segunda-feira, maio 16, 2011

A Europa privatiza para sair da crise. No Brasil, estamos voltando ao tempo das cavernas

Ricardo Setti, Veja online


Amigos, em nenhum outro lugar do planeta, tomado em conjunto, o padrão de vida e de seu desfrute se equipara ao que vivem, desde que os respectivos países se reergueram dos escombros da II Guerra Mundial, os cidadãos dos países mais desenvolvidos da Europa Ocidental. Não se trata apenas de riqueza – ela é abundante, claro, nos Estados Unidos, na Austrália, no Canadá.

Falo de um conjunto de fatores históricos, culturais, sociais, artísticos, estéticos, de ritmo de vida e até gastronômicos que fazem da Europa Ocidental, como me disse certa vez o amigo Roberto Pompeu de Toledo, o melhor que o homem conseguiu fazer até hoje. Apesar da grave crise econômica atual, do questionamento do modelo de Estado de bem-estar social, do desemprego que atinge cifras assustadoras, da imigração que é uma solução mas também um problema.

Mesmo assim, a velha e boa Europa não vai deixar de ser a velha e boa Europa. E estou entre os que acreditam que o Estado de bem-estar social, reformulado, continuará a servir aos europeus.

Um anátema do lulo-petismo
Tudo isso para dizer falar de um assunto que é anátema no Brasil do lulo-petismo: a privatização. No Brasil retornamos paulatinamente ao tempo das cavernas dos anos 40, 50 e 60, com governo, sindicatos (especialmente de funcionários), políticos e lobbies diversos empurrando cada vez mais o Estado para incomodar a vida dos cidadãos e das empresas. Estão aí a utilização política da Petrobras, que atrapalha enormemente sua governança corporativa, a intervenção branca do governo Dilma na Vale, empresa privada, via fundos de pensão de funcionários de estatais, grandes acionistas da empresa, a criação de mais uma estatal para o petróleo do pré-sal — e por aí vai.

Enquanto isso, a Europa, uma vez mais, se volta para esse fantástico instrumento de progresso e geração de riqueza como uma das soluções para os danos causados pela crise de 2008 – e não apenas por ela.

Para continuar sendo membros da União Europeia, que os fez avançar um século em progresso e bem-estar em poucos anos depois que aderiram ao bloco, a Grécia e Portugal estão sendo socorridos pela própria UE e pelo Banco Central Europeu. A Grécia já começou a receber o empréstimo de 110 bilhões de euros para sair do buraco em que a crise de 2008 e maracutaias de seu governo a lançaram, Portugal vai ser destinatário de 78 bilhões para não quebrar por insistir em manter um Estado gordo, caro e ineficiente.

Nos dois casos, condição sine qua non para que o dinheiro flua é privatizar.



Portugal tem 600 órgãos públicos que poderiam sumir
A Grécia se comprometeu com a União Europeia a gerar 50 bilhões de euros (115 bilhões de reais) com privatizações destinadas a diminuir sua dívida pública e equilibrar suas finanças. Não foi detalhado ainda o que, exatamente, será privatizado.

Em Portugal é diferente: não se fala num montante exato de cifras, mas já se sabe algo do que as privatizações vão atingir.

Para cumprir o pacote econômico que deverá ser assinado nos próximos dias entre a UE e o governo socialista português – com anuência da oposição conservadora, possível vencedora das eleições gerais do próximo 5 de junho –, Portugal deverá vender a maior parte ou toda sua participação de 100% na empresa aérea TAP, parte dos 25% que possui no gigante de energia EDP, que atua também em outros 4 países europeus, nos Estados Unidos e no Brasil e engloba dezenas de empresas, e se desfazer de uma série ainda não definida de negócios da estatal Caixa Geral de Depósitos, o maior grupo bancário e segurador do país.

Vejam a eficiência do Estado português administrando a TAP: mesmo tendo tido um crescimento de 6,2% no número de passageiros transportados entre janeiro e março, e também aumentado a taxa de ocupação de seus assentos de 69,1% para 71,2% no mesmo período, a empresa teve prejuízo de 70 milhões de euros (161 milhões de reais).

Em outro post, explicarei em detalhes o tamanho do buraco de Portugal, que tem mais de 600 órgãos públicos que, segundo estudos sérios, poderiam ser enxugados, reduzidos ou extintos..

A Grã-Bretanha se tornou forte e competitiva


A privatização que agora se pretende nos dois países em dificuldades foi poderoso instrumento de modernização da Grã-Bretanha, país caindo pelas tabelas, com tecnologia atrasada, parque industrial obsoleto e leis trabalhistas inviabilizadoras do progresso até a chegada ao poder da conservadora Margaret Thatcher, em 1979.

Em 11 anos de governo, Thatcher quebrou o poder férreo dos sindicatos, realizou uma “privatização selvagem” de empresas públicas e adotou uma vasta série de medidas que tornaram as empresas e a economia britânicas eficientes e competitivas. A mesma linha seguiu nos 7 anos seguintes seu sucessor, John Major, e os rumos da economia britânica não mudaram mesmo com a chegada ao poder do “Novo Trabalhismo” do primeiro-ministro Tony Blair (1997-2007) e de seu sucessor, Gordon Brown (2007 a maio deste ano, quando, em aliança com os liberais-democrata, os conservadores do primeiro-ministro David Cameron assumiram o poder).

A crise de 2008 afetou, sem dúvida, o Reino Unido, que também sofre de desemprego, fechamento de empresas e outros males. Mas Londres prossegue como fundamental praça financeira e empresas e bancos britânicos são suficientemente fortes para deterem parcela considerável da economia do país mais rico do mundo — os Estados Unidos.

Na Espanha, socialistas privatizaram


A modernização da Espanha sob o primeiro-ministro socialista Felipe González (1982-1996) lançou mão de grandes privatizações, inclusive da cambaleante, obsoleta e deficitária fábrica de automóveis Seat que hoje, parte do grupo Volkswagen, é sólida, competitiva, dá empregos e paga impostos. Para não falar da Alemanha, campeã da livre iniciativa, que privatizou mais de 2.000 empresas depois da incorporação da extinta Alemanha Oriental e ostenta competitividade para ter sido, até perder o posto para a China há algumas semanas, o maior país exportador do mundo.

No Brasil, porém, a mentalidade cavernícula que predomina impede até que se toque no assunto e sataniza quem ousa debatê-lo – tanto é que, em três campanhas presidenciais sucessivas, os candidatos tucanos esconderam do eleitorado o grande feito que foram as privatizações realizadas pelo governo FernandoHenrique Cardoso (1995-2003), a começar pela da telefonia, de êxito espetacular e inegável.