Por ter outros compromissos no horário do debate RedeTV/Folha, confesso não tê-lo acompanhado. Portanto, vou me valer do apanhado que o Estadão. Claro que a letra fria do conteúdo impresso, não dá a transparência a uma avaliação sobre quem se melhor ou pior. Porém, pelas respostas, pude perceber duas coisas, ambas pesando contra o tucano José Serra: primeiro, o debate foi, ao meu ver, insosso, morno, sem discussão efetivas de propostas. Quando falo em propostas, falo não de meras cartas de intenções. Nisto, há um vazio, como de resto tem sido toda a campanha eleitoral, um verdadeiro deserto. Para mim, proposta é você primeiro identificar o problema de forma clara e objetiva e, depois, dizer o que será feito, de concreto, de viável, para acabar com o problema, ou ao menos minimizá-lo. Para quem vem correndo atrás nas pesquisas, tendo que enfrentar a fabulosa máquina de propaganda oficial e à popularidade de Lula, a linguagem de Serra é insuficiente para superar os obstáculos.
A segunda questão é que, em sendo oposição, Serra deveria ter atacado os pontos frágeis do governo, aqueles para os quais Dilma não teria defesa. E quais seriam tais pontos? Primeiro, desconstruir a tal “revolução na educação” que não passa de piada de muito mau gosto, e isto já em diversas oportunidades provamos aqui. Como desconstruir? Ora, veja-se o caso dos exames de avaliação: na oposição, o PT condenava tais exames, até se utilizava de entidades a ele ligadas, para incentivar o boicote. Exemplo foram as ações, discursos e mobilizações comandadas por Lindemberg Farias, hoje político no Rio, mas que na época estava à frente da UNE. Depois, mostrar que as “novas universidades” não passam de marola e que há uma enorme ociosidade de vagas. Em seguida, mostrar o número absurdo de estudantes que ingressam no ensino fundamental mas que não chegam no ensino médio. Depois, provar com números, que o número de analfabetas no país caiu muito pouco no governo Lula. E arrematar informando que a universalização do ensino fundamental só foi possível graças ao Bolsa Escola, criado no governo FHC, quando praticamente tivemos 98% das crianças, em idade escolar, na faixa de 6 a 14 anos, matriculadas. E isto, sim, é que representou uma revolução.Se quisesse fechar com chave de ouro, poderia, ainda ter completado com o recentemente levantamento dos índices de competitividade, quando, no quesito “educação” o Brasil ocupa as últimas colocações, num ranking de 140 países.
Saindo da educação, e entrando na questão de saneamento, poderia ter demonstrado que, no governo Lula o país até decresceu em número de pessoas a quem é possível contar com saneamento básico em suas casas e que, no governo FHC, com todas as crises enfrentadas, o governo saiu de índice em torno de 40% para perto de 50%.
Na economia, poderia ter lembrado os boicotes a todos os programas advindos do plano Real, e ainda lembrar a todos que FHC assumiu com inflação na casa dos 5.0000 % ao ano, e deixou o governo com 10%. Poderia ter lembrado do caos das contas públicas, e deixou o plano saneado.
Na saúde, poderia ter lembrado o caos da saúde pública e até ter criado uma pegadinha para Dilma, com relação aos investimentos. Dilma, por certo, lembraria da CPMF, acusando a oposição de ter acabado com o imposto. E aí Serra poderia lembrar do volume de recursos que Lula contou de CPMF por quatro anos, do quanto foi desviado na finalidade a aplicação do recurso, e que foi a base aliada à Lula, e não oposição, que derrubou a CPMF, uma vez que a oposição sequer maioria tinha para tanto. Poderia até ter lembrado, não à Dilma, mas ao eleitor, que PROGRAMAS SOCIAIS quem os implantou foi FHC e não Lula, e que a menor queda nos índices de pobreza se deram no período de 1995 a 2002. E que a ascensão dos 25 milhões de brasileiros à classe média não passa de um truque estatístico: mudaram-se as faixas de renda que classificavam quem era pobre, quem era classe média. E quem, de fato, iniciou o processo de aumento real do salário foi FHC, e não Lula, que apenas deu continuidade.
