domingo, setembro 23, 2007

Festival de incoerência

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil
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No transe de impopularidade que ataca o Congresso, numa das mais graves crises éticas dos últimos tempos, é de uma inconveniência suicida o festival de incoerência em que se engalfinham o presidente Lula, o PT e a equipe oficial de um lado, e a oposição, na crescente agressividade a misturar desespero e a frustração de sucessivas derrotas.

Uma dose de tolerância não justifica, mas ameniza a cobrança à desarmonia entre os improvisos presidenciais e as arengas dos distantes anos de liderança sindical e de militância no Partido dos Trabalhadores, sua cria de estimação.

Um pouco de moderação não faz mal a ninguém. Na afobação de engatilhar a desculpa antes de mergulhar na exaltada urgência para arrancar do Congresso a aprovação da CPMF até 2011, quando se despedirá do segundo mandato no primeiro dia de janeiro, não lhe ocorreu nada mais consistente do que bater no peito as pancadas do arrependimento oportunista com o auto-elogio ao seu temperamento, sempre pronto a reconhecer erros e mudar de rumo.

Francamente, no caso não apenas é muito pouco e soa como o falsete da insinceridade. Lula e o PT não se limitaram a discordar do tributo sobre o cheque que desviou bilhões para a gastança oficial nos dois mandatos do seu odiado antecessor. Mas sustentaram uma áspera ofensiva, brandindo os argumentos que considerava definitivo e irrefutáveis. Na hora de virar a casaca passa como bichano sobre a fogueira como uma louvação à flexibilidade de suas convicções.

Não é mais defensável a fúria oposicionista, de costas para as suas convicções nos saudosos tempos de décadas nas fofas comodidades do lado de lá. Para os eloqüentes líderes do DEM, do PSDB e de aliados, bastaria, com sobras, explorar a desconfortável posição do adversário. E bater de rijo nos pontos fracos da pouca confiabilidade para gastar R$ 35 bilhões este ano e R$ 40 bilhões no próximo ano eleitoral, de uma máquina administrativa com tantos pontos vulneráveis no balaio de êxitos comprovados pelos resultados estatísticos.

Na crônica de todos os dias, as denúncias dos desacertos rebatem nos sucessos. Na mobilização do esquema em tempo integral, para garantir a aprovação nas duas Casas do Congresso, sem medir despesas nem regatear favores na distribuição de fatias do bolo oficial, de diretoria da Petrobras a autarquias e cargos em penca, o presidente abriu a guarda no desmentido à austeridade na aplicação do dinheiro público.

No mesmo dia, os naipes desafinados cruzam as notas de redução da pobreza em 27,7% nos cinco anos dos dois mandatos de Lula contra 24,3% nos oito anos de Fernando Henrique.

E, na malha rodoviária com largos trechos intransitáveis, os índices de acidentes com vítimas disparam para as alturas de uma tragédia a cada dia. A operação tapa-buraco foi um fracasso e um desperdício de milhões.

Nas duas últimas legislaturas recordistas em escândalos, o Congresso não emite sinais alentadores de que se tenha dado conta do descalabro que ameaça a estabilidade do regime democrático e afunda mais e mais no pântano do desapreço popular. Os estudantes, com sintomático atraso, começam a sair à rua nos ensaios das manifestações de protesto dos caras-pintadas. Um bom sinal.

E o Senado provoca a indignação popular, entalado com a batata quente da insensibilidade do galante presidente, senador Renan Calheiros, para o constrangimento que a sua teimosia cria para o plenário.

Recomenda-se uma dose dupla de otimismo para enfrentar as tormentas da intranqüilidade.

Mas como engolir esta garapa que não passa na garganta e ameaça o estômago com a úlcera de mau agouro?