sexta-feira, novembro 26, 2021

O legado tóxico do capitão

 COMENTANDO A NOTÍCIA


No jornal O Estado de São Paulo, o jornalista Willian Waak fez publicar um excelente texto onde afirma que “... 'Qualquer um que vencer em 2022 terá enormes dificuldades de governar” e conclui que “...Nenhum terá sucesso nas condições atuais.”.  Leia a coluna na íntegra aqui

Já faz algum tempo que comentamos neste espaço que, ou Bolsonaro mudava drasticamente os rumos de seu governo e suas atitudes, ou ele deixaria uma herança maldita para quem o sucedesse, obrigando o Brasil a enfrentar enormes dificuldades para encontrar o rumo certo de crescimento e desenvolvimento. E que algumas destas dificuldades perdurariam por alguns anos. 

Agora, encaminhando-se para seu último ano, o que vemos é muito triste. Em busca obsessiva e desesperada para se reeleger, o que temos é uma economia cambaleante, jogando no lixo todo o arcabouço de regras que lhe garantiram  estabilidade e um certo crescimento – bastante alavancado pela economia mundial – desprezando as âncoras que lhe deram sustentação. 

Nossa inflação até acompanha o restante do mundo, mas torna-se mais perniciosa em vista de crises políticas, descrédito quanto a capacidade de aprovar reformas indispensáveis de rumo e de projetos, desmonte dos principais órgãos de controle, dificuldade para manter um relacionamento saudável com a comunidade internacional sem falar, é claro, um diálogo republicano com as nossas próprias instituições. Todos estes aspectos, dentre outros, geram tremenda insegurança perante os agentes econômicos o que provoca excessiva desvalorização da nossa moeda, cuja principal consequência é pesar mais ainda sobre os preços. E, para corrigir esta alta excedente o Banco Central não tem outro instrumento senão elevar, mais e mais, os juros básicos. Inflação e juros altos são inimigos cruéis para a retomada sustentável da economia. Aqui e ali, afora o agronegócio que se beneficia diretamente da desvalorização cambial, e que ainda consegue manter bom ritmo de crescimento, estes ruídos todos. Agravados pela política ambiental ruim e danosa,  podem nos fazer pagar alto preço com adoção de medidas restritivas à nossas exportações, boicote que vem sendo ensaiado tanto pela União Europeia como pelos Estados Unidos e Canadá já há algum tempo.. 

Assim, as colocações que faz Willian Wack em seu excelente texto são oportunas e servem de alerta para que o eleitor  brasileiro não cometa o mesmo erro de eleições passadas, reelegendo governos medíocres. 

Mas o legado ruim de Bolsonaro não se circunscreve apenas na economia. Vai muito mais além. Inicia-se na educação, passando pela cultura, meio ambiente, pelas relações exteriores – hoje somos párias perante o mundo civilizado -,  depois desfila pelos costumes, pelos atritos constantes com os demais poderes, pelos sucessivos confrontos com os textos e regras legais,  pela linguagem tóxica e até pela própria autoridade da função de governar  sendo repassada para o presidente da Câmara de quem se tornou subalterno.  

É claro que o Brasil é muito maior do que seus governantes e políticos em geral. Já passamos por momentos muito ruins, já sofremos o diabo nas mãos de presidentes medíocres e incompetentes, amargando dias nervosos fruto de péssimas escolhas.  Mas já devíamos, pela experiência,  ter aprendido algumas lições.

Recentemente, a ex-presidente Dilma Rousseff, a Medíocre, colocou-nos no centro da pior recessão de nossa história, cuja maior tragédia foi ter provocado 14 milhões de desempregados. Bolsonaro, ao assumir, encontrou instrumentos que lhe permitiriam dar um rumo virtuoso ao país, fruto do governo correto de Michel Temer na área econômica,e  que teve a virtude de colocar juízo nas contas públicas, e deixar pronta para ser votada e aprovada uma reforma da previdência tão necessária quanto urgente. Bolsonaro acabou por desidratá-la, o que nos obrigará em futuro próximo a uma nova reforma. E o fez para beneficiar sua ala de queridinhos, policiais e forças armadas, esquecendo-se   de que foi eleito presidente de TODOS e não apenas de ALGUNS brasileiros.  

Cabia a Bolsonaro tão somente aprovar outras duas reformas também indispensáveis ao país: administrativa e tributária. E foi o próprio quem sabotou a intenção de Paulo Guedes neste sentido. 

Em seu recente turismo pelo mundo árabe, Bolsonaro tentou vender um Brasil que não existe.O objetivo era atrair investimentos para o país. Quem será maluco de investir dinheiro num país que proporciona bilionário calote em decisões judiciais? A insegurança jurídica proporcionada pelo governo afasta qualquer interessado. 

Para corrigir esta rota torta, vai nos custar alguns sacrifícios, alguns até de longo prazo. E, a exemplo do que fora Lula e Dilma, seu pecado maior é achar  que antes dele não havia Brasil, ou que o país estivesse mergulhado nas trevas. Ledo engano. Havia antes, e haverá depois, vida inteligente nesta terra de meu Deus, que saberá nos guiar para fora da escuridão que Bolsonaro tenta nos mergulhar. E, mesmo que ainda reste pouco mais de um ano de mandato, não há a menor perspectiva de que teremos uma mudança brusca de rumo. 

Até porque o desequilíbrio emocional que caracteriza a ação de governar do capitão, está de tal forma entranhado em sua personalidade que não lhe permite tomar consciência de seus erros. Os culpados são sempre os outros. No fundo, ele se considera o suprassumo da genialidade política e de gestão. Não percebeu, ainda,  quais foram as razões que o colocaram na presidência. A facada do Adélio Bispo até pode ter ajudado, mas o sentimento antipetista  que reinava no país era de tal monta que fosse João, José ou Francisco venceria Haddad do mesmo jeito. 

Nesta semana, o capitão produziu uma pérola de cinismo explícito; Afirmou que está “louco para deixar isto aqui”. Uma ova que está. No fundo, ele não quer largar o osso e toda a ostentação que o cargo proporciona a ele e família.  E isto fica ainda mais evidente quando vemos que, desde sua posse, outra coisa não pensa senão reeleger-se,  razão pela qual está em permanente campanha. Diante da crescente rejeição ao seu nome que as pesquisas vem demonstrando, Bolsonaro já está dando um jeito para desculpar-se pelo próprio fracasso. Se está tão de saco cheio da presidência, o melhor que faria seria sequer candidatar-se. Pelo menos o cenário eleitoral assumiria um novo desenho,  colocando na corrida um candidato capaz de eliminar o favoritismo de Lula e que no fundo é o que deseja grande parte dos eleitores. Talvez se assim procedesse, Bolsonaro atenuaria,  um pouco ao menos, o tremendo prejuízo que seu governo deixará ao país. Infelizmente, sua enorme vaidade não permitirá que o capitão tenha este gesto digno.