Adelson Elias Vasconcellos
Só mesmo alguém muito desinformado, alienado total da realidade econômica brasileira, ou imbuído de tremenda má intenção, poderá negar que a agropecuária nacional é o esteio do nosso desenvolvimento.
Esqueçam programas sociais, esqueçam geração de empregos de terceira categoria, esqueçam os pacotinhos federais de pouca expressão. O única setor da nossa economia que consegue enfrentar o mal trato que recebe do governo, da imprensa podre, e da opinião pública manipulada, é a agropecuária.
Sai do campo a estabilidade econômica, as reservas internacionais que pagam os desperdícios dos governantes, o aparelhamento do estado e os recursos desviados para paraísos fiscais. Sai do campo o controle da inflação, com a comida abundante, com qualidade e preço baixo, que enriquece a mesa dos brasileiros, melhoram a qualidade de vida de todos nós, e paga esta corte faraônica de estúpidos que além de desgovernarem o país implantaram sofisticado esquema criminoso no Estado.
E, apesar de todas estas riquezas e benefícios, tem sido o agricultor de qualquer porte o mais destratado e difamado no país. Enquanto eles trabalham de sol a sol para trazerem e gerarem riquezas para esta população de quase 194 milhões de pessoas, aqueles de quem deveriam esperar e receber respeito e consideração, são apunhalados miseravelmente e tratados como se fossem lixo, escória, bando de vagabundos. No entanto, há quase duas décadas, são estes trabalhadores, mais do que qualquer outra categoria, cujo trabalho incansável, moderno, avançado, dedicado, paga o sustento dos vagabundos assentados no poder, entre benefícios indecentes e palácios refrigerados blindados com vidros refulgentes.
Cada vez que leio o imbróglio que vem sendo criado pelo governo Dilma em relação ao Código Florestal, fico imaginando o que esta senhora pensa sobre a atividade laboral dos agropecuaristas brasileiros ao deliciar-se e banquetear-se com as alfaces, couves, rabanetes, tomates, cenouras, repolhos, batatas, ou naqueles assados muito bem regados com molhos temperados ao ponto com cebolas, alhos, manjeronas e manjericões, folhas de louro e cominhos, ou mesmo apreciar uma boa pizza bem regada a orégano, com esvoaçantes mussarelas ...
É bem provável que passada a campanha e vencida a eleição, ela deve supor que tudo isto e muito mais sejam produzidos nas gôndolas dos mercados e mercadinhos. Não imagina o trabalho que dá arar e revirar a terra, lançar as sementes ao solo, rezar para que faça chuva e sol na medida e tempo certos para que as colheitas sejam generosas e os preços finais reponham o custo e remunerem o trabalho exausto e áspero.
Tem sido tamanha sua imperial intransigência que somos levados a imaginar que esta senhora presidente não tem mesmo a menor noção da atividade agropastoril brasileira. Como também, não tem o menor conhecimento do trabalho que há não apenas para, depois da colheita, armazenar e depois transportar pelas estradas do inferno, toda a produção. Deve imaginar, quem sabe, que junto aos pés de alface brotem notinhas de cem reais para o deleite dos produtores e que, num passe de mágica, dali saem voando sorridentes rumo aos mercados e mercadinhos..
É impressionante como o Brasil, atrasado em conhecimentos e desinformado sobre os meios de produção, consegue ser tão ingrato com aqueles que o mantém minimamente organizado e produtivo. E não é uma produção qualquer. Trata-se de uma produção em tão excelente escala e tecnologicamente tão avançada, que o mundo inteiro compra do Brasil o alimento farto e barato que enfeitam as mesas pelo planeta.
E, contudo, apesar de nestas quase duas décadas, haver triplicado sua produção, sem avançar um metro quadrado que fosse de novas áreas cultivadas, agora se quer reduzir ainda mais o pouco espaço que lhe é concedido para realizar seu trabalho de primeiro mundo. E, contudo, também e ainda, coloca para negociar o novo código uma destrambelhada a sentenciar de forma arrogante e grosseira : ou é do jeito que quer, ou nada feito, e nós vamos acabar com vocês. Traduzindo a linguagem em português bem claro a maneira estúpida e buliçosa com que a negociadora do Planalto, que nunca fez nada na vida de útil e produtivo, se pôs no caminho dos verdadeiros trabalhadores, brasileiros úteis à sociedade, portanto, para chantageá-los, constrangê-los e, em última análise, traí-los.
