sexta-feira, março 30, 2012

Copa: governo foge da dividida. E se arrisca ainda mais

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Estratégia da base aliada - jogar no colo dos estados a principal encrenca da Lei Geral da Copa - testa a boa vontade da Fifa duas semanas depois da trégua

 (Divulgação)
O paraguaio Nicolas Leoz, o brasileiro Marin e o suíço Blatter: 
no primeiro encontro do trio, nesta quarta, o presidente da Fifa 
elogiou o Brasil, mas os outros cartolas do Comitê Executivo da entidade cobraram o país

O timing da votação no Congresso foi terrível. Horas antes, na Fifa, Blatter elogiou o Brasil, mas outros dirigentes foram muito menos gentis, justamente pelo enrosco da Lei Geral da Copa no Congresso

Quem não conhece o funcionamento da política brasileira pode até achar que foi provocação. Não foi: na avaliação do comando governista no Congresso Nacional, a sessão que aprovou a Lei Geral da Copa na Câmara, na noite desta quarta-feira, foi, de fato, bem sucedida. Os parlamentares governistas votaram um texto que só adia (e complica ainda mais) a resolução da parte mais delicada do cabo-de-guerra entre o Brasil e a Fifa - a autorização à venda de bebidas alcoólicas nas partidas do Mundial de 2014, contrariando a lei em vigor atualmente, que veta o consumo de álcool nos estádios do país. Na manhã desta quarta, em reunião do Comitê Organizador da Copa, na sede da Fifa, em Zurique, o país tinha sido cobrado publicamente mais uma vez sobre a consolidação das normas que se referem à Copa (que, na avaliação da entidade, já está cinco anos atrasada). Deve provocar espanto nos 23 integrantes estrangeiros do Comitê Executivo da Fifa - o 24º é o brasileiro Marco Polo del Nero - que, horas depois, o Congresso brasileiro se reúna para empurrar o problema com a barriga mais uma vez - e, pior ainda, distribuindo o abacaxi a todos os estados que receberão partidas da Copa.

Pelo texto-base aprovado nesta quarta-feira, a decisão sobre a autorização temporária à venda de bebidas na Copa deve ser tomada na instância estadual. Abrir exceção à Fifa para que a cerveja de sua patrocinadora, a Budweiser, seja comercializada em 2014 era uma medida impopular, principalmente para os integrantes da bancada evangélica. Ao fugir da dividida e passar o problema aos estados, os governistas não só aumentam a complexidade do processo como também testam a boa vontade manifestada pela Fifa há pouco menos de duas semanas,quando o presidente da entidade, Joseph Blatter, visitou o Brasil para acertar os ponteiros com o governo e definir uma trégua que permitisse que os preparativos para a Copa enfim avançassem. Depois de um longo período de turbulência, com direito a alfinetadas frequentes nos brasileiros, Blatter tinha mudado de discurso e adotado um tom conciliador e diplomático. Nesta quarta, por exemplo, disse acreditar que o Brasil fará uma Copa "excepcional". Ainda assim, o timing da votação no Congresso foi terrível. Blatter tentou se mostrar confiante, mas outros dirigentes foram muito menos gentis, justamente pelo enrosco da Lei Geral da Copa. "A Copa do Mundo é da Fifa. Ela apenas ocorre no Brasil", afirmou o cartola argentino Julio Grondona em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. "O que a Fifa exige não é um capricho." Outro dirigente, o marroquino Mohamed Raouraoua, disse que a entidade estava "muito preocupada" com a demora na tramitação da Lei Geral: "Não parece que o governo está colocando todo seu peso no evento".

Ao jogar no colo dos estados a decisão sobre o consumo de bebidas nos estádios, o Congresso acaba colocando as assembleias legislativas contra a parede. É muito difícil acreditar que um estado que insista em proibir as bebidas alcoólicas nos jogos não sofrerá pressões fortíssimas - e que não correrá o risco de ser punido por sua posição, talvez até com sua substituição entre as sedes do Mundial. Em casos como o de São Paulo e do Rio de Janeiro, é uma hipótese longínqua, mas quando se trata de sedes que já enfrentam algum questionamento - como Natal e Curitiba -, fica muito claro que contrariar a Fifa pode custar bastante caro. Para o relator do texto, Vicente Cândido (PT-SP), nada que cause grande constrangimento. O petista discursou na sessão desta quarta e disse que a versão do texto-base aprovada pela Câmara atende à maioria das reivindicações, tanto entre os organizadores como entre os parlamentares. "É a lei possível", resumiu, admitindo que nenhum lado foi plenamente atendido. O texto aprovado nesta quarta na Câmara agora segue para votação no Senado.