Adelson Elias Vasconcellos
Bandido bom é bandido preso, certo?. E isto é válido tanto para o Zé ninguém, quanto para um ministro de estado, ou um magistrado, ou até um senador. Ninguém, seja pela constituição, sejam pelos valores consagrados em uma democracia, está acima da lei. Ponto.
Dito isto, creio ser hora da gente analisar com um pouco mais de cuidado a tromba d’água que está sendo despejada sobre a cabeça do senador Demóstenes Torres. Primeiro, seus antecedentes na vida pública sempre o recomendaram como um homem de bem. Por onde passou, nunca se soube de qualquer deslize, falcatruas, mal feitos (que hoje, no governo petista, virou sinônimo para corrupção), ou qualquer negociata fora dos limites legais. No senado, Demóstenes sempre se comportou como um intransigente defensor da lei.
Isto o isenta de que, ao longo do tempo tenha cometido algum crime? Não, é claro, mesmo que nada se saiba ou se tenha descoberto.
Quando deflagrou-se esta operação sobre a atividade de Carlinhos Cachoeira, Monte Carlo, o que mais se noticiou – podem procurar na imprensa – foram suas ligações com um grande número de políticos. E parte desta imprensa, devidamente requintada pelo oficialismo petista, passou a cobrar dos demais órgãos que se mantiveram neutros em suas análises, textos de puro denuncismo, ou seja, que também nomeassem os políticos com quem Cachoeira se relacionava.
A prisão de Cachoeira resultou de um longo processo de investigação centrado a partir de escutas telefônicas, que se dizem todas devidamente autorizadas pela Justiça. Há um advogado famoso, militante petista de carteirinha, o Kakai , que afirma que as escutas referentes ao senador Demóstenes são ilegais, já que ele tem foro privilegiado, e as escutas deveriam, no caso, ter autorização do STF. Errado. Demóstenes não era alvo das investigações, seu nome aparece durante as investigações, portanto, tanto quanto se saiba, as escutas são legais.
Se restar comprovado que Demóstenes agiu de maneira criminosa, seu mandato deve ser cassado e ele deve responder na Justiça pelos crimes que tenha cometido e pagar por eles. Contudo, até lá, primeiro se deve investigar com cautela para não se cometer uma grave e irreparável injustiça contra um homem público com passado limpo e nobre.
Tudo que vai acima, portanto, é o lugar comum desta história, é o que manda o bom senso. Porém, há partes neste enredo que não se encaixam. Vamos ver? Se há dezenas de políticos envolvidos neste rolo, por que somente o nome do senador goiano é que vazou até agora? Se as escutas telefônicas, mesmo que autorizadas pela Justiça, são e devem permanecer sob sigilo, por que, dia após dia, semana após semana, desde o estouro da boiada, trechos das escutas, e somente as que dizem respeito ao senador Demóstenes Torres, é que têm sido vazadas para a imprensa? E com qual intenção tais vazamentos dizem respeito a um entre muitos?
Vejam o caso das licitações viciadas e compras corrompidas de hospitais públicos, como a que recentemente o Fantástico, da Globo, revelou. Vejam com que facilidade um repórter conseguiu detalhes e contato com empresas que “compram” o fornecimento de bens e serviços! Como que um caso destes não foi descoberto pela Polícia Federal, por exemplo?
E mais: as escutas que estão sendo reveladas agora, já se encontram em poder de Roberto Gurgel, Procurador da República, desde 2009. Pois bem: somente agora, às vésperas de uma eleição, é que alguém lembrou em divulgá-las e, mesmo assim, contrariando dispositivo legal quanto a sua confidencialidade?
O enredo lembra, em certos aspectos ao que aconteceu com o ex-governador Arruda do Distrito Federal, quando já se conhece que ali houve o jogo sujo de bastidores tramado e conduzido pelo PT. Arruda não é flor que se cheire, trata-se, como se viu, de um bandido com mandato público. Deve pagar, no rigor da lei, pelos crimes que cometeu, do mesmo modo como o senador Demóstenes estará sujeito ao mesmo rigor, se restar comprovado, ATENÇÃO, sua culpa.
O que me parece é que se está fritando de forma premeditada, um nome forte da oposição, alguém que incomodava por sua palavra e postura, os que se acham donos do poder. Das últimas revelações das escutas, a primeira impressão que tive é a de que Demóstenes teria descontados cheques com Cachoeira, mas há quem insista que se trata de “mesada” paga por pilantra à Demóstenes. Lendo trechos do que foi gravado, isto não está claro. Contudo, independente do que tenha havido, ficam claras duas coisas: o senador, por mais amigo que fosse de Cachoeira, não poderia aproximar-se tanto de um bandido quanto está se vendo. Deveria manter acautelada e prudente distância, para que a proximidade não o envolvesse. Segundo, estas revelações, estes vazamentos a conta gotas, narram falas apenas de um dos tantos políticos cujas conversas ou citações foram ouvidos e gravados, e assim mesmo alguém do partido oposicionista e que, por sua atuação no Senado, sempre incomodou o governo. Sinceramente, isto tudo cheira mal, muito mal.
Fez bem o advogado do senador goiano pedindo que lhe fosse concedido acesso ao material coletado pela Polícia Federal e entregue ao Ministério Público. Ninguém pode ser acusado de algo que desconhece. Há muito o que ser explicado, seja por parte do senador, cuja honra acaba de ser atingida de maneira fulminante (se justa ou injustamente é o que ainda vai se ver), quanto por parte tanto do Ministério Público e também pela Polícia Federal por vazamentos ilegais de trechos selecionados de escutas telefônicas cobertas por sigilo. Do contrário, se estará facilitando o caminho para a instalação de um Estado policialesco, o que depõe gravemente contra as instituições e valores democráticos do país.
Reafirmo o que disse lá no alto: se comprovada qualquer transgressão por parte do senador Demóstenes no exercício de seu mandato, ele deve responder na Justiça por seus atos. Contudo, e dentro da mesma lógica, devem responder na Justiça também os irresponsáveis que, de forma calculada e ilegal, tem vazado trechos de grampos telefônicos que deveriam manter-se sob sigilo até o final das investigações. O Brasil até pode parecer uma república de bananas, mas passa da hora de começar a se comportar como nação séria, onde direitos e garantias não sejam violados pelo Estado a todo instante e, principalmente, em anos eleitorais. .