Poderia, até, no terreno da infraestrutura ter confrontado a Dilma e seu PAC mentiroso. Por exemplo, poderia ter apontado que o PAC se tratava de um pacote requentado de obras de governos anteriores, que Lula interrompeu no primeiro mandato, e que retomou com o rótulo de PAC já no segundo mandato, se apresentando como de obras alheias.
Reparem num detalhe: tudo o que acima elenquei, o fiz a partir apenas de dados na memória, fruto de informações coletadas ao longo do tempo. Imagine-se Serra, contando com um exército de assessores, o quanto de conteúdo poderia acrescentar ao que vai acima! Para quem enfrenta a mentira da propaganda (que não é pouca!), a posição inferior nas pesquisas e a popularidade de Lula, convenhamos, ao meu ver, o debate resultou nulo para Serra. Não vai acrescentar nada ao que já tem.
Num determinado momento, Dilma, falando das proezas da Polícia Federal, trouxe a tiracolo (parece que adivinhava quando escrevi ontem sobre isto), a operação da PF no Amapá. Ótimo, só que é a mesma Polícia Federal que não soube desvendar os segredos do mensalão, dos aloprados, das cartilhas (alguém lembra?), que não conseguiu resolver a questão do sigilo (quem tem levantado as verdades tem sido a imprensa), e que4, estando tão perto, não conseguiu resolver, antes que a própria imprensa, a questão trazida à tona pela imprensa quanto ao lobby praticado na Casa Civil.
Poderia, ainda, ter lembrado a intromissão indevida de Lula contra o trabalho do TCU, o abrigo a terroristas e assassinos estrangeiros, a questão da expropriação de uma refinaria da Petrobrás na Bolívia, a benemerência sem limites a países estrangeiros, enquanto há questões mais urgentes dentro do próprio país, poderia abordar com muita profundida a questão fiscal, a perda de competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional, a queda vertiginosa dos saldos da balança comercial, o processo de desindustrialização do país, a falta de ação do governo alimentando organizações criminosas como o MST que tem aumentado a violência no campo com subsídio governamental, e etc.etc.etc.
Poderia falar da falta de transparência do governo Lula em relação aos seus gastos, Poderia falar das tentativas do governo de cercear a liberdade de imprensa, do plano de captura dos direitos humanos, da tentativa de amordaçar o judiciário, de aumentar o peso do Estado para a sociedade sem oferecer nada em troca, e que este aumento só servia para abrigar os amigos no poder, e comprometer o investimento público.
Enfim, assunto para desconstruir tanto o governo Lula quanto a arrogância de Dilma, como se vê, não faltava ao Serra.
Quanto ao desempenho de Dilma, bem, o que dizer? Além da arrogância costumeira e que é dela própria, sua personalidade é exatamente assim, alaém de espancar os números com mentiras absurdas na tentativa de engrandecer um governo com muitas debilidades, não perde a sua incontrolável compulsão à mentira. De tudo e por tudo que disse, eu destacaria um trecho. Vejam a pérola: quando Marina Silva lembrou dos casos de corrupção, Dilma respondeu lembrando os mecanismos criados pelo governo Lula, colocando no Portal da Transparência "todas as despesas do governo". Todos uma OVA, senhora Dilma!!!! Cadê os gastos com cartão corporativo, feitos pela presidência da república, e cujo acesso é negado até para o Tribunal de Contas União, a quem cabe fiscalizar justamente TODOS os gastos públicos? Além de ser contraditória a alegada transparência, o sigilo sobre o gasto com cartões corporativos feitos pela presidência é fruto de um decreto assinado, vejam só, por Lula da Silva, em 2003!!!!
Não tenho ligação com nenhum instituto de pesquisa, não sou marqueteiro político, não sou jornalista ligado a nenhum órgão de imprensa, e não tenho nenhuma filiação partidária. Mas duvido que não sejam as questão acima que afligem a população. Duvido que tais questões, se abordadas por Serra desde o começo da campanha eleitoral, não tivessem maior receptividade de parte do eleitor. Porque sei, e sei porque ouço as pessoas de todos os níveis sócio-econômicos, que tais questões estão presentes no cotidiano do povo brasileiro.
Conclusão: se continuar fugindo destes temas, ele se condena a sair menor, politicamente, nesta eleição, do que em 2002. Alguém precisa dizer a ele, rapidamente, o seguinte: “Cara, você é de oposição. Ataque os pontos fracos do governo Lula que são muitos. Saia de cima do muro!”.
