quarta-feira, novembro 24, 2010

À margem do rio que não volta

Wilson Figueiredo, JB Digital

Sem armar uma equação digna das observações implícitas no momento ainda de vibrações eleitorais, o sociólogo francês Alain Touraine, ao chegar ao Brasil (veio participar de um seminário de política internacional), fez referência ao “perigo de retrocesso” político. O eleitor estava ainda sob os efeitos de uma campanha presidencial estimulada pelo passado insepulto e por equívocos não dissipados.

Os aspectos favoráveis apontados por Touraine relacionam os mandatos de Fernando Henrique, que “construiu as instituições” e “fez uma transição perfeita da Presidência ao sucessor”, e os dois de Lula, que “realizou transformações sociais” e deslocou “dezenas de milhões de brasileiros da miséria e da exclusão”. Mesmo assim, tudo os separa e nada une o PSDB e o PT. Encalharam à margem do rio que não passa duas vezes pelo mesmo lugar.

Razões ocultas ainda perturbam, por falta de suficiente clareza política, boa parte dos cidadãos. Trocou-se a discussão política pelos aspectos negativos nos quais não se reconheciam os candidatos. O passado de cada um ficou deformado no espelho do competidor. Touraine concluiu que a verdade é que “não sabemos o que acontecerá daqui para a frente”.

Vejamos. Sob a Constituição de 1946 foram 18 os anos assim distribuídos: o presidente Dutra, isento de tentações, teve cinco. Getulio Vargas voltou pelo voto, não conseguiu governar e se matou. Veio JK, e o Brasil se reencontrou no espírito do legalismo, no otimismo, na inauguração da era do consumo e no advento da classe média e da indústria automobilística. Mas veio também a eleição de Jânio Quadros e o que se seguiu, da renúncia ao veto militar à posse do vice Goulart, ao parlamentarismo desconjuntado e, finalmente, à desatinada classe média nas ruas. E o golpe de Estado em 1964.

É possível que a falta de repercussão das ressalvas de Alain Touraine se deva à circunstância de que o brasileiro subiu alguns degraus no desempenho político no espaço de uma geração e não se reconhece no que parece. A classe média se tornou protagonista da própria democracia, que lhe reservava papel secundário. Já ocupa espaço social com sentido político consciente, mas os partidos fracionados não se deram conta de que o eleitor espera mais consideração do que o ato de depositar voto na urna. A candidatura de Dilma Rousseff não dividiu socialmente os brasileiros, nem mobilizou a parcela social que passou a fazer mais de uma refeição por dia, como o presidente Lula faz questão de lembrar. Não é por aí que se reconhece o perfil da classe média que, se ainda não é percebida no papel principal, já está mais consciente das prioridades de natureza social, e adquiriu peso decisivo na atualização da opinião pública.

O temor de retrocesso político não teve presença na campanha eleitoral. Já se passaram 25 anos de eleições sem o registro de qualquer dúvida sobre a legitimidade dos resultados. O princípio da maioria absoluta, com o recurso ao segundo turno para garantir a vitória a quem obtiver a metade dos votos (mais um) reforçou a legitimidade das seis eleições presidenciais diretas. Já vivemos o mais longo período de normalidade política e conteúdo democrático desde 1930.

Com características universais fáceis de identificar, a classe média se tornou, desde a volta à eleição direta, o fator de estabilidade que faltava antes da industrialização nacional e responde pela normalidade social. Em 1964 foi a classe média que, depois de eleger Jânio Quadros, se desequilibrou politicamente diante da renúncia sem explicação. E, na ansiedade que a surpreendeu, veio a ser a base social de uma solução política que não se sustentaria com o mínimo de democracia. Precisava de mais democracia e teve de se contentar com nenhuma.