Adelson Elias Vasconcellos
Neste momento em que a economia do país cresce rápido, e isto não é uma questão do aqui e agora, fruto desta ou daquela medida, mas resultado de um longo processo que já soma 16 anos, é comum a gente ler ou ouvir que , empregos há, e muitos, o que falta é gente qualificada para ocupar funções mais técnica, que exigem melhor formação, experiência e conhecimento.
Qual o significado desta “falta de pessoal mais qualificado”, que, alguns empresários, estão a reclamar? É simples: significa que o país não está formando pessoas condizentes com as necessidades do mercado de trabalho, ou em outras palavras, que a educação brasileira está fora de sintonia com o mundo moderno.
Vimos aqui, há poucos dias, que relatório do Fórum Econômico Mundial rebaixou o Brasil em duas posições no ranking dos países mais competitivos. Quando se olha alguns indicadores do relatório, observamos o seguinte: o País saiu-se pior por causa da deficiência de políticas públicas de saúde e educação primária, do mercado de trabalho, além do enfraquecimento das agências reguladoras. Como a carga tributária não se reduziu no período, o problema não foi de falta de recursos, mas de gestão na sua aplicação. Exemplo: aplicou-se menos em saneamento básico e mais em subsídio ao crédito. Apenas sob tal ângulo, para qualquer gestor público, esta parte do texto já sinalizaria de que o país, do ponto de vista de políticas públicas, está na contramão de suas reais necessidades.
Mas o mais doloroso é que vem a seguir. Diz o relatório:
“Mas, em 139 países pesquisados, o País está em último lugar quanto ao peso da regulação pelo governo e à extensão e peso da tributação; no 136.º, por desperdício nas despesas do governo e spread na taxa de juros; e no 135.º, no tempo gasto para abrir um negócio. E ficou ainda entre os 15 piores países em rigidez do mercado de trabalho, confiança nos políticos, crime organizado, custo da violência para os negócios, qualidade dos portos e problemas aduaneiros.”
E completa com um alerta, ou pelo menos deveria servir como tal para nossos governantes:
“Todavia, a queda do Brasil no ranking geral de competitividade neste ano se deveu a que outros países fizeram mais do que o nosso.”
Reparem que, em todos os indicadores nos quais o Brasil se situa nas últimas colocações, TODAS, sem exceção, são derivadas de ações de governo.
Ora, é claro que o país avançou, mas se o conseguiu, a explicação não está na gestão das administrações públicas de 2003 para cá.
Vejam que o alerta final aponta o dedo exatamente para aquilo em que temos insistentemente cobrado até de analistas econômicos e políticos:.enquanto boa parte dos países em desenvolvimento se valeram da expansão econômica mundial, no período de 2002 a 2008, o Brasil andou muito aquém do que poderia, em velocidade menor e sem praticar as reformas estruturantes que continuam entravando nosso desenvolvimento.
Este período de grande prosperidade nos beneficiou em que sentido? O próprio relatório indica isto quando menciona o baixo custo da política agrícola. Vou mais longe: a enorme competência do agronegócio brasileiro faz a festa de nossa economia, apesar do preconceito que ainda é tratada até pelo governo federal.
Ora, nunca o mundo consumiu tanto alimento como agora, e nisto somos mais competitivos. Nunca a necessidade de minérios foi tanta quanto agora. E nisto somos competitivos. Ou seja, enquanto o mundo consumiu comodities, é inegável que o Brasil tende a se beneficiar. Mas isto, como vimos, é pouco.
São exatamente relatórios deste tipo que explicam, parte do problema de carência de mão de obra qualificada que o país enfrenta. Para suprir esta falta, algumas empresas estão adotando programas de treinamento e formação de empregados nos próprios locais de trabalho. Se é um sinal, por outro, imagine-se que todo este custo poderia ser alocado na expansão de negócios e em gerações de mais empregos.
E, o que vergonhoso, estamos precisando importar pessoas mais qualificadas. Claro que o empresário que investiu na modernização de sua indústria, não pode esperar que o poder público adote melhor qualidade de ensino condizente com as necessidades do mercado interno.
O mais triste que se constata no desenvolvimento atual é que, quem está lucrando, de fato, política e economicamente, é o governo. Economicamente, em razão da carga de impostos que pesa tanto na produção quanto no consumo. E, politicamente, porque se apresenta como indutor do crescimento, quando, na verdade, como vimos, é ele quem trava o desenvolvimento. Ou seja, o país cresce sim, APESAR do governo, e não por causa de sua ação.
Não basta apenas dar continuidade ao programa de estabilidade implantado por Fernando Henrique. É preciso complementá-lo, aperfeiçoá-lo, até corrigir a rota, se necessário. Uma destas questões, por exemplo, é a política cambial. Ora, não é preciso ser um renomado economista para se saber que, a valorização excessiva do real frente ao dólar - em torno de 30%, ou um pouco mais - é perigosa e prejudicial.
E, por fim, as reformas estruturantes que a sociedade tanta reclama e precisa, em oito anos de governo Lula, simplesmente não saíram do lugar. O desenvolvimento de um país, fruto de sua estabilidade nunca é um produto acabado. A economia é dinâmica, a evolução tecnológica é acelerada. Assim, se o governo não se der conta que não bastam recursos volumosos jogados na educação, é preciso muito mais do que isso, como qualificação e modernização por exemplo, dentro de dez anos, continuaremos importando mão de obra pela incapacidade do país em gerar mão de obra necessária ao seu desenvolvimento. O que chega a ser vergonhoso, não é mesmo? Ademais, uma medida urgente a ser feito é o governo abandonar, de vez, a ideologização do ensino. Não é de militantes políticos que precisamos gerar, e sim cidadãos profissionalizados, e se o cidadão for livre, a ele caberá o direito de escolha política que pretenda fazer.
Porém, temo que, em o Brasil sendo governado nos próximos anos por um partido marcantemente de esquerda, devotado a um projeto de poder, e não de país, nossa posição no ranking da competitividade tende a piorar. Porque, se observarmos quais indicadores fizeram com que, nos últimos levantamentos tivéssemos galgado 16 posições acima, foram decorrência das mudanças ocorridas no período governado por FHC, conjugadas ao período de expansão econômica mundial. Como tantas vezes afirmei aqui, tivesse o governo atual aproveitado os bons ventos do período 2002-2008 e, por certo, teríamos muito mais prá comemorar.