Pedro Luiz Rodrigues*
Brickcmann & Associados Comunicação
...Felizmente para Cristina Kirchner, pode ela contar com a providencial ajuda da Venezuela. E também com a ajuda incondicional do Brasil. o grande e poderoso vizinho que está estudando destinar quatro bilhões de dólares para o financiamento de usinas hidrelétricas na Argentina...
A Argentina, nossa grande sócia e primordial parceira, marcha garbosa para um novo e previsível desastre.
Parece inexplicável esse movimento elíptico que se repete em ciclos, que eleva aos céus a política, a economia e a psique do país vizinho, para, bruscamente, jogá-las de volta ao fundo do poço.
Há cem anos, a Argentina se via com uma potência em formação. De lá para cá o país perdeu inteiramente a visão de longo prazo. Períodos de bonança econômica foram todos desaproveitados. Simplesmente serviram para alimentar lideranças políticas populistas, de cunho autoritário.
É sob essa perspectiva que se deve buscar entender o episódio da apreensão do navio-escola argentino, a fragata Libertad, pela Justiça de Gana.
A presidente Cristina Kirchner foi ontem à televisão esbravejar contra todos. Só não falou da razão que levou à apreensão do navio. O fato de, depois de uma década, a Argentina ainda não ter resolvido o problema do default de sua dívida externa.
A prosperidade argentina reconstruída a partir da gigantesca crise de 2001 tem pés de barro. Não se chegou até hoje a um acordo definitivo e completo quanto à dívida externa. A Argentina tem quase 35 bilhões de dólares de dívidas a pagar, não renegociadas. Desse total, cerca de 7 bilhões são devidos a credores oficiais (reunidos no chamado Clube de Paris).
Por falta de acordo com o Clube de Paris a Argentina não pode recorrer a créditos internacionais a custos razoáveis, que seriam necessários para indispensáveis projetos de infraestrutura.
As dificuldades do país vão aumentando, e não é por outra razão que internamente se torna cada vez mais árduo o acesso a divisas.
No comércio internacional o protecionismo é crescente, sendo que o Brasil é um dos parceiros mais afetados. A inflação crescente vai solapando o pouco que resta de estabilidade macroeconômica.
Felizmente para Cristina Kirchner, pode ela contar com a providencial ajuda da Venezuela.
E também com a ajuda incondicional do Brasil. o grande e poderoso vizinho que está estudando destinar quatro bilhões de dólares para o financiamento de usinas hidrelétricas na Argentina.
Tem gente no BNDES que está hesitando diante das ordens superiores. Acham que o risco é grande.
* Pedro Luiz Rodrigues - Jornalista e embaixador
Artigo publicado originalmente na Coluna Cláudio Humberto