Helena Celestino
O Globo
Em Berlim, Obama corre o risco de se deparar com manifestantes comparando os EUA com a velha polícia secreta da Alemanha Oriental
Barack Obama, presidente dos Estados Unidos
A coreografia é perfeita, mas o script desandou. Passaram-se 50 anos desde que John Kennedy levou esperança a uma cidade dividida e maltratada pelas durezas da Guerra Fria: “Eu sou um berlinense”, disse com graça o carismático presidente num histórico discurso em que lançou as bases da aliança entre os dois países. Barack Obama vai voltar nesta quarta-feira ao Portão de Brandenburgo, o marco da antiga divisão de Berlim, mas o clima de celebração ficou perdido no passado.
O candidato que há cinco anos e meio levou 200 mil berlinenses à rua chegou para esta primeira visita de Estado à Alemanha desacreditado por escândalos de espionagem em massa, e com a liderança balançada pela falta de acordo no G-8 em torno de sua proposta para a Síria. Falará para um público restrito a quatro mil convidados, numa Alemanha unida, rica e forte, incontestavelmente uma potência autônoma e hegemônica no continente. E ainda corre o risco de se deparar com manifestantes comparando os EUA com a velha Stasi, a detestada polícia secreta da Alemanha Oriental que controlava a vida dos cidadãos.
O roteiro ficou pobre. O encontro entre o popstar da política americana e a mulher mais poderosa da Europa será só a oportunidade para uma bela foto num cartão-postal histórico. “É só um simbolismo político, nada mais”, disse um membro do governo alemão à revista “Der Spiegel”. O discurso de Obama sobre valores compartilhados entre os dois países pode relembrar a diferença com que a Alemanha equilibra ameaças terroristas e liberdades individuais. Merkel tem uma eleição em dois meses, e na agenda dos dois — por pressão dos verdes — consta a proteção da privacidade dos alemães. Os especialistas dizem que as conversas não terão a ambição de desenhar uma nova ordem do mundo, mas tratarão de regulamentações que facilitarão o acordo comercial entre União Europeia e EUA, a ser discutido mais tarde. “Tedioso como a conversa de um casamento sem amor”, disse um jornalista, na longa fila de credenciamento para a cobertura da visita — num sinal dos tempos, a programação de Obama em Berlim só tinha uma versão em alemão, atitude de potência hegemônica.
Nesta viagem de três dias à Europa, Obama está convivendo com as frustrações dos europeus com os descaminhos da política externa americana — aliás, sua popularidade caiu oito pontos e está no mais baixo patamar em 18 meses. Acabou a empolgação despertada por ele quando prometeu unir os Estados Unidos em torno dos velhos ideais democráticos, abandonados em nome da guerra ao terror. Nas duas eleições que disputou, ele era o candidato favorito de todos os países da Europa — com exceção da Polônia — mas a guerra dos drones, a espionagem ilegal e, agora, a titubeante decisão de armar os rebeldes da Síria deixaram seu governo parecido demais com os anteriores. “George W. Obama e a segurança nacional”, dizia uma manchete do “Le Monde” semana passada, para expressar a sensação de repetição das velhas práticas da era Bush. O velho Obama encantador de serpentes, o orador com talento para energizar as plateias, pode reconquistar uma parte da magia perdida, aproveitando-se do cenário histórico. Mas está cada vez mais claro a distância entre seus discursos e sua prática política.
Só dá eles
As previsões se cumpriram. Com o início dos grandes eventos, o Brasil está na mídia internacional em tempo integral, mas, ao contrário das expectativas, os protagonistas são as milhares de pessoas nas ruas expressando sua insatisfação e, com frequência, apanhando da polícia. O consenso na mídia internacional é que o modelo brasileiro entrou em pane — como manchetou o “Le Monde” ontem — e os gastos com a Copa são absurdos num país com tantas deficiências de infraestrutura.
As pautas, assim como a imagem do Brasil no mundo, mudaram bruscamente. Antes do início da Copa das Confederações, eram as belezas do Pantanal, a luz do entardecer no Rio e o novo Maracanã os destaques nas televisões, reforçando as fantasias dos europeus com o “paraíso tropical”. Foi com certa ternura, por exemplo, que a BBC filmou as meninas da Rocinha planejando uma cirurgia plástica a ser paga em várias prestações — história encarada como um toque de exotismo no país em fase de rápida mudança social.
Mas o Brasil idealizado foi sumindo progressivamente da mídia internacional e entrou o país real, de gente que gosta de futebol, mas enxerga a corrupção e disso não gosta nada. “O país do futebol reclama de estádios em cidades sem time”, espantava-se um comentarista no jogo de abertura da Copa das Confederação em Brasília. O Brasil não está mal na foto feita pela mídia nestes dias de agitação social: é um país com contradições e reivindicações de mais igualdade e melhores serviços. Mal ficaram os políticos e a polícia, com a incompreensão diante de movimentos democráticos e a repressão violenta às manifestações. Nas televisões, as imagens de intolerância na Turquia ficam perigosamente parecidas com as cenas nas ruas brasileiras. E a culpa não é da mídia.
