidos, a decisão reacional será a de aumentar seus preços e manter as margens de lucros. Isto está acontecendo em um momento em que a inflação em 12 meses já é superior a 7%.
Já o consumidor, principalmente a nova classe media emergente, o apelo para aumentar sua poupança me parece até ridículo. Eles desejam aumentar seus gastos e atender demandas ainda não atendidas.
O combate à inflação só terá sucesso se os responsáveis pelas decisões do governo reconhecerem sua natureza de excesso de demanda, em relação aos recursos hoje disponíveis, e não contar com um aumento da oferta a ser criada por novos investimentos para diminuir a pressão sobre os preços. É preciso tomar as medidas necessárias para reduzi-la de uma forma coercitiva – com juros mais elevados e gastos públicos bem menores – e não de forma voluntaria por parte dos agentes econômicos.
Os discursos do governo me lembram o governo Sarney em 1986 com seus fiscais e outros apelos patrióticos…
PS. as taxas mensais de inflação vão se reduzir bastante entre junho e agosto por conta da sazonalidade de alguns produtos e o estouro de um mini bolha de commodities que ocorreu no fim da ultima semana. Mas, se o governo declarar vitoria e correr para o abraço da torcida, a recidiva na virada do ano vai ser muito forte e de mais difícil combate.