Mas, para as emissoras que ainda pretendam fazer debates para a eleição presidencial, um conselho ou sugestão: que tal equalizar os tempos de exposição dos candidatos? Fica chato quando se dá mais exposição a um do que aos outros. Até porque, o debate, é para TODOS exporem ideias e propostas, e para “algum” tenha o prêmio da torcida da emissora. Que não está dispensada de torcer, não: mas há outras formas de fazê-lo, e aquelas em que sua torcida deve, de forma decorosa, ficar guardada. Neste caso, o debate é um destes momentos de decoro.
Em todo caso, já me preparo para o país vive os próximos quatro anos de muita encrenca. E acreditem: ela tende a começar pela própria base governista. Por quê? Pela simples razão de que o PMDB não terá vendido esta aliança a troco de meia dúzia de cargos no primeiro escalão e uma penca deles de menor expressão. Tampouco o PT, por seu núcleo mais xiita, se contentará em não ver triunfar no país suas propostas mais retrógadas.
Quanto a oposição, bem, esta precisará, urgentemente, rever a si mesma. Não poderá continuar tão passiva, tão leniente, tão sem discurso, tão evasiva, quanto tem sido até aqui, desde 2003. Deverá, de uma vez por todas, assumir com orgulho, o seu legado. Não pode apostar na memória do povo, ou no reconhecimento da imprensa. É ela quem deve cantar seus êxitos e espalhar para que todos ouçam. Quando Lula propôs lá atrás a comparação, ao invés de acuar, deverá ter aceito, desde que cada um comparasse o país que recebeu: FHC, em 1995, e Lula, em 2002. Só nisso, arrancava com grande vantagem.
Agora, precisará agir como oposição e com coragem e firmeza, do contrário, também ela, e não apenas aos petistas, se poderá debitar a culpa pelo retrocesso institucional que o país terá de enfrentar, com bem mais intensidade do que o que já vem enfrentando desde 2003.
Sempre que há debates, tantos os sites dos grandes órgãos de imprensa quanto os blogs, fazem a mesma enquete: “Na sua opinião, qual se saiu melhor no debate?” E aí relacionam os candidatos participantes. No debate de hoje, se houvesse uma alternativa do tipo “O telespectador que não assistiu e achou coisa melhor para fazer do que perder tempo com inutilidades”, acreditem, esta ganharia disparado!!!
A “companheira” Dilma, replicando o discurso do padrinho Lula e todos os seguidores do petismo, sempre que apanhados em flagrante delito, sacam da sua pistola para dar o primeiro tiro: sempre negar. Se as descobertas provocam em reclamação das vítimas, o segundo tiro, é dizerem que “as elites” ou "a oposição"querem dar um golpe no governo democrático. O engraçado, sabe o que é, é que o PT é que vive dando golpe na democracia. Pelo repertório já acumulado de crimes, alguns nas ante-salas da presidência, que sempre diz nada saber, a gente percebe que o Fernando Collor ganhou o impeachment por um minúsculo grão de areia quando comparado ao governo do Lula. Houvesse, de fato, tanto uma oposição comprometida com o país, e uma elite mais participativa e menos submissa, Lula, de há muito, já teria sido empurrado para fora do poder. Em todos os crimes, invariavelmente, o único beneficiado foi ele próprio. E, em todos, se não sabia é ainda mais irresponsável, porquanto, determinou o acobertamento e a impunidade dos amigos do reino. Então, quem é mais golpista, a oposição, a imprensa e as vítimas que denunciam, ou Lula que se esconde atrás da cortina, da mentira, da mistificação, de forma covarde, para continuar golpeando a lei, a ordem e a democracia?
Se o país pretende um dia ser sério, precisará trazer a tona estes tempos em que teve suas instituições e valores esmigalhados pelo senhor Lula da Silva e sua corte. Mostrar quem foi quem nesta republiqueta instalada no poder. Privatizar novamente o Estado para o país, e não para o partido. Limpar a máquina pública dos incompetentes e vagabundos ali colocados para favorecer o partido, e não a sociedade. Desinfectar o país do ranço retrógrado da ideologia da opressão. Expurgar da vida pública as oligarquias de gigolôs da Nação. E este será o único e verdadeiro debate que nos faltará para sermos, de fato, uma nação livre, séria e civilizada.