domingo, outubro 28, 2012

PT aposta em nomes novos. Mas a cartilha é a mesma


Otávio Cabral
Revista Veja

O partido é o único que cresce sem parar desde a sua fundação - mais por seus vícios do que pelas virtudes, como mostra reportagem de VEJA desta semana

(Wert Her Santana/AE) 
Que Mudança? O cenário e o candidato são novos, 
mas os métodos do PT são os mesmos eternizados por Lula 

O PT foi protagonista dos dois principais eventos políticos deste ano, o julgamento do mensalão e as eleições municipais. O fato de ter se saído mal no primeiro e bem no segundo levou alguns de seus próceres a uma conclusão equivocada. No Supremo Tribunal Federal, o partido criado por Luiz Inácio Lula da Silva foi flagrantemente derrotado. Líderes históricos, como José Dirceu e José Genoino, e nomes estratégicos, como o ex-tesoureiro Delúbio Soares - todos condenados por corrupção e formação de quadrilha -, agora preparam o enxoval com que seguirão para a cadeia. Já nas urnas, o resultado foi outro. O PT elegeu 626 prefeitos no primeiro turno - 14% a mais do que em 2008. E, neste domingo, pode coroar seu desempenho caso as pesquisas se confirmem e Fernando Haddad vença a disputa em São Paulo. Com os dois dados nas mãos, Lula apressou-se em concluir que o julgamento do mensalão não atrapalhou o PT. “O povo sabe discernir, sabe o que é um julgamento e o que é uma votação”, declarou. Trata-se de uma meia verdade.

Para conseguir manter seu crescimento e reduzir os danos do mensalão, o PT investiu em candidatos novos, sem relação com o escândalo - como em São Paulo. Já nos lugares em que insistiu em apostar em velhos nomes ligados aos mensaleiros, o desastre foi inevitável - caso do Recife e de Belo Horizonte. Dos dezessete candidatos próprios que lançou nas capitais, nove nunca haviam disputado uma eleição para o Executivo. Essa “renovação”, no entanto, tem o frescor de um pãozinho amanhecido. Se os nomes que o PT apresenta ao público são novos, os métodos que ele segue permanecem os mesmos. Nestas eleições, a face pública do modus operandi da sigla incluiu a contratação de marqueteiros estrelados - como João Santana, responsável pelas últimas campanhas presidenciais -, o uso intensivo da imagem de Lula e Dilma Rousseff (ela bem mais comedida do que ele) e a utilização explícita da máquina do governo para a conquista de apoio. Em São Paulo, a ex-prefeita Marta Suplicy só se dispôs a apoiar seu colega de partido depois de receber o Ministério da Cultura. O mesmo se deu com Gabriel Chalita (PMDB). Quarto colocado no primeiro turno, exigiu (e levou) o compromisso de indicar o futuro secretário da Educação na cidade como condição para apoiar Haddad.

Antonio Milena/Milenar
Repetição - Serra, o candidato tucano pela quinta vez
 neste século: a oposição insiste nos mesmos

Mas só isso não explica o fato de o PT ser o único partido que cresce sem parar desde a sua criação. “O PT é o partido político mais bem organizado do Brasil. Está em todas as cidades, investe na formação de novos quadros e tem uma proposta clara de poder”, diz o historiador Marco Antonio Villa. Além disso, ele avança porque:

• Tem estratégia: embora abrigue disputas internas, seu centralismo leninista impõe uma ação externa unitária.

• Recorre sem pudor ao aparelhamento: o uso de cargos e programas do governo federal para beneficiar petistas e aliados garante poder aos seus mandatários e votos aos seus candidatos.

• Conta com apoios setoriais: o governo Lula tentou agradar a todos os públicos. Bancos e empreiteiras foram agraciados com benefícios e se tornaram os maiores doadores de recursos ao partido. Movimentos sociais e ONGs passaram a dominar setores do governo. E os mais pobres ganharam com os programas sociais. Resultado: Dilma herdou um governo em que as principais classes organizadas estão com o PT.

• Seus adversários ajudam: a oposição, em termos de estratégia, segue na direção contrária do PT - é mal estruturada, desunida e desorganizada. Desde o início do julgamento do mensalão, parlamentares oposicionistas praticamente ignoraram a tribuna do Congresso como trincheira de ataque ao PT.

O sucesso de Haddad - que mesmo em uma improvável derrota se tornará uma nova liderança petista -- inspirou o PT a seguir o modelo da renovação de nomes nas próximas eleições. Políticos jovens como Alexandre Padilha e Lindbergh Farias estão sendo preparados para a disputa a governador (veja o quadro). Já na oposição, José Serra, por exemplo, vencendo ou perdendo em São Paulo, dificilmente disputará mais uma eleição - foram cinco neste século. E não há nomes no horizonte para carregar a bandeira dos tucanos, com exceções como o senador mineiro Aécio Neves, o provável candidato do PSDB à Presidência. As urnas não mostraram, como gostaria Lula, que o eleitor perdoou o mensalão. Mostraram que uma boa estratégia pode mitigar o desgaste de um escândalo - e garantir a sobrevivência de um partido que hoje se sustenta mais por seus vícios do que pelas virtudes.