Adelson Elias Vasconcellos
Foi com enorme satisfação que assisti as transmissões das manifestações de segunda feira, quando mais de 200 mil pessoas, em todo o Brasil, saíram às ruas para mostrar seu inconformismo com este Brasil que ninguém quer (ao não os políticos e os amigos do reino).
Várias observações importantes se pode fazer sobre as passeatas e protestos, com conclusões que nos dão o que pensar. Primeiro, ficou claro que, mesmo uma ideia estúpida como o tal passe livre, é capaz de provocar uma indignação em escala inimaginável há um mês atrás, por exemplo. Ao se rebelarem contra os aumentos das tarifas do transporte público, despertaram em toda a sociedade (ou quase toda, falo disso mais adiante), um sentimento de revolta que parecia que nunca aconteceria, não ao menos no Brasil. Não que não houvesse inconformismo. Porém, aquela coisa nos incomodava por dentro, meio nebulosa, sem sabermos distinguir do que se tratava. Não é por outra razão que muitos dos que se somaram às multidões , traziam em seus cartazes, não o pedido de redução das tarifas, mas bradavam por mais educação, saúde, segurança, e menos impunidade e corrupção. E de sobremesa, outros se rebelavam contra os gastos com as Copas das Confederações e do Mundo, a PEC 37. Faltou mais cartazes pedindo cadeia para os mensaleiros julgados e já condenados pela Justiça.
A primeira consequência no meio político, além do estratégico recuo dos prefeitos, reduzindo estas tarifas, é o medo e terror que se abaterá sobre algumas cabeças coroadas da nossa república. O povo mostrou sua cara, sua força, sua indignação e a que ponto de revolta ela pode chegar se a política brasileira insistir em trilhar os mesmos caminhos com que vem sendo conduzida de alguns anos para cá. Disse antes e repito agora: o que lamento é que estas gigantescas manifestações tenham ocorrido num tempo ainda distante das eleições de 2014.
Faltando ainda mais de um ano, isto dá tempo para que se ergam puxadinhos, arremedos e paliativos capazes de maquiar a inação dos nossos governantes. Vocês não imaginam a imensa capacidade que esta gentalha tem quando se trata de defender sua sobrevivência nas tetas do tesouro!
Até outubro do ano que vem, poderemos esperar um rearranjo do mundo político, na edição de pacotes e pacotinhos, com o propósito de passar mel nos beiços do povão para parecer que eles estão atuantes, que estão ouvindo e dando atenção as vozes que vem das ruas. Até seus discursos palanqueiros, não menos hipócritas, cínicos e demagógicos, ganharão novos apelos e argumentos. Teremos pela frente, principalmente quando se abrir a campanha eleitoral de 2014, um festival de sandices, mistificações e promessas ridículas (e por isso inviáveis), que, se bem analisadas, parecerá concurso público para ingresso no circo estatal...
Por isso me preocupa muito o “depois” que se seguirá à redução das tarifas, apelo número um destas manifestações. Esta redução, é claro, não terá o dom de apagar ou desfazer a insatisfação nacional com o Brasil que se tem. Se esta bandeira por mudanças puder ser mantida, pode ser que a campanha eleitoral que virá, ganhe novos contornos e coloridos. Porém, se ela murchar, é bem capaz de vermos reeleitos as mesmas ratazanas que atazanam e atrasam o desenvolvimento do país. Daí porque sugiro a seguinte campanha: não reeleger ninguém em 2014..
Para mudar é preciso dizer o Brasil que queremos. Isto exige um projeto de país. Pois bem: quem hoje tem este discurso, esta proposta e a estratégia adequada para dar direção ao clamor popular? Nem o PT fez questão de ter, mesmo estando no poder há mais de dez anos, tampouco a oposição se encarregou de construir tal plataforma, ocupada demais em se autodestruir. O PT, por razões óbvias, tratou de se unir ao que há de mais retrógrado, para se manter onde chegou com discursos e propostas completamente contrárias aos discursos e propostas que apresentou para se eleger. Como este “novo Brasil” que está no coração dos brasileiros exige mudanças que são verdadeiros tabus para os petistas, não será ele quem dará o primeiro passo. Toda e qualquer mudança estrutural, por óbvio, sempre agradará a uns e irá contrariar outros tantos. E o PT não irá apostar colocar seu capital político em jogo para agradar o Brasil. Compactuará com mudanças até o ponto limite em que este capital político for colocado em risco.
A oposição, se pensasse mais no país do que em futricar correligionários, até que tem estofo para encarar o risco. Aliás, fez isso a partir do Plano Real, e até hoje paga um alto preço político pela ousadia de enfrentar os interesses contrariados dos oligarcas.
Como o PT, esperta e maquiavelicamente roubou para si a paternidade da obra que ele próprio combateu, e isto emprestou ao partido a popularidade de que desfruta, os líderes da oposição em sua maioria, se borram de medo de enfrentar os petistas. É bom registrar que o PT tem a seu favor toda uma máquina estatal e sindical bem azeitada, e não se furtará em momento algum de empregá-la até de modo desonesto, para se dizer o mínimo, com o objetivo de desqualificar a quem lhe opor dificuldades.
Fossem as eleições em outubro próximo, talvez pudéssemos sonhar mais, esperar mais, confiar mais. Não haveria tempo para repor a confiança perdida. E esta insatisfação nacional serviria como rolo compressor para afastar da vida pública o monte de porcaria que ali se alojou.
Por isso, é com enorme expectativa que devemos observar a movimentação dos ventos dos próximos meses, não importando o lado do balcão em que estivermos posicionados. Analisar, com extremo cuidado e critério, o recado que sairá das próximas pesquisas de opinião. Mas elas não podem servir como único canal de informação. Ouvir com cuidado o que se está dizendo nas ruas e nas redes sociais. Este gigante que acabou de despertar, ainda não está totalmente de pé. Assim como ele pode voltar a adormecer, ele pode erguer-se de seu sono esplêndido e mover-se. E este é o movimento que todos nós pretendemos: que o gigante se mova.
Porém, para todos aqueles que não reduzem seu inconformismo ao preço do transporte, mas que trazem em suas agendas outras demandas, é bom manter distância de movimentos que, sob o signo da promessa vazia mas embaladas na pura demagogia, tentarão capturar simpatias e apoio, para tudo ficar como está e sendo tocado pelos mesmos patifes que já estão lá. Se é para mudar, mudemos os atores sob o compromisso dos novos cumprirem outros papéis. Não será pela campanha do voto nulo que atingiremos o objetivo. Há um exército imenso de beneficiários cujo voto, voz e consciência foi comprado, cooptado, coagido e silenciado e que se manterão fiéis aos seus donos e gigolôs. Talvez por conta das bolsas que os sustentam, a gente quase não percebeu a presença de gente pobre e necessitada nas passeatas. Não que não existem pobres insatisfeitos. Mas é preciso deixar claro quem é que trabalha, estuda e sustenta esta zorra toda: é a verdadeira classe média, sem bolsa nem favores privilegiados, e que não vive de cotas, e sim de trabalho. Portanto, o “muda Brasil” exige atores novos, projetos novos, estratégias novas. E não será anulando o voto que o Brasil mudará.
Entendo que, todo o esforço empreendido para mostrar ao mundo nosso inconformismo, não pode resumir-se e contentar-se com o troco de vinte centavos que eles nos deram. Creio que a nossa honra valha muita mais do que isso.