segunda-feira, maio 16, 2011

A cascavel e a onça

Sebastião Nery

Rio – Em 1988, Magalhães Pinto, ex-governador de Minas e ex-ministro do Exterior de Costa e Silva, desiludido por haver sonhado que seria o “lider civil” do golpe militar de 1964 e profundamente magoado por ter sido vetado como candidato a presidente da Republica depois do general Geisel, encontrou-se em São Paulo com Renato Costa Lima, líder agrícola, presidente do IBC no governo de Juscelino e ministro da Agricultura do governo de Jango, que o chamou para uma conversa :

- Magalhães, não acredite nessa gente. Eles só quiseram usar você. Eles jamais deixarão que você seja candidato e muito menos Presidente.

- Não esperava ser tratado assim pela Revolução que liderei em Minas.

Renato
Renato Costa Lima lhe contou uma historia de fazendeiro.

- Magalhães, era uma vez um caboclo que estava no meio do mato tirando lenha para seu fogão. De repente, viu uma cascavel enrodilhada junto dele, em cima da pedra, espichando a cabeça bem à altura de seu pescoço. Esfriou, parou, ficou imaginando como livrar-se da situação.

Ouviu barulho na folhagem, sentiu que era um animal grande, esperou, lá vinha uma onça enorme, de olhos iluminados, avançando para cima dele. O caboclo tomou a decisão em um segundo: pegou a cascavel pelo pescoço, deu um pulo com ela e enfiou a cabeça da cascavel atrás da onça. A onça deu varios saltos, sacudiu a floresta com um gemido, estremeceu, caiu. E a cascavel enfiada nela, como um dardo.

Magalhães
Magalhães ouviu a história, sorriu:

- E eu com isso, Renato?

- Você não, Magalhães. Outros, sim. Outros têm muito a ver com essa história.

- Mas, nela, eu sou o que, Renato?

- Você é o caboclo, Magalhães. E não deixe de ser.

Hollanda
O PT é um partido de cascavéis e de onças. Bastou um mês no ministério da Cultura para a brava artista Ana de Hollanda aprender o que é o partido do governo para o qual ela foi convidada pela presidente Dilma.

Antes de tomar posse, a ministra deveria ter lido o belo “Poema Didático” do saudoso poeta Paulo Mendes Campos, que começa assim :

- “Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo”...

É evidente que não é a maioria do partido. Mas, para a maioria do PT que está no governo, ou vive do governo, o governo não passa de “uma armação metálica”, feita apenas de dinheiro, onde apenas o dinheiro conta.

Os que, no governo passado, viviam sugando o ministério da Cultura como sanguessugas vorazes, de repente se desesperaram quando a ministra anunciou que iria propor reformas para gastar melhor o dinheiro da cultura. A solução que logo imaginaram foi fragilizar e derrubar a ministra.

Camarotti
No “Globo”, o Gerson Camarotti resumiu a novela, dando os nomes:

1. - “O Palácio do Planalto já identificou de onde parte, dentro do PT, o forte tiroteio para desestabilizar a ministra da Cultura, Ana de Hollanda. No núcleo do governo, há o reconhecimento de que a situação é delicada, a ministra apresenta um desempenho fraco e não sai da agenda negativa. Ainda assim, a disposição da presidente Dilma é mantê-la”.

2. – “A presidente considera que os fatos levantados até agora não justificam a demissão. A saída de Ana seria uma sinalização de que Dilma errou na escolha do substituto do ex-ministro Juca Ferreira... - É preciso ter postura mais firme da área política do governo para identificar quem está fazendo o fogo amigo,alertou o líder do PT, senador Humberto Costa (PE)”

Sanguessugas
3. - “Petistas promovem ataques públicos, entre eles Marcelo Branco, ex-integrante da coordenação de campanha de Dilma, o ator José de Abreu e o deputado André Vargas (PR), secretário de Comunicação do PT”.

4.-“O governo também identificou forte mobilização do grupo do ex-ministro Juca Ferreira e do sociólogo Emir Sader, que chamou a ministra de “meio-autista” e teve a nomeação para a Casa Rui Barbosa cancelada” :

- “Está na hora de a ministra fazer mais política e mostrar sintonia com o governo. Esse é um governo de continuísmo. A ministra não pode desmobilizar tudo o que foi feito no governo Lula. Não queremos o cargo, Queremos uma política coerente de continuidade” - disse André Vargas.

5. –“O que há na Cultura é um retrocesso. A ministra negou a política cultural do ex-presidente Lula. È uma traição à militância petista e ao eleitorado – criticou José de Abreu, militante petista”. (Todos manjados)