Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação
Anthony Garotinho, principal adversário político do governador fluminense Sérgio Cabral, divulgou fotos devastadoras (www.gabeira.com.br): Cabral e o dono da Delta, Fernando Cavendish, até agora personagem principal da CPI do Cachoeira, dançando juntos em Paris, enquanto suas companheiras exibiam ao fotógrafo as solas vermelhas dos caríssimos sapatos Louboutin. Num lugar chiquérrimo, a mais cafona das celebrações - sabe-se lá o que celebravam.
Mas Garotinho não está a salvo: quem pagou a postagem de cartas pedindo votos a seus candidatos, nas eleições de 2004, foi, em grande parte, a Delta, de Cavendish. Nas cartas, Garotinho, evangélico, dizia estar orando pelos eleitores. Sua fatia da Delta, parece, não foi tão apetitosa; mas também comeu por lá.
Neste caso Delta-Cachoeira, não há quem escape: amigos, inimigos, antigos amigos hoje inimigos, antigos inimigos hoje amigos, ferozes defensores da moralidade dos outros, gente mais tolerante com a moralidade dos outros (e também com a própria). Há o tucano Perillo, governador de Goiás, há Demóstenes Torres, do DEM goiano, há Agnelo Queiroz, do PT de Brasília, há o peemedebista Sérgio Cabral, há Garotinho do PR (o mesmo do ex-ministro Alfredo Nascimento, aquele que caiu do Ministério mas manda muito no Senado e no partido). A CPI teme ligar a metralhadora, porque a arma pode girar.
Tanta gente! Daqui a pouco teremos de lembrar um velho sucesso de Carlos Galhardo (e também de Silvio Caldas): "Todo mundo, menos eu".
Velhos versos
Certos antigos poemas são irretocáveis. Desta mesma composição, uma única quadrinha: "Entre as luzes fatais da cidade/ A orgia cruel te envolveu/ Todo mundo chorou de piedade/ Todo mundo, menos eu".
Outros comentários já estão ficando fora de moda. O jornalista Ennio Pesce, sempre brilhante, costumava dizer que o mal do mar de lama é que as praias não davam para todo mundo. Pois não é que, neste caso, as praias cresceram muito?
Cheias de som e fúria
Só a Câmara dos Deputados teve 40 CPIs em 13 anos (houve ainda as CPIs mistas e as exclusivas do Senado). Houve de tudo nessas CPIs: um deputado que se orgulhava do apelido Torquemada, nome de um monge famoso pelas condenações à fogueira durante a Inquisição; um deputado que se dizia religioso e berrava, furioso, até quando dava a escalação de um time; um minideputado que queria ombrear-se ao avô - embora, para isso, tivesse de comer muito acarajé. De certa forma, era engraçado, como é engraçado ouvir, hoje, o que vociferava o senador Demóstenes Torres nas CPIs em que atuava. Essas CPIs, conta o colunista Cláudio Humberto, propuseram 70 medidas contra a corrupção.
Significando nada
Quantas dessas propostas foram votadas na Câmara? Acertou: nenhuma.
Capitanias hereditárias
Dilma escolheu o novo ministro do Trabalho - cargo vago desde que Carlos Lupi, do PDT, se afastou em dezembro do ano passado, por motivos semelhantes aos que derrubaram outros ministros. O escolhido é Carlos Daudt Brizola, que adotou o apelido político de Brizola Neto, na tentativa de receber parte da herança eleitoral do avô Leonel Brizola. É curiosa a política brasileira, hoje: só dá parente. Brizola Neto, ACM Neto, Sarney Filho, Roseana Sarney; Edison Lobão, Edison Lobão Filho, Nice Lobão; Ana Arraes, filha e mãe de governadores de Pernambuco; Henrique Alves, filho e primo de governadores potiguares, sobrinho de vice-governador e senador; Francisco Dornelles, sobrinho de dois governadores de Minas, sobrinho-neto de um presidente e ditador, sobrinho de um presidente eleito, primo de um governador; o potiguar Agripino Maia, filho de ex-governador, primo de ex-governador, sobrinho do governador de outro Estado, primo do governador de outro Estado.
Portugal sabia das coisas: organizou o Brasil em capitanias hereditárias. O caro leitor quer mudanças? Então, tá.
Nem isso muda
Cartaz que mostra direitinho como a educação é tratada no país: em São Francisco do Sul, Santa Catarina, numa Escola Básica Municipal, um cartaz há bom tempo pendurado no banheiro informa que é "proibido fazer o número 2". Os professores, que passam horas na escola, devem fazer o que, em caso de necessidade? Para bom entendedor, meia palavra - digamos - basta.
Tardou mas chegou
Até que enfim: os protestos que não houve quando a Bolívia ocupou militarmente uma refinaria da Petrobras, os protestos que não houve quando empresas brasileiras foram tocadas de lá, os protestos que não houve quando apareceram novas leis proibindo brasileiros de cultivar terras a menos de 50 km da fronteira finalmente ocorreram agora, quando soldados bolivianos expulsaram brasileiros que deveriam retirar-se até o dia 25 de maio e mataram seu gado.
Ainda não houve resposta oficial da Bolívia ao protesto brasileiro.
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