Fernando Eichenberg
O Globo
Especialista em Turquia da Sciences Po, em Grenoble, diz que movimento está mais fraco
DADO RUVIC / REUTERS
Manifestantes fazem protesto no centro do Ancara
PARIS – Para o analista francês Jean Marcou, especialista em Turquia e diretor do departamento de Relações Internacionais da faculdade de Sciences Po de Grenoble, o aumento da repressão do governo surpreendeu e enfraqueceu as manifestações de protesto, mas o movimento não parece em fase de desistência. O cientista político aponta para um movimento de reivindicações por liberdades cívicas de uma população descontente com um governo que procura se perpetuar no poder e impor novas normas de sociedade.
O GLOBO: Como o senhor vê o movimento de protestos com endurecimento da repressão do governo do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan?
Jean Marcou: Já sentimos o movimento enfraquecido. Desde do fim da semana passada entrou-se numa fase de repressão do movimento, isto é muito claro. Isto surpreendeu porque no meio da semana Erdogan fez duas reuniões com artistas e representantes do movimento. Tinha-se a impressão de que ele buscava uma solução negociada, porque falou de referendo. Mas não estava muito claro, porque a Constituição turca não autoriza referendo numa situação destas. A destruição do acampamento de ocupação foi suspensa por uma decisão de Justiça, e ele disse que na espera do recurso judicial o governo respeitaria a sentença de primeira instância.
O problema é que após a segunda reunião, Erdogan deu um ultimato de 24 horas para a desocupação do acampamento, e após apenas algumas horas fez a polícia intervir na praça Taksim, com a destruição de tendas e a expulsão de militantes. Erdogan retomou o controle, e mobilizou dois grandes encontros políticos da AKP (o partido do governo) para limitar os estragos, sob a bandeira do “respeito à vontade nacional”. Há essa ideia de dizer que se trata de uma minoria de agitadores, de vândalos. Ele disse várias vezes que a situação não poderia continuar como estava e que se deveria acabar com a agitação extremista. Disse que eram terroristas e falou mesmo de um complô do exterior. Há hoje uma tendência repressiva. Mas o movimento não parou, vemos novas manifestações e protestos. Um jovem permaneceu seis horas imóvel diante do retrato de Ataturk (o fundador da República turca) na praça Taksim, e outras pessoas se juntaram a ele. E agora várias pessoas se colocam em pé diante de vários símbolos para demonstrar seu protesto. Hoje (terça-feira) houve muitas prisões de pessoas em suas casas, e o ministro do Interior falou de uma regulamentação do uso das redes sociais na Turquia. Mas o movimento continua, com agrupamentos em Ancara, Istambul, Eskisehir. Houve também uma sondagem do instituto Metrópole, em que a maioria dos entrevistados apontaram a evolução do regime turco para um viés mais autoritário e repressivo. Essa pesquisa de opinião coloca também o governo como o responsável pelos incidentes porque administrou mal a situação de contestações.
O GLOBO: Qual o papel da oposição neste movimento?
Jean Marcou: Penso que a oposição é pouco representativa deste movimento. E, na minha opinião, por isto eclodiram as manifestações. A oposição não está a altura de seus deveres políticos, e as pessoas quiseram se expressar de outra forma. Há também a ideia de não aceitar um governo que faz das eleições um tipo de ditadura das urnas. As pessoas em geral não se veem representadas pela oposição. Trata-se sobretudo de um movimento cívico.
Que mudanças o senhor vê as mudnaças na sociedade turca?
Jean Marcou: Creio que sociedade turca mudou bastante nos últimos 20 anos, principalmente graças a um desenvolvimento fulgurante. Houve uma urbanização muito forte e uma elevação do nível de vida, com uma aparição de novas classes médias. O movimento vem também daí. Ele é bastante diferente dos movimentos da “Primavera Árabe”, que visavam a derrubar ditadores que reinavam há décadas, como (Hosni) Mubarak (Egito), Muamar Kadafi (Líbia) ou (Zine al-Abidine) Ben Ali (Tunísia). Na Turquia, o movimento partiu de uma reividicação cívica. Certamente há contestação do partido no poder, mas o objetivo não é o de derrubar uma ditadura. Falou-se também de um movimento um pouco como o dos “Indignados”, que ocupou Wall Street. Nestes dois movimentos vemos semelhanças: a mobilização pelas redes sociais,a ocupação de lugares simbólicos - a praça Tahir (Egito), a avenida Bourguiba (Tunísia), a praça da Pérola (Bahrein). Mas os objetivos são diferentes. Os indignados se sentem vítimas dos sistema econômico contemporâneo, principalmente de uma capitalismo selvagem, da finança contra os homens. Na Turquia não se trata disso, pois nos últimos anos houve um progresso econômico. É uma demanda por liberdade, por democracia, por ser ouvido. É um pouco uma reflexão sobre o que a sociedade quer, e uma crítica a um governo percebido como cada vez mais conservador, querendo impor um modo de vida oficial. Vejo um movimento talvez mais próximo de Maio de 68 na França, quando se tinha um país em crescimento, mas com uma geração que denunciava a sociedade de consumo e exigia um novo tipo de vida social.
Qual é a influência atual do islamismo?
Jean Marcou: Diria que há sobretudo um islamismo que funciona mais como um poder conservador do que como um islamismo militante ou ideológico. É um poder conservador impondo às pessoas modos de vida mais convencionais, de respeito a uma certa moral religiosa nas artes, nos filmes. Erdogan criticou novelas por seu tratamento da História. Há a questão de não beber álcool em alguns lugares, não se beijar em público. As pessoas começaram a se beijar em público como uma forma de protesto. É a religião que vem assegurar uma certa moral social, que também tem seus objetivos políticos.
Como senhor analisa estes movimentos no contexto das eleições na Turquia no ano que vem?
Jean Marcou: É verdade que o movimento atual se explica também por essa perspectiva inquietante de um primeiro-ministro e de um partido que são cada vez mais dominadores. As manifestações vieram de uma certa maneira atrapalhar a agenda política do AKP, que passa pelas eleições locais e presidenciais no que vem. Com ou sem uma nova Constituição, haverá eleições presidenciais em 2014. Serão as primeiras deste tipo na história do país. E é muito provável que Erdogan sonhe em ser candidato. E talvez ocorra no meio tempo a elaboração de uma nova Constituição. Na Turquia, o regime presidencial poderá centralizar ainda mais seu poder, e tenho a impressão que o movimento surgiu também em vista deste momento de transição política. O AKP está no poder desde 2002, e respeitou o sistema parlamentar legado pela democratização da República nos anos 1950. Mas hoje Erdogan tenta mudar o sistema para que constitucionalmente possa exercer o poder se tornando presidente. Todo mundo tem direito a ser candidato, mas o que inquieta é que trata-se do mesmo homem que governa há mais de dez anos, e que muitas vezes em seu discurso se projeta no futuro, falando de planos para 2023, um pouco como se ainda estivesse no poder nesta data. E uma das dimensões importantes da democracia é a alternância, e acho que isto preocupa as pessoas. Vemos um tipo de “Putinização”, de evolução à la russa do sistema turco.
