Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, Blog do Noblat
Conversa vai, conversa vem... e resolvi que ia me oferecer um bom presente. Ou melhor, que ia me presentear dando um presente aos leitores.
A idéia surgiu ao ouvir nos jornais da TV de ontem à noite notícias sobre a apreciação, pelo Tribunal de Contas da União, de um relatório de obras públicas com indícios de irregularidades graves, que poderão ter as verbas bloqueadas no Orçamento da União de 2008.
De um total de 231 obras apreciadas, 77 têm indícios sólidos de irregularidades graves. O TCU recomenda a paralisação dessas obras. Sem ressalvas, apenas 52. Com irregularidades não paralisadoras, 101. Com irregularidades saneadas, 1.
Evidentemente, deve haver algum engano. Muito em breve ouviremos as explicações que tudo elucidará. Não pensem que escolhi o texto a seguir com alguma segunda intenção. Longe disso. Apenas me ocorreu que continuamos às voltas com problemas administrativos...
Sou do tempo em que estudávamos análise léxica e sintática em textos clássicos. Por pouco não tomávamos raiva dos textos, pois nada é mais chato que esse exercício. Mas o que vos ofereço hoje é de tal modo inteligente, que posso afirmar que sempre foi um dos favoritos da classe. Tem o mesmo vigor e atualidade do ano em que foi escrito, 1655. Isso mesmo, tem 352 anos. Gostei da idéia de colocar no blog esta jóia que merece ser lida e relida. Com vocês, o ‘Sermão do Bom Ladrão’, do Padre Antonio Vieira:
“Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à majestade daquele lugar, e nada à piedade deste. Uma das coisas que diz o texto é que foram sentenciados em Jerusalém dois ladrões, e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e mortos, sem lhes valer procurador nem embargos (...). Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: Hodie mecum eris in Paradiso. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: Mecum. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. Ave Maria”.
E por aí segue o extraordinário pregador, até o trecho que mais me encanta, que é onde ele comenta notícia enviada da Índia por São Francisco Xavier para El Rei D. João III, mais de cem anos antes deste sermão. O missionário dá contas dos desmandos praticados pelos governadores e administradores que representavam o rei naquela riquíssima colônia. Vieira comenta assim as notícias enviadas por São Francisco Xavier:
“Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas”.
Creio na vida eterna e fico a imaginar o Padre Antonio Vieira sentado numa nuvem, rindo á bandeiras despregadas ao ver que, se lhe fosse dado descer, não ficaria deslocado. E que poderia continuar com sua carreira de pregador emérito.
Espero que tenham gostado do presente.
Conversa vai, conversa vem... e resolvi que ia me oferecer um bom presente. Ou melhor, que ia me presentear dando um presente aos leitores.
A idéia surgiu ao ouvir nos jornais da TV de ontem à noite notícias sobre a apreciação, pelo Tribunal de Contas da União, de um relatório de obras públicas com indícios de irregularidades graves, que poderão ter as verbas bloqueadas no Orçamento da União de 2008.
De um total de 231 obras apreciadas, 77 têm indícios sólidos de irregularidades graves. O TCU recomenda a paralisação dessas obras. Sem ressalvas, apenas 52. Com irregularidades não paralisadoras, 101. Com irregularidades saneadas, 1.
Evidentemente, deve haver algum engano. Muito em breve ouviremos as explicações que tudo elucidará. Não pensem que escolhi o texto a seguir com alguma segunda intenção. Longe disso. Apenas me ocorreu que continuamos às voltas com problemas administrativos...
Sou do tempo em que estudávamos análise léxica e sintática em textos clássicos. Por pouco não tomávamos raiva dos textos, pois nada é mais chato que esse exercício. Mas o que vos ofereço hoje é de tal modo inteligente, que posso afirmar que sempre foi um dos favoritos da classe. Tem o mesmo vigor e atualidade do ano em que foi escrito, 1655. Isso mesmo, tem 352 anos. Gostei da idéia de colocar no blog esta jóia que merece ser lida e relida. Com vocês, o ‘Sermão do Bom Ladrão’, do Padre Antonio Vieira:
“Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à majestade daquele lugar, e nada à piedade deste. Uma das coisas que diz o texto é que foram sentenciados em Jerusalém dois ladrões, e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e mortos, sem lhes valer procurador nem embargos (...). Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: Hodie mecum eris in Paradiso. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: Mecum. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. Ave Maria”.
E por aí segue o extraordinário pregador, até o trecho que mais me encanta, que é onde ele comenta notícia enviada da Índia por São Francisco Xavier para El Rei D. João III, mais de cem anos antes deste sermão. O missionário dá contas dos desmandos praticados pelos governadores e administradores que representavam o rei naquela riquíssima colônia. Vieira comenta assim as notícias enviadas por São Francisco Xavier:
“Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas”.
Creio na vida eterna e fico a imaginar o Padre Antonio Vieira sentado numa nuvem, rindo á bandeiras despregadas ao ver que, se lhe fosse dado descer, não ficaria deslocado. E que poderia continuar com sua carreira de pregador emérito.
Espero que tenham gostado do presente.