Bruno Rosa
O Globo
Falta de infraestrutura no interior do país e cronograma apertado para a instalação da rede 4G nas cidades que vão sediar a Copa do Mundo travam o avanço da tecnologia 3G
Ritmo de expansão da rede que permite acessar à internet pelo celular tem perdido fôlego
RIO - Mais da metade (59%) dos municípios brasileiros que contam com cobertura 3G não têm concorrência. Em junho deste ano, de acordo com a consultoria Teleco, em 2.031 cidades, das 3.436 atendidas com a tecnologia, há apenas uma operadora. E o ritmo de expansão da rede que permite acessar à internet pelo celular tem perdido fôlego. No primeiro semestre deste ano, 138 novas localidades receberam a infraestrutura, contra 309 no mesmo período do ano passado, uma queda de 55%.
Segundo operadoras e especialistas, a falta de infraestrutura de telecom no interior do país e o cronograma apertado para a instalação da rede 4G nas cidades que vão sediar a Copa do Mundo travam o avanço da tecnologia 3G. Hoje, o brasileiro só conhece competição na terceira geração em 467 localidades, número que corresponde a 13,6% dos municípios com a cobertura.
— A questão é que antes de instalar as antenas nas cidades é preciso escoar os dados através de uma rede. E isso demanda planejamento e dinheiro. O desafio hoje é aumentar a capacidade de 3G nos grandes centros — afirma Eduardo Tude, presidente da Teleco.
Em junho, só 61,7% dos 5.565 municípios contam com 3G, diz a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). No caso do 4G, são 23 cidades. Para João Moura, presidente da Associação das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp), há uma dificuldade em investir no interior ao mesmo tempo em que há a necessidade de melhorar a rede nos grandes centros:
— A expansão no interior está ligada aos compromissos de cobertura com a Anatel. É preciso mais competição, com regras para o aluguel de redes.
Anatel quer mais cobertura
Preocupado com esse cenário, o governo quer apertar as regras de cobertura do 3G no próximo leilão de 4G, que deve ocorrer no início de 2014. Segundo a Anatel, as teles devem cobrir com 3G, até abril de 2016, 60% dos municípios com até 30 mil habitantes.
— A ideia é adiantar essas metas no leilão de 4G e criar regras para a cobertura dos distritos, pois, em muitos casos, são mais populosos que os municípios — disse uma fonte do governo.
Na Vivo, que conta hoje com a maior cobertura 3G do país, Leonardo Capdeville, diretor de rede da tele, diz que a empresa está construindo novas rotas de fibras ópticas pelo interior para poder oferecer o serviço a novas cidades:
— Chegamos onde podíamos. O que sobrou são áreas que hoje só são possíveis de atender via satélite. Por isso, estamos construindo rotas para 3G e 4G.
A Claro pretende levar 3G a 1.500 cidades até o fim do ano, totalizando 381 novos locais. Em 2012, foram 459 novos municípios, segundo a Teleco. Alexandre Olivari, diretor de Serviços de Valor Agregado (VAS) da Claro, diz que os investimentos em 4G acabaram ocupando os "braços" da empresa.
— O fato é que as obrigações de implantação da rede 4G tinham um prazo de lançamento (até abril, as teles eram obrigadas a lançar rede nas seis cidades da Copa das Confederações). Então, as empresas tiveram de focar seus recursos (humanos) no 4G. Mas trabalhamos na expansão de todas as redes. Nosso planejamento é chegar a 3.700 cidades com 3G — afirma Alexandre.
A Oi também pisou no freio. Se em 2012, o avanço no número de municípios cobertos chegou a 155%, a previsão para 2013 é de uma alta de 44%.
Por outro lado, a TIM, decidiu acelerar os investimentos. Até dezembro, a meta é chegar com 3G a 990 cidades, o que vai representar 397 novos locais, contra as 105 novas cidades de 2012. É um crescimento de 278%.
— O desafio maior hoje é a rede de transporte. Vamos dobrar o tráfego de dados neste ano — diz Carlo Filangieri, diretor de rede da TIM Brasil.
O empresário Rodrigo Faro, que trabalha na área de serviços de telecom e comanda a PressCell, diz que a qualidade da internet 3G em outras cidades do país é inferior em relação a Rio e São Paulo.
— Percebi ainda que, no último ano, a velocidade caiu muito em função de promoções com pacotes ilimitados. Isso trouxe mais tráfego que não foi acompanhado com a infraestrutura necessária para manter o consumo.