Se o Brasil pode ostentar e dar-se ao luxo de exibir tão generosa balança de exportações, da qual resultam reservas internacionais em quantidade suficiente que nos permite atravessar as atuais marés de crises internacionais sem solavancos, isto se deve, UNICAMENTE, aos trabalhadores e produtores do campo. Se o PT pode se assanhar em aparelhar o Estado, torrar dinheiro público a mãos cheias sem se preocupar com o nenhum resultado que a gastança provoca e, mesmo assim, não quebra a banca, isto se deve à riqueza saída do campo. Se pode encher os bolsos, com bolsa-familia, da gente pobre e abandonada pelo próprio Estado, mercê serviços públicos degradantes, com doações generosas para as quais se cobra apenas a fidelidade do voto na urna mais próxima, isto é fruto do trabalho protagonizado pelo meio rural.
Se este governo pode ostentar a construção de palacetes de luxo, nos quais se instalam o fausto inútil da luxúria, do atraso e da demência e cujas vozes proferem discursos ardilosos, falsos como notas de R$ 3,00, cheios de demagogias, entupidos de mentiras, tentando reescrever suas biografias mistificadas, gente que sempre deu as costas ao país nos momentos mais duros da nossa história recente e que vem agora posar de salvadores da pátria, isto tudo somente lhes é permitido porque os trabalhadores do campo são capazes de, mesmo traídos e ignorados, explorados e espezinhados, sustentar esta fauna e flora estatal de macambúzios trastes inúteis. Gentinha ordinária, verdadeiros párias e gigolôs que rebarbam em banquetes e solenidades de puro tédio, onde a mentira é o idioma padrão, onde a falácia e os factoides são construídos e arquitetados numa imensa linha de produção de pura ficção e demência delirante.
Portanto, amigos leitores, quando vocês entrarem num mercado e se detiverem em frente aos balcões de frutas, legumes e verduras, ou dos balcões frigorificados de carnes, fiambres e queijos, procurem lembrar de quem é capaz de produzir tudo aquilo que ali está, recebendo muitas vezes preços aviltantes, e o desprezo patético dos governantes.
Ao levar à boca uma simples folinha de alface, procurem imaginar a corrente de trabalhadores que se perfilaram para fazer chegar à sua mesa aquela folinha tenra e saborosa que lhe saciará e lhe fornecerá as energias necessárias para a manutenção do corpo sadio e forte. E, antes que um desses profetas da floresta virgem desembarque sua estupidez latente, preguiçosa e imbecil sobre os “ruralistas endemoniados”, lembrem-se disto: quantos desses profetas seriam capazes de acordarem antes do sol nascer, trabalharem no cabo da enxada de um sol a pino durante 12 horas, e ao deitarem, pedirem aos céus por chuva e calor no tempo certo para a colheita não acabar com sua vida de trabalhador.
Assim, que Dilma Rousseff deixe de lado sua intransigência ignorante e autoritária, e dialogue de forma civilizada com os produtores rurais sem lhes colocar a corda no pescoço, dando-lhe ao menos a chance de continuarem sua lida diária. Esta gente merece nosso carinho, respeito e, se mais não lhes pudermos alcançar, que ao menos não lhes neguemos a oportunidade de continuarem sendo útil a si mesmos e a todos nós. Pelo menos esta gente tão “chata”, que apenas pede a chance de poder trabalhar, não faz greve e não invade prédios públicos. Não cobra hora extra nem aposentadoria integral. Não cobra vantagens adicionais de tempo de serviço muito menos FGTS. Não recebem 13º salário, nem férias remuneradas. Seu ambiente de trabalho não dispõe de ar refrigerado, tampouco de poltronas com rodinhas e forradas com couro de finíssimo acabamento, deslizando às vezes patéticas por sobre assoalho acarpetado e macio.
Seu suor tem o cheiro da terra, do pasto, do leite, e seus trajes são simples e sem adornos, sem etiquetas de fino trato, em mãos grossas, calejadas pelo duro trabalho no campo. Portanto, presidente, em seu gabinete palaciano, ao tratar do Código Florestal, lembre-se: nas páginas cheias de artigos e parágrafos, normas e regulamentos, desfilam naquelas linhas perfiladas milhões de trabalhadores honestos que esperam não serem traídos por seu trabalho cotidiano e incansável. Não os traia, presidente, não os traia. O Brasil é o único país do mundo que pode, ao mesmo tempo, autoproteger suas matas e florestas em praticamente 60% de sua cobertura original, sem deixar de ser celeiro do mundo. Não traia esta gente boa, presidente, porque ela não merece. O Brasil deve muito, mas muito mesmo de seu progresso e desenvolvimento ao trabalho deles, PRODUTORES RURAIS, com muita honra e pouco brilho. Saiba reconhecer isto na hora de exigir regras e vetar espaços para eles seguirem trabalhando, sob chuva ou sol, sob frio ou calor, mas sempre trabalhando.