quarta-feira, julho 17, 2013

A INCOMPETÊNCIA DO PADILHA: troca de equipamento atrasa exame de HIV

Lígia Formenti
O Estado de S.Paulo

Coordenações de Aids de Estados e municípios reclamam que aparelhos automáticos foram substituídos por manuais, causando demora nos testes

A espera pelo resultado de um exame de carga viral, essencial para o acompanhamento de portadores de HIV, está aumentando em Estados do País. As dificuldades, relatadas por Coordenações de Aids de Estados e municípios, são reflexo de uma troca de equipamentos organizada pelo Ministério da Saúde. Aparelhos automáticos, com maior capacidade para realização de testes, foram substituídos por manuais.

JF Diório/AE
Demora. Além da redução da capacidade, 
foram registrados também problemas técnicos

No Rio Grande do Sul, Estado com a maior taxa de incidência de aids do País, as queixas de pacientes se multiplicam. "Já enviamos uma carta ao departamento nacional, pedindo a troca dos aparelhos", afirmou o coordenador do programa de aids do Estado, Ricardo Charão. "É algo preocupante, que exige providências rápidas. A demora pode colocar em risco o tratamento de um número significativo de pacientes."

Oito laboratórios no território gaúcho fazem testes de carga viral - um exame indicado para avaliar o estágio da infecção e a eficácia do tratamento. Dois deles receberam máquinas automáticas, capazes de fazer até 1.500 exames mensais. Outros seis receberam aparelhos manuais, com capacidade de fazer 400 análises por mês. O número de casos de aids no Estado é de 39,1 por 100 mil, o dobro da taxa brasileira, que é de 19,6. "Precisamos de pelo menos, outras duas máquinas automáticas", constatou.

Os aparelhos teriam endereço certo: Hospital de Clínicas de Porto Alegre e laboratório da Universidade Federal de Santa Maria. O primeiro, com equipamento antigo, tinha capacidade para fazer 1.500 análises mensais. Depois da troca, faz 400. O laboratório da universidade antes fazia 950 exames e, agora, faz 400.
"Não fomos consultados pelo ministério sobre a troca, feita diretamente com laboratórios. Somente demos conta do problema quando as reclamações para entrega dos exames aumentaram", conta Charão. O Ministério da Saúde, por meio da assessoria de imprensa, reconheceu que coordenações de vários Estados e municípios se queixaram da mudança.

Uma licitação foi feita no fim do ano passado para a troca dos aparelhos. O contrato com a empresa vencedora, a Abbott, previa a instalação de 23 máquinas automatizadas e outras 60, manuais. De acordo com o ministério, a configuração atual permite essa mudança.

Laboratórios com menor demanda ficariam com máquinas manuais e os mais movimentados, com as automatizadas.

"Os equipamentos estavam obsoletos, era necessário alterar. Mas como substituir máquinas automatizadas por manuais? Não precisa ser especialista para ver que isso não daria certo", afirmou Carlos Duarte, representante do movimento de Aids no Conselho Nacional de Saúde. Ele observa que, para máquinas manuais atingirem maior produtividade é necessário aumentar o número de equipes que fazem a leitura dos equipamentos. "Isso envolve custos para as coordenações, o que não é fácil", diz Duarte. Charão afirma também que a contratação de pessoal não é algo que se faz rapidamente.

Charão solicitou informações para coordenações dos demais Estados do País sobre eventuais problemas com a troca de equipamentos. Até agora, três Estados responderam. Paraná e Santa Catarina, informou, relataram também redução da capacidade para fazer exames de carga viral. Em Mato Grosso do Sul, que tem menor demanda, o problema não foi constatado.

O Centro de Referência de DST-Aids de São Paulo informou ao Estado que um remanejamento foi feito e, por enquanto, não foram identificados problemas nos testes.

Assistência. 
Além da redução da capacidade dos exames, Charão afirma que problemas de assistência técnica foram encontrados. "São problemas que surgem num momento ruim, pois a demanda do sistema está aumentando", disse. Ele informou que o Estado está no auge de uma campanha para identificação de soropositivos. "Logo depois do diagnóstico, o teste de carga viral é muito importante, para saber qual o estágio da doença", completou.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Reparem bem: este é o ministério que acha que apenas importar médicos é suficiente para resolver o caos da saúde pública no Brasil, quando o problema maior é a falta de estrutura das unidades existentes que, aliás, precisariam ser ampliadas. 

É o mesmo ministério que, numa declaração infeliz do senhor Padilha, com a obrigatoriedade de dois anos de serviço social, para TODOS OS ESTUDANTES DE MEDICINA, pretende “humanizar” os profissionais de saúdem, como se as faculdades de Medicina, ao invés de médicos, estivessem formando veterinários!!!

Pois bem, eis que, o “competente” Padilha teve uma ideia genial: resolveu  “trocar” equipamentos automáticos com maior capacidade de realização de testes por manuais, que, evidente são mais lentos e acabam provocando demora nos testes..

Qual a consequência da medida genial? 

“...A espera pelo resultado de um exame de carga viral, essencial para o acompanhamento de portadores de HIV, está aumentando em Estados do País. As dificuldades, relatadas por Coordenações de Aids de Estados e municípios, são reflexo de uma troca de equipamentos organizada pelo Ministério da Saúde”.

O texto é um atestado da incompetência com que é conduzida a saúde pública no país (não apenas a saúde pública, mas todos os demais serviços públicos). Demonstra o descaso para com a população que, insatisfeita, reclama nas ruas. 

O tal programa lançado, de forma autoritária pelo governo Dilma,  foge das questões mais urgentes que aflige a rede pública, para se converter em mais um lançamento marqueteiro, cujos resultados serão pífios, por  atender a tudo menos o essencial. 

Ninguém seria contra a ideia de importação de médicos, desde que se comprovasse ser esta a necessidade mais urgente. Mas não é: quem atua na área sabe e conhece bem os problemas mais emergenciais (e simplesmente sequer foram convidados para debater tais problemas em busca de soluções), reclama é da falta de estrutura, condições mínimas para que o atendimento fosse mais digno.

No post seguinte, A verdade nua e crua, é um depoimento  do médico Carlos França que, de forma eloquente e corajosa, a exemplo do depoimento que publicamos aqui da doutora Juliana, exibe o quanto  o país segue desgovernado por pessoas desqualificadas.

O retrocesso protagonizado pelo Ministério da Saúde no tratamento dos pacientes com AIDS, conforme se vê acima,  comprova bem que o senhor Alexandre Padilha  está longe de ser uma solução para se converter num entrave à melhoria da qualidade da saúde pública brasileira.